Desafios no manejo da podridão parda no pessegueiro

Uma das maiores preocupações na fruticultura mundial são as doenças pós-colheita, em especial aquelas adquiridas por infecções quiescentes, causadoras de grandes prejuízos na comercialização dos frutos.

Embora o pessegueiro seja suscetível a várias doenças, a podridão-parda é a principal. Responsável por perdas quantitativas e qualitativas de pêssegos, em todas as regiões produtoras do Brasil e do mundo.

A doença é causada pelo fungo Monilinia fructicola (Wint) Honey [fase assexuada Monilia fructicola (Wint.) Honey], principal doença de fruteiras de caroço, ocorre em praticamente todos os pomares, causando perdas severas, principalmente em anos com alta precipitação pluviométrica. Infecta também ameixeiras, cerejeiras, damasqueiros e amendoeiras, da família Rosaceae e do gênero Prunus L.

Os prejuízos caudados na produção vão depender do grau de suscetibilidade da cultivar, da agressividade do patógeno, das condições climáticas e de medidas de manejo empregadas pelos produtores.

As condições de clima podem exercer efeitos indiretos sobre o progresso dessa doença, por interferir diretamente no desenvolvimento do hospedeiro. O hospedeiro pode ficar enfraquecido por condições desfavoráveis do ambiente, ficando assim, mais suscetível ao patógeno.

Ciclo das relações patógeno-hospedeiro

A podridão-parda é uma doença policíclica, sua disseminação ocorre pela dispersão de conídios pelo ar e aumenta continuamente a partir do aparecimento da primeira fruta infectada até a sua colheita.

Esse fungo pertence à classe Discomycetes, que são ascomicetos com apotécio, cuja característica é a formação de ascósporos sexuais, no interior de uma estrutura denominada asco, e conídios assexuais com conídios blásticos, formados em cadeia e tamanho médio de 8-28 × 5-19μm (maioria 12-16 × 8-11μm) e hialino.

O fungo também produz escleródios bem desenvolvidos que determinam sua sobrevivência no inverno e, ao germinarem, formam apotécios onde são produzidos os ascos. A partir de frutos mumificados parcialmente enterrados no solo, que emergem na época da florada. Na planta e nos frutos mumificados podem também sobreviver na forma de micélio dormente.

Os ascos medem 102-215x3-13μm e os ascósporos medem 6-15x4-8μm, que são formados em apotécios, típicos da ordem Hetotiales. Por meio desta estrutura, os ascósporos são projetados e disseminados pelo vento, constituindo-se o inóculo primário da doença.

No Brasil, a ocorrência natural da fase sexual do patógeno é rara, podendo ser encontrado com mais frequência na região sul do Rio Grande do Sul (Figura 1). O que pode ser explicado pela exigência de condições climáticas particulares. Mas a forma mais encontrada a campo em todas as regiões produtoras é a forma assexuada.

Nas condições climáticas de Pelotas pode-se visualizar a ocorrência da fase perfeita em pomar de pessegueiro, após uma sequência de dias frios e chuvosos.

Figura 1 - Frutos com podridão-parda causada pelo fungo Monilinia fructicula em pomar de pessegueiro, nas condições climáticas de Pelotas.

A sobrevivência desse patógeno de uma safra para outra ocorre em frutos mumificados, pedúnculos, flores murchas e ramos com cancros. Em regiões onde são observadas estruturas de reprodução sexuada (apotécios), esses também auxiliam na sobrevivência germinando a partir de múmias que ficaram caídas e levemente enterradas no solo.

Já os conídios são disseminados por vento, água e insetos, atingindo partes suscetíveis da planta, principalmente flores e frutos, sendo que no caso dos frutos, os conídios podem penetrar pela cutícula ou por ferimentos, colonizando-os de modo rápido quanto mais próximo ele estiver do estádio de maturação. As condições climáticas também são importantes para o desenvolvimento da fase imperfeita.

Sintomas da doença

O patógeno infecta flores, frutos em pré e pós-colheita e ramos, podendo destruir a produção de frutos em poucos dias, se as condições ambientais forem favoráveis e medidas de controle não forem adotadas.

Na floração, há queima de pétalas e cancro nos ramos (Figura 3), e na frutificação, ocorre a podridão dos frutos em pré e pós-colheita, sendo mais severos em frutos próximos à maturação.

