Manejo da podridão da coroa e do bulbo da cebola, causada por nematoide

Na cultura da cebola diversas doenças atacam o sistema radicular e a parte aérea, causando prejuízos durante todo o ciclo da cultura. Dentre essas doenças, uma das mais significativas, tanto a campo quanto em armazenamento, é a podridão da coroa e do bulbo causada pelo nematoide Ditylenchus dipsaci.

O nematoide D. dipsaci (Kühn) Filipjev pertence à classe Secernentea, ordem Tylenchida, subordem Tylenchina, superfamília Tylenchoidea, subfamília Anguininae, família Anguinidae. Este fitonematoide foi detectado no país em 1979, inicialmente na cultura do alho. Devido à expansão de novas áreas de cultivo e à produção de bulbilho fiscalizado não ter sido suficiente para suprir esta demanda, principalmente em Santa Catarina, vários produtores adquiriram bulbilhos no comércio que seriam utilizados para o consumo e que estariam contaminados com o nematoide, ocorrendo assim sua ampla disseminação (Tihohod, 1993).

O ciclo de vida de D. dipsaci varia de 19 a 23 dias, a 15ºC, até atingir o estádio adulto. Ele sai do ovo dois dias após a oviposição e durante esse ciclo passa por quatro ecdises, sendo que uma ocorre ainda no ovo (Figura 1A, B). O acasalamento é necessário para sua reprodução e a fêmea começa a oviposição quatro dias depois de adulta. Cada fêmea deposita em torno de oito a dez ovos por dia durante 25 a 50 dias, podendo totalizar 200 ovos a 500 ovos durante os 45 a 73 dias que podem viver (Tihohod, 1993).

A sobrevivência de fitonematoides varia conforme a espécie, porém, Ditylenchus dipsaci é um dos poucos que têm a forma de sobreviver através da anidrobiose, quando reduz sua atividade metabólica e pode permanecer dormente por até 23 anos (Wordell Filho, 2006).

Espécies de plantas daninhas como Gnaphalium spicatum (macela branca), Oxalis corniculata (trevo), Amaranthus deflexus (caruru) são consideradas hospedeiras enquanto Bidens pilosa (picão preto) e Galinsoga ciliata (picão branco) têm pouca importância na sobrevivência do nematoide (Fonseca et al, 1999).

Porém, no Alto Vale do Itajaí, em decorrência da oferta de área para o cultivo da cebola, a cultura normalmente é semeada sem rotação na mesma área, o que torna possível a sobrevivência do nematoide no solo, em plantas daninhas hospedeiras e em plantas de cebola “guachas” que permanecem na lavoura (Figura 1H).

A contaminação de plantas de cebola ocorre pela penetração do nematoide inibindo a germinação da semente (Figura 1I, J, K) ou no tecido da coroa e do bulbo abaixo da superfície do solo (Figura 1B). O nematóide coloniza os tecidos internos da raiz, bulbo, pseudocaule, podendo atingir as folhas (Figura 1C, D, E). Enzimas pectolíticas são essenciais para a dissolução da lamela média e para o estabelecimento do parasitismo dentro das escamas (Figura 1F), o que acaba escurecendo os tecidos devido à ação dos fenóis (Wordell Filho, 2006). Na lavoura, o nematoide acaba sendo disseminado através da água de irrigação e de chuva e da movimentação do solo pelo trânsito de máquinas, equipamentos e pessoas.

O Alto Vale do Itajaí apresenta alguns focos da doença e pressupõe-se que possa ter sido introduzida de duas maneiras: através de produtores da região, que cultivam cebola também no meio oeste catarinense e que, ao usar áreas anteriormente cultivadas com alho, podem ter contaminado máquinas e implementos utilizados no preparo do solo, introduzindo o nematoide na região; pela cebola contaminada trazida dessas regiões por produtores ou comerciantes para ser armazenada e/ou beneficiada e o descarte ser depositado em áreas de cultivo do Alto Vale do Itajaí.

Nesse informativo estão descritos os sintomas clássicos causados por D. dipsaci, além de medidas de manejo da doença.

Sintomas

Os sintomas durante a germinação acabam retardando o desenvolvimento de plântula. Nessa fase o nematoide é atraído pelo cotilédone, que após invadir, engrossa o tecido e tomba a plântula.

As plantas atacadas apresentam o pseudocaule engrossado e esponjoso e as folhas cloróticas e retorcidas. O lançamento de novas folhas ocorre no mesmo ponto apresentando um aspecto de espanador ou pincel. Essas folhas ficam flácidas fazendo o tombamento de toda a parte aérea entre duas a três semanas e formando reboleiras nas lavouras.

