Fatores que dificultam o controle do ácaro da leprose

Nos últimos anos muitos citricultores têm relatado dificuldades no manejo do ácaro da leprose dos citros em seus pomares, observando menores períodos de controle da população do ácaro após a aplicação de acaricidas e tendo que realizar aplicações adicionais de acaricidas durante o ano para obterem bons resultados. O objetivo deste texto é apontar e analisar possíveis fatores que estejam contribuindo para o aumento da população ácaro da leprose dos citros nos pomares e dificultando o seu controle.

Até o início dos anos 2000, o controle do ácaro da leprose estava baseado nos princípios do Manejo Integrado de Pragas (MIP), no qual a ação de controle ou aplicação do acaricida era determinada pela densidade populacional de ácaros presentes no talhão e também pelo histórico da presença do vírus da leprose dos citros, evidenciada pela presença de lesões da doença nas plantas. O nível de ação de controle, ou a infestação do ácaro para a aplicação de acaricidas, adotado pelo citricultor dependia muito da sua aversão ao risco e variava entre 1 a 10% dos órgãos amostrados com a presença do ácaro, e em casos da ausência de lesões da doença na área amostrada em até 15% dos órgãos amostrados. Para estimar o nível de infestação do ácaro da leprose no talhão, o monitoramento amostral por caminhamento em zigue-zague ou sistemático, era realizado a cada 7 ou 10 dias, em 1 a 2% das plantas do talhão, observando-se em cada planta a presença do ácaro em 3 a 5 frutos ou, na ausência de frutos, nos primeiros 30 cm de ramos. Atingido o nível de ação, a aplicação de acaricidas era feita observando-se a rotação de produtos de diferentes grupos químicos disponíveis e em alto volume. E assim, se conseguia um longo período de controle do ácaro da leprose, isto é, acima de 300 dias entre a aplicação do acaricida e o momento em que a infestação do ácaro atingia novamente o nível de ação estabelecido. Com este manejo, geralmente, com 1 a 2 aplicações de acaricidas por ano, não se observava epidemias de leprose nos pomares. Então surge a questão: O que mudou do início dos anos 2000 para os dias atuais que tornou mais difícil o controle do ácaro da leprose? O clima está mais favorável à multiplicação do ácaro? O monitoramento do ácaro mudou? O tempo de reação do citricultor para pulverizar o talhão infestado mudou? A tecnologia de aplicação de acaricidas está mais falha? Os pomares mudaram e dificultam a amostragem do ácaro e as aplicações de acaricidas? Os acaricidas disponíveis no mercado não são tão eficientes como os acaricidas anteriores? A população do ácaro da leprose está resistente aos acaricidas utilizados? A mistura de acaricidas com outros produtos reduz a eficiência dos acariciadas? O manejo de outras pragas está afetando o controle e comportamento do ácaro?

Clima e ácaro da leprose

A reprodução do ácaro da leprose aumenta significativamente durante períodos secos e quentes do ano, quando se tem dias longos, alta temperatura, baixa precipitação pluviométrica e baixa umidade relativa do ar, e, consequentemente, baixa a disponibilidade hídrica no solo. Trabalhos realizados na FCAV/UNESP mostraram que em plantas mantidas com disponibilidade de água no solo a 25% da capacidade de campo por 60 dias, a população do ácaro da leprose cresceu duas vezes mais que em plantas mantidas a 70% da capacidade de campo. Além, disso, alta temperatura e baixa umidade relativa favorecem a evaporação das gotas, principalmente de gotas finas e muito finas, durante as pulverizações de acaricida, reduzindo a cobertura e deposição da calda acaricida aplicada sobre as plantas.

Estas condições de clima foram observadas mais recentemente nos anos de 2013 e 2014, e não por coincidência foram os anos com muitos relatos de problemas de controle do ácaro da leprose.

Monitoramento e amostragem do ácaro da leprose

Como comentado, o monitoramento da população do ácaro da leprose é uma ferramenta essencial para embasar a tomada de ação de controle do mesmo. A amostragem, da maneira como era recomendada anteriormente, incorre em erros de estimativa acima de 60%, e é comum que diferentes inspetores, amostrando o mesmo talhão no mesmo dia, dificilmente chegam a estimativas parecidas. Além disso, esta amostragem não considera o número de frutos nas plantas, isto é, o mesmo número de frutos e/ou ramos são amostrados por planta independente da quantidade de frutos na planta. Para diminuir estes erros de amostragem dever-se-ia aumentar tanto a porcentagem de plantas amostradas por talhão, como o número de frutos e/ou ramos amostrados por planta, levando em consideração a carga de frutos presentes na planta. Também dever-se-ia reduzir o intervalo entre amostragens ou aumentar o número de inspetores em cada amostragem, para tirar uma média entre eles.

