Preparando o terreno

Após estudos realizados durante o ano de 1999, chegou-se à conclusão de que aproximadamente 30% das terras brasileiras, destinadas ao cultivo de arroz irrigado, estavam infestadas pelo arroz vermelho, erva daninha que provoca grandes prejuízos na produtividade da lavoura de arroz e que foi a principal causa da utilização de outras técnicas de cultivo pelos orizicultores como, por exemplo, o sistema pré-germinado e o plantio direto.

A utilização do sistema pré-germinado compreende uma série de etapas diferenciadas, entre elas a sistematização do solo, que provoca grandes variações, principalmente no tipo de maquinário a ser utilizado. Nos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, apesar de os orizicultores utilizarem essa técnica de cultivo, as características e os resultados são bem diferentes. Enquanto que em Santa Catarina as áreas de arroz são geralmente pequenas, facilitando a adoção dessa técnica, utilizada há vários anos, no Rio Grande do Sul, com uma área em torno dos 950 mil hectares plantados, essa técnica já alcança os 11% do total plantado, em lavouras bem maiores. Em grandes áreas, a utilização desse sistema possui algumas restrições, pois as práticas de preparo de solo são mais lentas e o manejo da água exige muitos cuidados. Em Santa Catarina, essa técnica é praticamente utilizada em mais de 95% da área cultivada de arroz, facilitada pelas dimensões menores das lavouras. Existe um ditado popular que diz “geralmente quando se soluciona um problema estamos criando um outro”. No que se refere a essa técnica, podemos dizer que isso é verdade, quando verificamos que muitos orizicultores no Estado de Santa Catarina, após utilizarem esse sistema há mais de 10 anos, vêem-se obrigados a voltar ao sistema de plantio direto para conseguirem controlar a infestação de ervas aquáticas que se proliferaram com a utilização sucessiva do sistema pré-germinado.

Apesar de tudo, muitas vantagens ainda podem ser citadas sobre a utilização da técnica de uso do sistema pré-germinado, entre elas temos:

• Reestruturação da lavoura (melhor controle do arroz vermelho e preto);

• Menor dependência do clima para o preparo do solo e plantio (o período de plantio pode ser programado);

• Planejamento mais efetivo das atividades da lavoura;

• Redução do ciclo da cultura, pois já se planta o arroz germinado;

• Menor consumo de água para a irrigação;

• Pela pré-inundação, antecipa-se a redução do solo e liberação de nutrientes para a planta;

• Maior produtividade (dados de pesquisa);

• Melhor qualidade do produto final (em virtude da germinação mais uniforme do que nos outros sistemas);

• Redução de custos variáveis e fixos (maquinário, por exemplo).

Resumidamente, podemos descrever uma seqüência de operações para a adoção dessa técnica em campo.

Planejamento da área

Não que seja um fator limitante, mas devemos procurar preferencialmente terrenos com a menor declividade possível, evitando assim que a etapa posterior - o levantamento topográfico - não proporcione cortes muito acentuados nos quadros, considerando o fato da pequena altura do horizonte A (150 a 200 mm). Os quadros devem possuir em média 10 a 15 mil m2, onde a dimensão mais utilizada é 70 x 150 m, posicionada, preferencialmente, no sentido norte-sul. Como na metade sul do Estado do Rio Grande do Sul predominam ventos de leste para oeste, esse seria o melhor posicionamento dos quadros, uma vez que dificulta a formação de fortes ondas na superfície da água, e que poderiam prejudicar sensivelmente o posicionamento, na água, das sementes recém plantadas.

A definição da posição dos canais de irrigação e drenagem seria a próxima etapa dentro do planejamento da área, bem como a localização das estradas para facilitar o transporte da colheita. Os canais devem ser reforçados, sendo que todo o material retirado do solo durante a confecção desses canais de irrigação e drenagem deve ser jogado para a estrada com a finalidade de levantá-la o máximo possível. A drenagem deverá ser feita independentemente quadro a quadro.

