Manejo da requeima, doença mais agressiva na cultura da batata

Rápida disseminação e alto potencial destrutivo fazem da requeima a doença mais importante e agressiva na cultura da batata, com danos que podem resultar em perda total em poucos dias. Para manejar corretamente a doença o produtor deve adotar medidas integradas. A aplicação sequencial de fungicidas de contato a partir da emergência, com posterior uso de produtos com atividade sistêmica nas fases de crescimento vegetativo e tuberização, é estratégia importante, principalmente para prevenir a seleção de patógenos resistentes

A maior limitação da produção da batata, principalmente na região central do Rio Grande do Sul, é a ocorrência da requeima ou mela, causada por Phytophthora infestans. A rápida disseminação e o elevado potencial destrutivo caracterizam essa doença como a mais importante e agressiva da cultura da batata, em todo o mundo. Quando medidas de controle não são adotadas corretamente, epidemias da requeima podem destruir todo o campo de produção em poucos dias.

A requeima pode ocorrer em qualquer fase do desenvolvimento da cultura, com potencial para afetar severamente toda a parte aérea da planta como folhas, pecíolo e caule, e em alguns casos os tubérculos. De modo geral, os sintomas variam em função das condições de temperatura, umidade, intensidade luminosa e resistência do hospedeiro.

Nas folhas, os sintomas iniciam-se na forma de pequenas manchas de coloração verde-claro a verde-escuro. Também é possível observar um halo encharcado que separa a lesão do tecido sadio. Em condições de alta umidade estas manchas aumentam de tamanho e adquirem formato irregular, com aspecto encharcado e uma coloração escura, amarronzada ou preta. Em seguida os tecidos afetados tornam-se necróticos, apresentando aspecto de queima (Figura 2). As lesões podem avançar para os pecíolos e caule, provocando a morte da planta. Em condições de alta umidade verifica-se a formação de frutificações do patógeno sobre a face abaxial das folhas. Já em condições de baixa umidade o crescimento das lesões é paralisado e o tecido torna-se quebradiço.

No pecíolo e no caule as lesões são semelhantes, podendo anelar todo o órgão e causar sua morte, enquanto que nos tubérculos podem ocorrer manchas marrons sobre a sua epiderme. Nestes, o fungo causa uma podridão dura e escura de bordos definidos, que atingem aproximadamente 1,5cm de profundidade

 

Etiologia

No Brasil a requeima é causada pelo oomiceto Phytophthora infestans, de ocorrência em praticamente todas as regiões onde a batata e o tomateiro são cultivados. Quando as condições de umidade e temperatura são favoráveis ao desenvolvimento do patógeno, este produz grande número de esporos móveis conhecidos como zoósporos, responsáveis pelas infecções e epidemias. Os zoósporos podem se locomover por meio de um filme de água no solo e causar novas infecções. Por outro lado, quando as condições de temperatura e umidade são desfavoráveis ao patógeno, este produz estruturas de resistência conhecidas como oósporo, que tem papel importante na sobrevivência do patógeno, até que as condições tornem-se novamente favoráveis. Podem permanecer viáveis no solo por três a quatro anos.

Epidemiologia

Condições de alta umidade relativa e baixa temperatura, geralmente abaixo de 20°C, são os fatores que mais contribuem para a ocorrência da doença. Entretanto, P. infestans cresce e produz zoósporos abundantemente em umidades relativas próximas a 100% e temperaturas entre 15ºC e 25°C. Em temperaturas acima de 30ºC, o progresso da doença é lento ou até mesmo paralisado. O molhamento foliar ocasionado pelas chuvas ou irrigações e orvalho afeta diretamente a infecção e, consequentemente, a taxa de progresso da doença no campo. Desta forma, o plantio de cultivares suscetíveis ou com baixos níveis de resistência, associado a períodos com baixas temperaturas e alta umidade, é fator altamente favorável à requeima, que pode causar destruição e perda total da cultura em poucos dias.