No bulbo ocorre rompimento das escamas externas, fazendo com que ocorra o apodrecimento por penetração de bactérias e como consequência expelindo forte odor. O bulbo internamente apresenta-se esponjoso com aspecto farináceo, em que as escamas internas encontram-se soltas (Figura 1G), facilitando a invasão por bactérias que acabam decompondo o bulbo no campo ou no armazenamento.

Manejo do nematoide D. Dipsaci

D. dipsaci tem potencial de causar 100% de dano na cultura, o que pode ocorrer a campo ou no armazenamento. Portanto, as medidas preventivas são extremamente importantes (Quadro 1)

Quadro 1 - Medidas preventivas contra D. dipsaci

  • não cultivar em área com histórico da doença;
  • não se devem utilizar máquinas ou equipamentos que tenham vindo de áreas externas à propriedade, ou se for inevitável, devem ser lavadas com água e/ou solução desinfestante antes do uso. Vale ressaltar, que é uma prática comum no Alto Vale do Itajaí o empréstimo entre vizinhos ou pela prestação de serviço pela Secretaria da Agricultura das prefeituras, aumentando o risco de disseminação do nematoide;
  • as sementes devem ser fiscalizadas e adquiridas com nota fiscal de venda;
  • utilizar muda produzida de área isenta do nematoide;
  • deve se inspecionar a lavoura com frequência para detectar precocemente focos da doença;
  • se houver confirmação do nematoide na área essa deve ser isolada e evitar o trânsito de máquinas, equipamentos e pessoas;
  • deve-se evitar o escoamento superficial da chuva ou irrigação que acabe transportando o nematoide junto ao solo e/ou água para outras áreas;
  • no momento da colheita, plantas com suspeita do nematoide devem ser retiradas para evitar danos durante o período de armazenagem;
  • o descarte de palha ou de bulbo deve ser feito em local isolado e nunca retornar à lavoura;
  • todo resto cultural deve ser destruído após a colheita através do enterrio ou se possível compostado;
  • eliminar após a colheita toda planta espontânea que possa servir como hospedeira do nematoide;
  • eliminar toda planta de cebola “guacha” que permanece vegetando na lavoura;
  • priorizar a cobertura vegetal para aumentar a umidade do solo, já que essa diminui a sobrevivência do nematoide;
  • recomenda-se a adubação orgânica, pois propicia o desenvolvimento da microbiota do solo, agindo no parasitismo do nematoide;
  • a calagem e a adubação mineral devem seguir as recomendações da análise de solo, fazendo com que a planta esteja equilibrada;
  • o excesso de nitrogênio pode favorecer a penetração devido aos tecidos estarem mais flácidos e aquosos;
  • deve ser realizada a rotação de culturas com espécies não hospedeiras, como milho, soja, feijão por um período mínimo de 30 meses (Becker, 1993), juntamente com a eliminação das ervas daninhas hospedeiras.

Apesar de alguns produtores utilizarem produtos de base biológica, não há informações concretas quanto a sua eficácia agronômica chanceladas pela pesquisa. Na literatura, até o momento, não consta nenhuma informação para o controle desse nematoide através da biofumigação e solarização do solo.

Para essa doença na cultura da cebola, não se tem nenhum agroquímico registrado, mas com a preocupação gerada pelos danos, os produtores acabam utilizando produtos de forma indiscriminada, principalmente após a constatação da doença. Além disso, com o uso desses agroquímicos podem ocorrer outros problemas como fitotoxicidade à cultura, resistência do nematoide ao princípio ativo e contaminação dos bulbos.

FIGURA 1 – Ciclo de vida de Ditylenchus dipsaci em cebola. (Adaptado segundo Agrios, 1988 e Tihohod, 1993)

FIGURA 2 – Sintoma de folhas retorcidas com aspecto de espanador pela presença de D. dipsaci

FIGURA 3 – Sintoma de descamação e rachaduras nos bulbos decorrente de D. dipsaci

FIGURA 4 – Sintoma de escamas esponjosas e farináceas infectadas por D. dipsaci

Box – A cultura da cebola

A cebola (Allium cepa L.) é uma das plantas cultivadas de maior difusão no mundo, considerada a segunda hortaliça em importância mundial, superada apenas pelo tomate (Song et al, 2007). Originária da Ásia foi introduzida no Brasil pelos portugueses sendo cultivada desde a região Sul até o Nordeste, ocupando o terceiro lugar entre as hortaliças de maior expressão econômica do Brasil (Boiteux & Melo, 2004).

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