Manejo de infestação de mosca branca em soja e algodão

Produtores de soja do Médio Norte do Mato Grosso enfrentaram problemas com a mosca branca Bemisia tabaci (Gennadius) biótipo B, também referida como B. argentifolli Bellows & Perring. Os municípios de Lucas do Rio Verde, Nova Mutum e Sapezal já tinham presença da praga desde o início da safra, mas em algumas áreas, a população aumentou muito no final da safra devido a erros de manejo desse inseto.


Na safra de 2012/13 muitos produtores já enfrentavam o problema e houve muito abandono de áreas com alta infestação da mosca branca. Outro ponto importante é que a mosca branca tem um grande número de hospedeiros. O seu ciclo só não é tão intenso em gramíneas. Áreas com a cultura do algodão também favorecem a praga, mesmo com aplicação de defensivos químicos. Além disso, o fator climático também interfere onde a mosca branca permanece nas lavouras até em períodos de seca, sendo um ambiente preferido para essa espécie.

A mosca branca é uma das pragas causadoras de prejuízos à cultura da soja e do algodoeiro no estado do Mato Grosso. Ao sugar a seiva das plantas, os adultos e ninfas provocam alterações no desenvolvimento vegetativo e reprodutivo da planta, debilitando-a e reduzindo sua produtividade.

A biologia da mosca branca é complicada pela aparente existência de diferentes biótipos, cujo significado evolutivo e prático continua pouco esclarecido. No Brasil existem diferentes biótipos de B. tabaci e a B. argentifolii (também chamada de Biótipo B da B. tabaci), cuja separação só é possível de ser feita através de marcadores moleculares ou técnicas especiais de criação.

Os adultos medem 0,8mm de comprimento e, aparentemente, são de coloração geral branca, mas apresentam asas brancas e corpo amarelo. Sob condições climáticas favoráveis, seu ciclo de vida pode ser de duas a quatro semanas, podendo produzir até 15 gerações por ano. Localizam-se, preferencialmente, na face inferior das folhas, onde ovipositam, em média, 150 a 300 ovos por fêmea. A preferência para oviposição em algodão é afetada pela estrutura da folha, pela gravidade (positiva) e pela luz (negativa, exceto para adultos em voo). Outros fatores que podem estar envolvidos são interações entre gravidade, luz, estruturas foliares, condições ambientais e inimigos naturais. A temperatura é o principal agente externo que influencia a metamorfose progressiva da mosca branca, fazendo com que o seu ciclo de vida possa variar de 15 a 24 dias. As ninfas apresentam coloração verde-amarelado e passam por quatro instares. A ninfa de 1º instar é móvel, ou seja, apresenta pernas e é capaz de se mover na folha ou planta. Já a partir do 2º instar, as ninfas perdem as pernas e são imóveis. Permanecem dessa forma até a emergência do adulto. A partir do 3º instar, as ninfas são facilmente visíveis, assemelhando-se a cochonilhas. As ninfas das moscas brancas do gênero Bemisia caracterizam-se por não terem franjas formadas por filamentos ceráceos ao redor do corpo.

Danos

Na cultura da soja o dano direto é causado tanto pelas ninfas como pelos adultos, que ao se estabelecerem na face inferior da folha sugam a seiva, extraindo carboidratos e aminoácidos, podendo causar folhas com manchas cloróticas, murcha e queda. Ocorre a depauperação das plantas pela extração da seiva, comprometimento do desenvolvimento vegetativo e reprodutivo da planta, reduzindo a produtividade e a qualidade na produção e, em ataques severos, antecipação do ciclo em até 15 dias.

Durante a alimentação, o inseto excreta um “melado" que favorece o desenvolvimento de fumagina um fungo negro que cresce sobre as folhas, escurecendo-as, prejudicando a realização da fotossíntese e, consequentemente, pode interferir na produtividade dependendo do estágio da planta e população presente da praga. São as ninfas que liberam grande quantidade dessa substância açucarada, possibilitando maior crescimento de fumagina sobre as folhas que, tornando-se pretas, absorvem muita radiação solar, provocando “queima" e queda das folhas da soja.

Ataques severos provocam o amarelecimento das folhas mais velhas. Quando as plantas são jovens pode ocorrer a seca e até a morte das folhas. Os danos podem se agravar se houver períodos de veranico ou irrigação inadequada.

Na cultura do algodão, os adultos e as ninfas se alimentam através da sucção da seiva do floema das plantas, retirando os nutrientes das plantas, podendo levá-las à morte ou queda de produção. As folhas atacadas tornam-se amareladas, secam e, como principal sintoma, caem. Durante sua alimentação ocorre excreção de uma substância açucarada e pegajosa, conhecida como “honeydew". Essa secreção acarreta a formação da fumagina sobre ramos, folhas e frutos, ocorrendo em consequência redução da capacidade fotossintética da planta, contaminação do línter do algodoeiro e prejuízo à qualidade da fibra, além de interferência na colheita.

Dano indireto

A mosca branca é vetor de vírus dos grupos geminivírus, carlavírus, closterovírus e luteovírus. Para a cultura do algodão, os vírus do grupo geminivírus são os mais comuns. Como insetos-vetores podem causar danos mais graves, mesmo quando presentes em baixas populações. Embora outros fitopatógenos possam ser transmitidos por esse inseto, os vírus são causadores dos maiores problemas. Em soja, os principais danos são relacionados à transmissão de viroses, caracterizados pelos sintomas: nanismo severo, enrolamento de folhas, intensa clorose e diminuição da produção de grãos.