Devemos realizar uma aração bem profunda (15 a 20 cm), que pode ser feita tanto com arado de disco como de aiveca, com a finalidade de facilitar o movimento do solo dentro dos quadros, durante o seu nivelamento.

Sistematização da área

Podemos afirmar que para um melhor aproveitamento de tempo, a sistematização da área deve começar a ser realizada após a época de colheita do arroz, mais precisamente nos meses de maio / junho. Para que possamos realizar um perfeito nivelamento do terreno, utilizamos o auxílio da água, sendo que devemos inundar, mais ou menos, uma terça parte do quadro, pois é a água que mostra onde o terreno deve sofrer corte e onde deve ser preenchido. Também podemos utilizar água da chuva para inundar esses quadros, na medida apropriada.

Para esse trabalho utilizamos, como implemento agrícola, uma grade de levante hidráulico que serve para realizar o corte dos cantos dos quadros e afrouxar o solo nas partes mais altas do terreno. Após essa tarefa, entramos com o pranchão alisador para nivelar todo o quadro. Todo esse trabalho de sistematização é realizado com água dentro dos quadros. Isso também poderá ser realizado no terreno seco, onde não existe a água dentro dos quadros, entretanto, o tipo de máquina a ser utilizada é a Plaina Laser, equipamento que já apresenta um custo bem maior refletindo sobre o seu custo-hora para o agricultor.

Trabalhar com os quadros à seco pode provocar, dependendo da falta de experiência do operador, a retirada total do horizonte A, podendo certos locais do quadro ficarem somente com o horizonte B. Após 10 a 15 dias devemos retirar a água para drenar os quadros, esperando-se até a época de plantio da cultura.

As taipas que devem ser feitas dentro dos quadros são aquelas de pequena altura e de base larga, idênticas às utilizadas no sistema de plantio direto.

Preparo do solo

Antes de realizar o preparo do solo devemos definir qual a época de semeadura como, por exemplo 20-25 de outubro. Mais precisamente 30 dias antes, colocamos uma lâmina de água nos quadros e entre os dias 10 e 15 de outubro realizamos o preparo do solo com um equipamento denominado de roda gaiola inteira com rolo faca.

Os pneus do trator são retirados e substituídos pela Roda de Ferro que tem a função de afrouxar o solo e proporcionar que este fique mais firme. Esse equipamento é utilizado em substituição à grade hidráulica.

Posteriormente, retiramos o rolo faca traseiro do equipamento mencionado acima e colocamos o pranchão alisador. Deixamos os quadros mais 2 a 3 dias com água e, em 23 de outubro, poderemos iniciar a semeadura que normalmente é realizada com distribuidor centrífugo de dois discos. No trator, é acoplado um conjunto de rodas para semear, que apresentam a função de já irem realizando um dreno, sempre no sentido do maior comprimento dos quadros.

Após a colheita do arroz, o equipamento denominado de Roda Gaiola Inteira com Rolo faca é novamente utilizado, mas desta vez com a função de incorporação de parte da resteva. As épocas estipuladas na matéria são algumas das utilizadas pelos agricultores na metade sul do Estado do Rio Grande do Sul para o plantio de arroz pré-germinado, e não devem ser consideradas como padrão para outras regiões ou Estados.

Outros equipamentos

Como todas as técnicas de plantio de grãos, o sistema de plantio de arroz pré-germinado também oferece aos orizicultores uma série de alternativas para a utilização de outros tipos de máquinas. Como dito anteriormente, essa técnica pode muito bem ser realizada utilizando-se implementos mais leves. Entretanto, outros tipos de máquinas e equipamentos, que por ventura já estejam disponíveis na propriedade, também podem ser aproveitados para a realização da sistematização e preparo da área, sendo que o agricultor deve levar em consideração os prós e os contras nessa utilização.