O patógeno sobrevive principalmente em restos culturais e tubérculos doentes, sendo disseminado pela chuva, ventos fortes e implementos agrícolas contaminados. Cultivos de tomate em fase final de produção também podem, eventualmente, hospedar o patógeno, servindo como fonte de inóculo para cultivos posteriores de batata.

 

Manejo da doença

  A requeima pode ser controlada com sucesso mediante a combinação de medidas sanitárias, cultivares resistentes e aplicação de fungicidas.

O controle genético da requeima, apesar de ser a opção mais vantajosa para os produtores, por ser mais econômico e de fácil utilização, não é suficiente para controlar a doença quando as condições ambientais são muito favoráveis ao patógeno. Desta forma, o plantio de cultivares resistentes é limitante, pois a maioria das cultivares comerciais no Brasil é suscetível (Ágata, Cupido, Mondial, Bintje) ou tolerante (Monalisa, Atlantic, Astetrix, Vivaldi, Baronesa). Outra dificuldade se refere à alta variabilidade genética do patógeno agravada pelo não conhecimento do comportamento das cultivares frente aos isolados de cada região. Mesmo variedades tolerantes devem ser pulverizadas regularmente com fungicidas para eliminar, tanto quanto possível, a possibilidade de infecção causada pelo patógeno.

Atualmente, os produtores de batata dispõem de um grande número de fungicidas registrados junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para o controle da requeima, incluindo produtos de contato e com diferentes níveis de atividade sistêmica.

Fungicidas de contato devem ser aplicados antes do início da infecção para que sejam efetivos, sendo recomendados no decorrer de todo o ciclo da cultura. Estes fungicidas possuem ação protetora e, portanto, devem ser aplicados periodicamente para promover a cobertura de toda a parte aérea das plantas, visto que não são translocados. São produtos que permanecem na superfície foliar, mas estão sujeitos à remoção pela ação das chuvas e irrigação. O período de proteção destes fungicidas varia de quatro a oito dias. De maneira geral, as pulverizações visando renovar a proteção das plantas devem ser repetidas a intervalos de quatro a sete dias em períodos chuvosos ou de rápido desenvolvimento vegetativo da cultura, e de sete a dez dias em períodos secos. Já os fungicidas sistêmicos possuem ação curativa e são translocados pelo sistema vascular da planta, com a característica de se distribuírem pela planta como um todo. Apresentam rápida absorção (30 minutos em média) e períodos de proteção de dez a 14 dias, em média.

Os principais fungicidas de contato recomendados para o controle da requeima em batata são: os cúpricos, mancozebe, metiram, clorotalonil, zoxamida + mancozebe, fluazinam e captan, e os principais fungicidas sistêmicos são: propamocarbe, piraclostrobina, propinebe, metalaxil-M em mistura com mancozeb e chlorothalonil. Outros fungicidas registrados para o controle de P. infestans poderão ser consultados através do site: http://extranet.agricultura.go... (Agrofit).

Vale ressaltar que a aplicação de fungicidas deve ser realizada de forma sequencial de produtos de contato a partir da emergência, com posterior uso de defensivos com atividade sistêmica nas fases de crescimento vegetativo e tuberização. Esta alternância de ingredientes ativos e modos de ação é de extrema importância para prevenir a seleção de patógenos resistentes a fungicidas.

Embora a utilização de fungicidas seja a forma mais eficiente de controle da doença, algumas medidas culturais contribuem para o controle da doença, como: o uso de tubérculos de batata-semente sadios; evitar o plantio em áreas contaminadas ou de baixadas sujeitas ao acúmulo de água; priorizar o plantio em épocas menos favoráveis à ocorrência da doença, ou seja, nos períodos mais quentes do ano; realizar a irrigação no início da manhã, de forma que haja o secamento das folhas antes do anoitecer; destruição de fontes de inóculo, e rotação de culturas com gramíneas ou outras plantas não solanáceas.

 

 Batata no Brasil

A batata, dentre as olerícolas, apresenta a maior área cultivada, que oscila entre 150 mil a 180 mil hectares. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção nacional estimada para 2012 é de 3,66 milhões de toneladas, marca já ultrapassada no ano passado e em 2008.

 

 

 

 

 



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