Entretanto, com o aumento do custo da mão-de-obra para inspeção de pragas no campo, observado nos últimos anos, o protocolo de inspeção está caminhando ao contrário do que é recomendado e cada vez está menos intenso. Hoje é comum observar nos pomares intervalos entre inspeções acima de 14 dias, e não raro em 30 dias. Adicionalmente, também se observa uma redução no tamanho da amostra por talhão, com menos de 1% das plantas amostradas e com a observação de menos frutos e/ou ramos por planta. Tudo isso leva à maiores erros da estimativa da densidade populacional do ácaro e a uma detecção muitas vezes muito acima do nível de ação de controle estipulado.

Tempo entre a detecção do ácaro e a aplicação do acaricida

O MIP prevê que uma vez que o nível de ação de controle do ácaro da leprose seja atingido no talhão, a aplicação do acaricida seja feita imediatamente. Entretanto, o que se observa nos pomares, na tentativa de reduzir os custos de produção, é que cada vez mais o parque de equipamentos e pulverizadores está mais enxuto e, muitas vezes, não há máquinas disponíveis para a aplicação do acaricida momento da detecção do nível de ação de controle. Desta forma, é comum que de demore mais de duas semanas para que a medida de controle seja adotada após a observação do nível de ação de controle. Isto faz com que no momento da aplicação do acaricida a população do ácaro já esteja em uma densidade acima do nível de ação de controle e, mesmo que o acaricida tenha a mesma eficiência de controle do ácaro (cause cerca de 90% de mortalidade do ácaro), a população residual de ácaro que não morreu na aplicação do acaricida será maior e, consequentemente, levará menos tempo para atingir novamente o nível de ação de controle, resultando em um menor período de controle do ácaro pelo acaricida.

Tecnologia de aplicação de acaricidas e controle do ácaro da leprose

Para um bom controle do ácaro da leprose, o acaricida deve ser aplicado de modo a ter uma boa deposição e cobertura acima de 50% sobre os frutos, ramos e folhas localizados internamente na planta e por toda a copa da planta (saia, meio e topo). Até o início dos anos 2000, era comum o uso de volume de calda aplicada em torno de 8 a 10 mil litros por hectare em pomares com plantas adultas. Visando a redução dos custos de aplicação, mantendo a mesma eficiência de controle, foram realizadas pesquisas para a adequação dos pulverizadores e do volume de calda de acaricida aplicado, aumentando-se o número de bicos no ramal de pulverização e utilizando bicos que produzem gotas finas entre 100 a 200 µm de diâmetro mediano volumétrico para maior penetração das gotas no interior da copa da planta. Concluiu-se que utilizando este tamanho de gota, acaricidas aplicados em volumes entre 100 a 400 mL/m3 de copa apresentam mesma eficiência de controle do ácaro da leprose sem a necessidade de corrigir a dose do acaricida. A partir de então tem-se conseguido um bom controle do ácaro da leprose em pomares adultos com volumes entre 2 a 3 mil litros por hectare.

Entretanto, não é raro ver citricultores reduzindo o volume de calda de acaricida apenas aumentando a velocidade do turbopulverizador ou alterando a pressão de trabalho sem adotar a tecnologia da maneira correta, com adequada calibragem e regulagem do pulverizador e escolha adequada do número de bicos e tamanho de gotas.

Adensamento dos pomares e controle do ácaro da leprose

Em busca de maiores produtividades (toneladas por hectare), principalmente no estágio inicial de formação dos pomares, e pensando na manutenção de um stand de plantas que permita uma boa produtividade mesmo com a eliminação de plantas com greening (HLB), a partir de 2005, verificou-se uma tendência de pomares cada vez mais adensados. Os pomares plantados em 2005 tinham uma média de 440 plantas por hectare, enquanto que os pomares plantados em 2016 apresentaram uma média de 719 plantas por hectare.

O adensamento dos pomares na linha de plantio dificulta a passagem dos inspetores de pragas de uma rua para outra, atrapalhando a inspeção do ácaro, e aumentam o contato entre as plantas, o que facilita a movimentação do ácaro de uma planta para a outra. Já o adensamento entre linhas de plantio dificulta a boa cobertura do acaricida aplicado, pois a copa das plantas fica muito próxima aos bicos de pulverização, muitas vezes até encostando nos bicos e causando uma cobertura desuniforme da calda aplicada, o que deixa áreas da copa sem o acaricida aplicado. O ideal é que os bicos de pulverização estejam a pelo menos 40 cm da extremidade da copa da planta para a boa formação do leque de pulverização.