Manejo integrado

O Manejo Integrado de Pragas (MIP) é o uso de diferentes estratégias para controle e convivência com a praga. Destaca-se a busca de inseticidas seletivos ou um uso seletivo deles e o prolongamento da vida útil dos inseticidas eficientes contra este inseto. Ambas as opções podem implementar-se mediante avaliação de novos produtos, o aperfeiçoamento dos métodos de aplicação e o monitoramento constante dos níveis de resistência de mosca branca em áreas específicas, para realizar rotação dos inseticidas, no contexto de outras práticas próprias do MIP. Devido às características do inseto, o controle químico tem sido o método mais empregado, todavia, seu uso intensivo em alguns sistemas de produção pode conduzir ao aparecimento de populações resistentes.

Altas populações tornam-se difíceis de controlar, bem como a exposição repetida aos inseticidas sem rotacionar o modo de ação, sendo muito provável a evolução de resistência a produtos. Desta forma, deve-se utilizar uma estratégia integrada com controle biológico, controle cultural e controle químico.

A preservação de inimigos naturais nos agroecossistemas é de fundamental importância como fator de equilíbrio dinâmico das populações de espécies de insetos-praga, minimizando a intervenção do homem no controle. Por isso, são necessários estudos básicos de seletividade de produtos, pois as informações obtidas poderão ser utilizadas nas tomadas de decisão com relação ao produto a ser utilizado.

O controle biológico, atualmente, possível consiste na preservação dos inimigos naturais da mosca branca pelo uso de inseticidas seletivos. Várias espécies de inimigos naturais têm sido identificadas em associação com complexo de espécies de mosca branca. No grupo de predadores, foram identificadas 16 espécies das ordens: Hemíptera, Neuróptera, Coleóptera e Díptera. Entre os parasitoides, identificaram-se 37 espécies de micro-himenópteros. Dentre os parasitoides destacam-se os gêneros Encarsia, Eretmocerus e Amitus, comumente encontrados. Com relação a entomopatógenos, há diversos isolados mais virulentos dos fungos Verticillium lecanii, Paecilomyces fumosoroseus, Aschersonia aleyrodis e Beauveria bassiana, com ação sobre moscas brancas. Em um programa de controle biológico, após a identificação de inimigos naturais, deve-se estabelecer de modo mais eficiente o emprego desses agentes, provavelmente, por liberações inundativas bem no início da cultura ou através de liberações de parasitoides em plantas daninhas adjacentes. Em vários países, estão sendo identificados e estudados diversos agentes de controle biológico da mosca branca, cujos resultados têm sido bastante promissores para o manejo dessa praga.

Algumas espécies nativas da família Malvaceae são hospedeiros reservatórios do vírus, principalmente Sida rhombifolia (guaxuma), S. micrantha (vassourinha) e Nicandra physaloides (joá-de-capote), além de outras plantas cultivadas como feijoeiro, soja, quiabeiro e tomateiro. O controle é realizado por meio da eliminação das malváceas nativas próximas ao plantio, arranquio de plantas sintomáticas e controle químico da mosca branca. Ainda não foram relatadas cultivares resistentes ou tolerantes. Outras plantas daninhas como nabo forrageiro, leiteiro, picão preto, corda de viola, trapoeraba devem ser eliminadas das áreas por serem hospedeiras do inseto.

Nessa safra observaram-se infestações altas de mosca branca em Crotalaria ochroleuca sendo preferencial em relação a outras espécies como C. spectabilise C. juncea.

Outra estratégia do MIP é a utilização de cultivares das culturas comerciais que ofereçam tolerância ao ataque ou não preferência dos insetos. Nas safras 2011/2012 e 2012/2013 realizou-se quantificação da população de mosca branca em algumas cultivares de soja utilizadas em Mato Grosso. No primeiro ano do trabalho a infestação foi alta desde o início do ciclo da cultura e observou-se que as cultivares TMG1176RR, TMG132RR e P98Y11 apresentaram menor preferência para oviposição e colonização de mosca branca em relação às demais avaliadas que apresentaram população superior (TMG1188RR, NA8015, TMG1288RR, TMG133RR e TMG127RR). Na safra 2012/2013 a população de mosca branca foi crescente durante o ciclo da cultura e as cultivares TMG1288RR, TMG1176RR, TMG132RR e P98Y11 apresentaram desenvolvimento mais lento e inferior dessa população durante o ciclo da cultura. No entanto, em alguns momentos do desenvolvimento da cultura todas as cultivares avaliadas apresentaram populações altas, o que indica que quando há uma alta pressão do inseto não é possível diferenciar a preferência ou não pelas diferentes cultivares de soja. Esse estudo deve ser continuado a fim de identificar outras cultivares em relação a não preferência de mosca branca.

As aplicações preventivas e/ou sucessivas de produtos fitossanitários, para controlar a mosca branca na soja podem favorecer a seleção de insetos resistentes e o aumento da população da praga. Uma das táticas mais importantes de manejo de resistência de pragas a inseticidas é a rotação por modo de ação e para atingir este objetivo é fundamental criar um programa de rotação com produtos que possuem mecanismos de ação distintos. Portanto, os técnicos precisam conhecer o modo de ação dos inseticidas e acaricidas existentes no mercado, para incluí-los em suas recomendações de controle químico de pragas.

Em traços gerais é importante realizar medidas preventivas que desfavoreçam o desenvolvimento de mosca branca nas áreas de cultivo sendo: eliminar plantas hospedeiras da praga dentro da cultura e em áreas vizinhas; fazer levantamento e contagem da praga no campo; utilizar produtos seletivos para manter os inimigos naturais; destruir os restos culturais; evitar o plantio de cultivares muito atrativas à praga; treinamento do monitor e do aplicador de produtos; seleção dos produtos considerando: rotação de modo de ação, efeito sobre inimigos naturais e fase de desenvolvimento da mosca branca.


Confira o artigo na edição 181 da Grandes Culturas.

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Lúcia Vivan

Fundação MT