​Contra a fitotoxicidade

A produção de soja no Brasil permanece na crescente busca por patamares mais produtivos, por aumento de área plantada ou mesmo na repetição do cultivo na mesma safra. Esta busca por produtividade tem colocado a técnica agronômica sob pressão no intuito de encontrar alternativas sustentáveis para tornar esta prática possível, o que nem sempre pode apresentar resultados satisfatórios. Quanto maior for a área a ser tratada com defensivos agrícolas, maior é o problema logístico dentro da fazenda, remetendo a aplicações com alto risco de comprometimento da eficácia do controle químico, além de reflexos negativos sobre a cultura a ser trabalhada.

Nesta safra, tem sido observados relatos de diversos agricultores do Sul do país com problemas de fitotoxicidade pela aplicação de fungicidas do grupo dos triazóis, comprometendo a área foliar da soja (Figura 1). A fitotoxidez é a concentração excessiva do ingrediente ativo na superfície da folha, podendo estar em estresse (potencializa) ou não, causando queima ou destruição das células pela dificuldade da planta metabolizar tal quantidade de ingrediente ativo. É importante ressaltar que todo produto químico aplicado sobre as plantas é tóxico, seja herbicida, inseticida ou mesmo fungicida. Um exemplo prático é a deficiência de manganês gerada em plantas transgênicas de soja pela aplicação do herbicida glifosato. Assim, a planta precisa ter mecanismos de “desintoxicação” da presença daquele produto externo no seu interior celular, também chamado de xenobióticos. Desta forma, quanto maior for o período para “desintoxicação” maior será o residual dentro da planta. Entretanto, o grande desafio dos produtos é manter este ingrediente ativo no interior celular sem comprometer o seu desempenho.

Figura 1 – Sintomas de fitotoxicidade na folhagem da cultura da soja

Como identificar na área

Fungicidas podem causar diversos níveis de fitotoxidez, porém, diversas circunstâncias agronômicas que cercam as plantas podem potencializar este efeito, tornando-o aparente e de severidade elevada. Locais na lavoura que apresentam os primeiros sintomas:

  • Folhas do topo: excesso de ativo na gota e formação de depósitos cristalinos.
  • Deformações foliares: encarquilhamento – aumento da curvatura da epiderme da folha e de aspecto coriáceo, similar à folha do repolho (Figura 2a). Carijó - queima dos tecidos entre as nervuras da folha. Verificar a raiz para não confundir com problema radicular (Figura 2b).
  • Bordas da lavoura: chegada ou saída do pulverizador após acionamento ou desligamento da barra.
  • Sobrepasse da barra de aplicação: reposição do ingrediente ativo na mesma planta.
  • Não se apresenta em plantas isoladas: por questões operacionais, o problema será visível em áreas de grande trânsito do equipamento.

Assim sendo, o problema ocasionado pela fitotoxidez nos tecidos da planta devido à aplicação do produto está relacionado a fatores fisiológicos e de tecnologia de aplicação.

Fator fisiológico

A fitotoxicidade de alguns triazóis está relacionada à combinação de temperaturas altas, estresse hídrico - ou não – e com a genética da cultivar utilizada. É notório que algumas cultivares possuem maior “sensibilidade” à aplicação deste grupo químico que fica potencializado por estas condições. Isto pode estar relacionado a fatores como o espessamento de cutícula e a atividade fisiológica da planta para “desintoxicar” seus tecidos, variando a velocidade de absorção de produtos pela folha.

A velocidade de absorção do fungicida no cultivo da soja depende das características inerentes aos ingredientes ativos aplicados, bem como da constituição da epiderme das folhas no momento da aplicação (Lenz, 2010). Toda superfície primária aérea que um produto químico irá encontrar em plantas vasculares será uma fina película superficial, a cutícula, que é composta de lipídios solúveis e poliméricos (Jeffree, 1996). A cutícula tem como principal função a de proteção dos tecidos vivos das plantas contra a perda de água (Schönherr, 1982), mas constitui-se também em uma barreira para a absorção de produtos químicos aplicados via foliar (Balardin, 2010).

A atividade fisiológica normal de uma planta depende do aporte suficiente de água. A diminuição na oferta da água acarreta maior dispêndio de energia para manter a turgescência ou propiciar o crescimento de novas raízes para aumentar a capacidade de absorção de água. Kissmann (1998) relata que abaixo da cutícula localiza-se a parede celulósica, que é hidrófoba. Entre a cutícula e a parede celulósica, existe a pectina, que por sua vez é hidrófila; logo, ela absorve água como uma esponja. Em folhas de plantas sob déficit hídrico, a cutícula é mais espessa, dificultando a penetração de patógenos e de produtos.