Resistência do ácaro aos acaricidas

Aplicações sucessivas de uma mesma molécula acaricida acelera o processo de seleção de populações de ácaros resistentes, sendo um dos fatores ligados às falhas de controle do ácaro nos pomares. Existem relatos da resistência do ácaro da leprose para os acaricidas hexythiazox, dicofol, propargite e flufenoxuron. Portanto, a rotação de acaricidas de diferentes grupos químicos e modo de ação é recomendada para o manejo do ácaro da leprose.

Entretanto, hoje há basicamente dois grupos de acaricidas na Lista PIC com boa eficiência no controle do ácaro da leprose, espirodiclofeno e cyflumetofeno, o que dificulta muito um programa de rotação de acaricidas.

Embora ainda não haja relatos de resistência do ácaro da leprose para estes dois acaricidas, mortalidade do ácaro acima de 90% em diferentes populações do ácaro no estado de São Paulo em testes de laboratório, a seleção de populações resistentes com o uso continuado do mesmo acaricida pode vir a ocorrer no futuro e a necessidade de novos acaricidas é urgente.

Mistura de acaricidas com outros produtos no tanque de pulverização

Como forma de reduzir custos de produção, as misturas de produtos no tanque de pulverização são frequentes nos pomares e também podem afetar a eficácia dos acaricidas, devido principalmente às alterações provocadas no pH da calda e na condutividade elétrica, bem como pela possível incompatibilidade entre os compostos.

Além disso, após a detecção do HLB no Brasil, tornou-se praxe adicionar inseticidas para o controle do psilídeo Diaphorina citri em todas operações de pulverização (aplicação de adubos foliares, fungicidas e acaricidas). Pesquisas realizadas na FCAV/UNESP verificaram que os fertilizantes foliares fosfito de potássio, sulfato de magnésio e a mistura dos cloretos de zinco e de manganês com o sulfato de magnésio resultaram na diminuição da eficácia dos acaricidas propargite e acrinathrin sobre o ácaro da leprose. Também observaram, em condições de laboratório, que a mistura dos inseticidas fosmete e imidacloprido com o acaricida espirodiclofeno, embora não apresente incompatilidade física e química, reduziu a mortalidade do ácaro da leprose sete dias após a aplicação entre 28 e 44%. Uma menor eficiência do acaricida na mortalidade do ácaro da leprose refletirá em um menor período de controle do acaricida aplicado.

Novas pesquisas com outras combinações de misturas de acaricidas e inseticidas estão sendo realizadas em laboratório e no campo pela FCAV/UNESP e Fundecitrus e, em breve, espera-se ter uma ideia clara de quais misturas com inseticidas podem afetar os acaricidas no controle do ácaro da leprose. Assim, a recomendação é que à calda de acaricida para o controle do ácaro da leprose não se misturem outros produtos.

Manejo de outras pragas e doenças no controle do ácaro da leprose

A crescimento da incidência de importantes doenças, como a pinta preta e o cancro cítrico no parque citrícola paulista, aumentou consideravelmente o uso de fungicidas ou produtos à base de cobre para o seu controle. Assim como, a necessidade de controle do psilídeo do HLB a partir de 2004, aumentou significativamente no uso e a frequência de aplicação de inseticidas nos pomares. Isso também afeta diretamente o manejo do ácaro da leprose, tendo em vista que muitos inseticidas e fungicidas apresentam efeito sobre inimigos naturais (fungos entomopatogênicos e insetos) que auxiliam no controle do ácaro da leprose e de outras pragas que até então eram secundárias, como ácaros tetraniquídeos desfolhadores e cochonilha escama farinha.

Além do efeito dos inseticidas sobre os inimigos naturais, é bastante relatado na literatura o efeito hormese causado pela aplicação de subdoses de inseticidas, principalmente piretróides e neonicotinóides, estimulando a reprodução (aumento da postura e viabilidade de ovos) ou diminuindo a mortalidade de ácaros em diversas culturas. Embora ainda não comprovado para o ácaro da leprose (estudos estão em andamento), acredita-se que este efeito hormese possa estar ocorrendo devido às aplicações sucessivas de inseticidas para o controle do psilídeo dos citros. As doses dos inseticidas usados para o controle do psilídeo não causam mortalidade no ácaro da leprose, mas poderiam estimular sua oviposição, aumentar a viabilidade dos ovos ou sua longevidade, o que resultaria no aumento da velocidade de reinfestação do pomar após a aplicação do acaricida. Se esta hipótese se confirmar o problema será muito difícil de ser contornado porque ainda não podemos abrir mão do controle intensivo do psilídeo no manejo do HLB.

Concluindo, não existe um único fator responsável pelo aumento da dificuldade de controle do ácaro da leprose e sim uma combinação de fatores que devem ser levados e conta e corrigidos para permitir uma melhoria do manejo do ácaro da leprose e da doença que transmite. 

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Por Renato Beozzo Bassanezi, pesquisador do Fundecitrus