Os conídios e ascósporos são capazes de infectar flores e frutos imaturos durante o início da primavera. Na infecção de flores pode haver necrose das anteras, ovário e pedúnculo, podendo matá-las. As flores se tornam marrons, murchas, podendo exibir esporulação do fungo e permanecerem fixas ao ramo por uma goma exsudada. Essa infecção pode causar perdas significativas na produção devido à redução no número de flores, prejudicando a frutificação efetiva, além de servir de fonte de inóculo no período de frutificação. Além disso, sob condições climáticas desfavoráveis as flores que sobrevivem à infecção tendem a originar frutos com infecção quiescente, causando danos nos períodos de colheita e pós-colheita.

A infecção quiescente aumenta linearmente com o aumento da umidade relativa do ar durante o período de floração e aumenta exponencialmente com a frutificação e nos estágios tardios de desenvolvimento dos frutos.

A detecção de infecção quiescente permite estimar antecipadamente a incidência da doença no período que antecede a colheita, auxiliando no estabelecimento de estratégias de controle, adoção de formas adequadas de armazenagem e comercialização dos frutos.

Os frutos podem ser infectados com Monilinia spp. em qualquer fase do seu desenvolvimento, mas a doença só se torna grave quando o fruto começa o amadurecimento. No início da maturação, quando ocorre diminuição da resistência mecânica da epiderme, a resistência dos frutos verdes pode ser rompida por danos mecânicos ou fisiológicos, tornando-os suscetíveis ao patógeno. Na pré-colheita, inicialmente nos frutos são observadas pequenas lesões pardas, com aspecto encharcado, que evoluem para extensas manchas marrons cobertas pela esporulação do fungo. Em seguida, os frutos começam a desidratar tornando-se mumificados, permanecendo na planta ou no solo.

A ocorrência de condições ambientais favoráveis à doença com o período de frutificação favorece a podridão de frutos ainda na planta, ocasionando frutos mumificados que podem servir como fonte de inóculo.

Os conídios do patógeno são produzidos em períodos de alta umidade relativa (acima de 80%) e temperatura de 20ºC - 25ºC. Podendo germinar em temperaturas acima de 10ºC e abaixo de 32ºC (temperatura ótima 25ºC). Há formação de apotécios a temperatura de 15ºC. Quando as condições ambientais são favoráveis, o patógeno pode completar seu ciclo em poucos dias. As temperaturas acima de 33ºC são desfavoráveis à podridão-parda do pessegueiro. Portanto, em regiões de clima temperado, a quantidade de inóculo é muito maior, por isso as epidemias da doença são muito maiores.

Controle da doença

As práticas culturais de controle fundamentais são: a eliminação de fontes de inóculo representadas por ramos doentes e frutos mumificados. As recomendações para o controle que são baseadas em tratamentos preventivos através da utilização de fungicidas. Esse controle químico deve ser feito pulverizando a planta nas fases críticas da cultura (floração e a partir de três semanas antes da maturação dos frutos). De preferência optar pelos fungicidas sistêmicos, fazendo a rotação de diferentes ingredientes ativos, para evitar o surgimento de populações de fungos resistentes aos fungicidas.

Para diminuir a epidemia da doença é essencial não só que se removam as fontes de inóculo primário, mas também que se reduza o número de conídios na superfície dos frutos.

É extremante importante monitorar os tipos de danos ocorrentes na pré-colheita e no momento da colheita, para se prever o potencial de perda de frutos com podridão-parda, cuidados adicionais durante a colheita, como a limpeza dos recipientes com hipoclorito de sódio a 0,5% ou outro tipo de sanitizante. A estocagem em câmara fria após a colheita contribui também para reduzir as perdas na comercialização ou no processamento industrial.

A utilização de implementos nas linhas reduz a produção de apotécios. Esse manejo do pomar pode influenciar na diminuição da produção da fase perfeita do patógeno.

Durante o uso de controle químico deve-se tomar os cuidados necessários como o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e a obediência do período de carência de cada fungicida. É importante também que os pulverizadores estejam bem regulados e calibrados para que a aplicação resulte em uma boa cobertura dos fungicidas na planta, principalmente em flores e frutos.

Clique aqui para ler o artigo na Cultivar Hortaliças e Frutas 82.

ver mais artigos

Michele Freitas Santiago; Bernardo Ueno