Dados de pesquisa têm indicado que plantas submetidas a estresse hídrico apresentam maior retenção dos ativos na epiderme ou células da planta. O aumento de retenção dos ativos, aliado a uma maior concentração nas porções superiores do dossel da planta, tende a potencializar a ação fitotóxica do produto aplicado. A água adere às microfibrilas de celulose e a outros componentes hidrofílicos da parede celular. À medida que evapora das células, a remanescente é sugada para dentro dos interstícios da parede celular. Devido à alta tensão superficial, quanto mais água for removida da parede celular, maior o aumento na pressão negativa da água. Com o aumento na diferença de concentração entre a gotícula pulverizada na superfície e a quantidade de água no interior da folha, é observada uma maior difusão do fungicida para o interior da folha. Este aumento de concentração do fungicida na célula potencializa tanto sua eficácia de controle como o efeito fitotóxico que possa apresentar.

Fator tecnologia de aplicação

Como observado anteriormente, a predisposição genética da cultivar à fitotoxicidade é fundamental para que o dano ocorra. No entanto, as condições impostas pela aplicação irão potencializar estes danos na folhagem, podendo torná-los severos. Sendo assim, a causa pode ser variada com a associação ou não de fatores a seguir.

Clima

As observações de vento, temperatura e Umidade Relativa (UR) são primordiais para minimizar os riscos de fitotoxicidade na folha. Principalmente estas duas últimas precisam ser monitoradas durante e depois da aplicação do fungicida, evitando ao máximo ultrapassar os 30°C e 55% de UR. Altas temperaturas aceleram a desidratação da gota pulverizada antes de atingir o alvo, ou mesmo as que atingiram e não houve tempo suficiente para a absorção pela folha. Assim, neste último caso, a gota será rapidamente evaporada, formando depósitos cristalinos do ingrediente ativo na superfície foliar (Figura 3), que em caso de estresse hídrico ou térmico (Figura 4), pode potencializar a queima dos tecidos. Em condições adequadas, a hidratação da cutícula facilitará a absorção do produto. Pederson (2007) afirma que a toxicidade de fungicidas é potencializada em condições ambientais adversas ou ainda em período de estresse hídrico das plantas.

Figura 3 – Representação da chegada da gota na folha com e sem condições de estresse



Figura 4 – Média das condições climáticas das regiões produtoras de soja do estado do Rio Grande do Sul, 2014


Adjuvantes

O uso de adjuvantes pode aumentar o risco de fitotoxicidade dos fungicidas se aplicados em condições inadequadas em cultivares “sensíveis”. Vale ressaltar que o uso dos adjuvantes em condições adequadas pode reduzir o risco de extinção da gota pela permanência da fase oleosa dela sobre a folha, acelerando a absorção do ingrediente ativo. Além disso, o uso do adjuvante recomendado é fundamental para o desempenho dos fungicidas do grupo das estrobilurinas, cuja atividade junto à camada de cutícula da folha necessita da presença do adjuvante.

Depósito de gotas

Além das mudanças fisiológicas na planta no período reprodutivo, há o fechamento do dossel da cultura que funciona como barreira física à penetração de gotas no baixeiro das plantas. Com isso, a grande maioria das gotas é depositada nas folhas da parte superior dos tecidos da planta, podendo chegar até quatro vezes à dose inicial recomendada (Figura 5), acrescentando um risco muito alto de a atividade foliar não conseguir suportar tal carga sem apresentar fitotoxicidade, principalmente em condições de estresse hídrico ou térmico.

Figura 5 – Relação entre a quantidade de depósitos (gotas/cm2) e a dose do fungicida aplicado no perfil da planta de soja.

Volume de calda

Com o aumento das áreas de plantio de soja e/ou a necessidade de aumentar o rendimento logístico da fazenda, está ocorrendo um fenômeno de redução do volume de calda aplicado por hectare sem embasamento técnico-agronômico consistente. Portanto, há uma excessiva concentração do ingrediente ativo dentro da calda, podendo acarretar em problemas na mistura e, principalmente, esta concentração química permanecerá na gota que será depositada na superfície da folha. Além disso, esta redução de volume geralmente vem precedida da diminuição do tamanho das gotas que serão mais suscetíveis à extinção. Então, a gota quimicamente mais concentrada estará sujeita aos mesmos fatores de estresses climáticos, aumentando ainda mais os depósitos cristalinos sob a epiderme da folha.