O produtor rural também poderá lançar mão da utilização da enxada rotativa, muito utilizada nesse sistema de plantio, assim:

• O solo deverá sofrer dragagens sucessivas (ou enxada rotativa), a fim de incorporar os restos de culturas e diminuir a incidência de invasoras;

• Vinte dias antes do plantio a área deverá ser inundada, procedendo-se logo após a passagem de enxada rotativa ou grade de disco, deixando-se a seguir em repouso;

• Após esse período, deverá o solo ser novamente revolvido para a formação de lama, efetuando-se três dias após o plantio de sementes pré-germinadas.

Também podemos citar a utilização de sistemas de rodagem dupla, em função das condições do solo no momento da realização de uma determinada tarefa nessa técnica de plantio.

Normalmente, quando temos de trabalhar em terreno alagado, é lógico que devemos nos preocupar com a eficiência do sistema de tração do trator, onde se pode adotar a duplagem dos pneus traseiros.

Recomenda-se que a duplagem dos pneus seja realizada por empresa que ofereça todas as garantias de um bom trabalho e que o agricultor busque melhores informações sobre quem as possui e sua satisfação em utilizá-las, para que futuramente não venha a sofrer com problemas maiores no próprio trator.

Plantio da área

No sistema de arroz pré-germinado, o plantio da lavoura deve ser realizado com distribuidores centrífugos, de preferência aqueles com dois discos e que oferecem uma melhor uniformidade de distribuição. Inicialmente, quando da utilização desse sistema, em grandes áreas, essa tarefa era realizada através do uso de avião agrícola, entretanto com o passar do tempo e a busca, pelo agricultor, na redução de custos da lavoura, passou-se a realizar o plantio com distribuidores centrífugos. Como podemos notar, as rodas utilizadas no trator, para a execução dessa tarefa, são denominadas Rodas para Semear, que possuem a função de proporcionar, juntamente com o plantio, a realização de drenos dentro da lavoura, sempre no sentido do maior comprimento dos quadros.

Semeadura aérea

As aplicações de produtos na forma sólida através de aeronaves agrícolas têm sido muito empregadas para adubação e semeadura. A semeadura de arroz pré-germinado já ocupa uma área significativa no Brasil e, a exemplo de outros países como os Estados Unidos, tem sido executada por aeronaves agrícolas nas lavouras com maiores dimensões, como por exemplo no Rio Grande do Sul. Apesar de o Estado de Santa Catarina apresentar quase que a totalidade de suas áreas de arroz utilizando o sistema pré-germinado, as áreas são bem menores, inviabilizando a utilização de avião para a etapa de semeadura.

Apesar de ser mais uma alternativa disponível ao produtor rural, a utilização de avião para a realização da semeadura do arroz pré-germinado ainda está limitada a lavouras de maiores extensões. A carga de arroz que o avião leva, em média, é de aproximadamente 600 kg para uma densidade de semeadura de até 150 kg de arroz por hectare. Nessa condição, o custo da aplicação será elevado, tendo em vista o baixo rendimento da aeronave, pois poderia semear apenas 4 hectares.

A maneira escolhida por alguns é realizar duas passadas com o avião, pela mesma área, em sentidos cruzados, aplicando apenas metade da densidade de semeadura em cada passada, ou seja, se a densidade fosse de 150 kg/hectare, faríamos duas passadas de 75 kg/hectare cada. Com isso, poderemos aumentar o rendimento de trabalho da aeronave (aumentar a quantidade de hectares por vôo) e melhorar significativamente a uniformidade de distribuição das sementes, favorecendo assim o “stand” da lavoura e tornando-o mais homogêneo, tendo em vista existir uma tendência de maior concentração de sementes próximas à linha de tiro da aeronave.

Carlos Andersson,
UFPel

* Este artigo foi publicado na edição número 23 da revista Cultivar Máquinas, de agosto/setembro de 2003.

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