Outro ponto a observar é que a redução do volume deve ser precedida do conhecimento da dosagem do adjuvante por unidade, pois as variações são gigantescas quando se fala em dose por hectare ou dose por volume de calda aplicado. Neste último, a redução de volume de calda reduzirá proporcionalmente à dose do adjuvante aplicado por hectare, minimizando os problemas. Contudo, esta compreensão não é homogênea e, geralmente, com a redução do volume de calda, é mantida a dose do adjuvante por hectare, o que gera um aumento demasiado da quantidade de óleo na gota, potencializando os riscos de fitotoxicidade.

Concentrações

A excessiva redução do volume de calda aumenta a concentração química da calda que predispõe as interações indesejadas entre os ingredientes ativos e inertes misturados. Estas incompatibilidades podem ser de ordem física, floculação, separação ou precipitação, ou ainda de ordem química, dissociação iônica (pH baixo), hidrólises

alcalinas (pH alto) ou inativações por radicais nas moléculas dos produtos (Figura 6).

Figura 6 – Teste de compatibilidade de misturas

Com o risco de interação elevado entre os produtos dentro da calda, pode ocorrer ainda o comprometimento do sistema de aplicação, pelo entupimento dos precipitados formados dentro do tanque (Figura 7).


Figura 7 – Retenção de compostos químicos formados dentro do tanque do pulverizador no filtro do bico

Formulação

Formulações como pós-molháveis e suspensões concentradas tendem a ser menos fitotóxicas que os concentrados emulsionáveis. Este fato não é necessariamente pelo ingrediente ativo presente na formulação e sim pelos solventes utilizados para permitir a interação estável na formulação.

A queima do tecido foliar pela ação dos depósitos cristalinos, associada à produção de Espécies Reativas de Oxigênio (EROs), é um processo irreversível dentro da planta, haja vista que o tecido necrosado não será restabelecido. Em condições normais da planta, a produção das EROs é baixa, aumentando com a aplicação do fungicida. Isto pode desencadear a peroxidação lipídica (destruição dos lipídios da membrana), prejudicando a estrutura e o funcionamento celular. No entanto, surgem alternativas para tentar minimizar este dano foliar, como a atenção aos fatores já discutidos neste artigo e ao uso de fertilizantes foliares, principalmente para reduzir a produção de EROs.

Nutrição foliar

O objetivo da nutrição foliar está ligado ao estímulo do aumento da divisão celular, absorção e uso dos nutrientes fornecidos e água (Atiyeh et al, 2002; Chen et al, 2004 ), além de atuar como regulador hormonal e no aumento à tolerância ao estresse (Piccolo et al, 1992). Ainda, diversos trabalhos científicos conferem a estes aminoácidos a ativação enzimática e a síntese de proteínas (Ulukan, 2008), o aumento de pigmentos fotossintéticos (Ali; Hassan, 2013), bem como a redução do estresse gerado pelo glifosato em plantas de soja (Lambais, 2008).

Em busca da consistência destas respostas estamos trabalhando nessa nova linha e atingindo resultados promissores. Em trabalhos internos ainda não publicados foi observada a redução de até 29% de EROs em plantas que receberam aplicação do fungicida e fertilizante foliar, frente ao tratamento somente com fungicida. Ainda nestes trabalhos, foi observado aumento de 7% de produção da EROs nas plantas com fungicidas que em plantas testemunhas, sem nenhuma aplicação. Assim, a aplicação foliar de fertilizantes aminoácidos pode reduzir os efeitos prejudiciais de EROs e melhorar a resistência das plantas sob condições de estresse (Bahari et al, 2013).

Portanto, com o processo produtivo acelerado buscando elevados padrões produtivos, a pesquisa precisa constantemente procurar respostas para antever os problemas potenciais do campo. No entanto, é preciso respeitar as limitações fisiológicas da planta e de tecnologia de aplicação a fim de não nos depararmos com surpresas desagradáveis que irão, invariavelmente, refletir na capacidade produtiva das plantas, limitando atingir tetos produtivos elevados.

Clique aqui para ler o artigo na edição 179 da Cultivar Grandes Culturas.


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Marcelo G. Madalosso; Ricardo Balardin; Diego Dalla Favera; Leandro Marques; Mônica P. Debortoli