Velhos e sem manutenção

Apresentado inicialmente na edição de setembro/outubro de 2001 da Cultivar Máquinas, o Projeto IPP - Inspeção Periódica de Pulverizadores - tem realizado visitas a propriedades agrícolas para inspecionar pulverizadores, com o objetivo de desenvolver metodologias e viabilizar a implementação de um sistema de inspeções periódicas no Brasil.

Realizadas em mais de 20 países em todo o mundo (de maneira compulsória em muitos deles), as inspeções periódicas de pulverizadores têm se mostrado ferramenta importante na otimização do uso de defensivos e na redução do impacto ambiental das atividades agrícolas.

O Projeto IPP

O projeto IPP está sendo realizado no NEMPA - Núcleo de Ensaio de Máquinas e Pneus Agrícolas da FCA/UNESP - Botucatu/SP, contando com financiamento da FAPESP - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. O coordenador do projeto é o Prof. Ulisses Rocha Antuniassi, sendo que a primeira etapa do trabalho correspondeu à Tese de Doutoramento defendida em fevereiro de 2002 pelo Prof. Marco Antonio Gandolfo, da Fundação Faculdades "Luiz Meneghel"/Bandeirante/PR.

A estrutura para inspeções foi estabelecida a partir de uma unidade móvel, a qual transporta os equipamentos necessários para as avaliações até as propriedades rurais. Priorizando a inspeção de pulverizadores de barras, os levantamentos foram iniciados em fevereiro de 2001. Até junho de 2002, foram realizadas visitas e entrevistas com mais de 100 produtores rurais, as quais resultaram em 82 pulverizadores inspecionados, abrangendo os Estados de São Paulo e Paraná. Os locais e número de máquinas avaliadas estão mostrados na Tabela 1 (veja no final do texto como visualizar este artigo, com fotos e tabelas, em PDF).

Procedimentos de inspeção

As inspeções têm sido realizadas tanto em máquinas de proprietários escolhidos ao acaso quanto em grupo de produtores convidados à participação. No caso de inspeções coletivas, os trabalhos são realizados de forma programada, após solicitação de alguma entidade para promover o Projeto IPP na região. Para isto, após estabelecido o período disponível, tal entidade providencia antecipadamente um local apropriado e comunica os proprietários interessados em participar. Estes participantes são escalados de acordo com a previsão de tempo necessário e número de máquinas a serem avaliadas, recebendo informação antecipada da data e o horário provável da inspeção. Este cuidado tem sido tomado no sentido de que as máquinas fiquem paradas para a inspeção somente o tempo necessário, evitando-se prejuízos às atividades normais da fazenda. A realização de inspeções coletivas facilita o uso de técnicas mais modernas de avaliação, como o uso de dispositivos eletrônicos para a automação dos procedimentos de inspeção (spray scanner).

Em uma inspeção típica, os técnicos do projeto IPP avaliam e/ou identificam as seguintes características: vazamentos; mangueiras danificadas; localização e posicionamento de mangueiras; espaçamento entre bicos; estado de conservação do filtro de sucção; presença e estado de conservação do filtro de linha; presença e estado de conservação de antigotejadores; tipo de ponta de pulverização; estado das pontas de pulverização; presença e adequação do manômetro; precisão do manômetro; proteção de partes móveis; taxa de aplicação; dosagem do produto e uniformidade de distribuição da pulverização.

Após cada inspeção, o proprietário da máquina recebe um certificado e um selo de conformidade do Projeto IPP.

Resultados das inspeções

Os dados apresentados neste trabalho representam resultados parciais, pois a quantidade de informação obtida nas mais de 100 entrevistas neste primeiro ano do projeto foi muito grande. Os resultados completos desta primeira etapa podem ser encontrados na Tese de Doutoramento do Prof. Marco A. Gandolfo.

Os resultados mostraram que das 82 máquinas avaliadas até o momento, somente 13 (15,9%) tinham até 2 anos de fabricação. As demais, ou seja, 69 máquinas (84,1%) estavam em operação há mais de 2 anos. A idade média do grupo de máquinas não pôde ser calculada em toda a amostra, já que em 13 máquinas não foi possível identificar o ano de fabricação. As 69 restantes apresentaram média de idade de 6,8 anos. Estes valores sugerem um processo de envelhecimento da frota, indicando a necessidade de renovação ou modernização. Para efeito de comparação, pesquisa realizada na Itália em 1995 constatou que 35% das máquinas avaliadas tinham entre 5 e 10 anos de uso. No Brasil, hoje, este percentual é de 52,4%.

Levando-se em consideração o conjunto total de máquinas (82 pulverizadores), a Tabela 2 mostra os principais resultados obtidos nas inspeções no Brasil, comparando-se com os valores apresentados por Langenakens (1999), obtidos na Bélgica.

Os resultados mostram que todas as máquinas (100% dos 82 pulverizadores) apresentaram algum tipo de falha, e seriam reprovadas caso a inspeção fosse realizada de maneira oficial. Entretanto, muitos destes pulverizadores poderiam ser aprovados em uma nova inspeção caso fossem submetidos a reparos simples. Como exemplos marcantes da magnitude do problema, podem ser citados os seguintes resultados (Tabela 2): 54,9% dos pulverizadores apresentaram vazamentos, contra apenas 0,5% observados na Bélgica; 92,3% possuíam problemas relacionados ao manômetro; falhas em pontas de pulverização ocorreram em 80,5% das máquinas inspecionadas; em cerca de 80% dos casos foram constatados erros na taxa de aplicação ou dosagem dos produtos, o que demonstra total despreparo dos operadores. Estes resultados indicam a necessidade urgente da aplicação de técnicas de melhor uso e manutenção nos pulverizadores, justificando um programa de inspeções periódicas no Brasil.

Esta etapa do projeto IPP possibilitou também quantificar algumas perdas no processo de pulverização, as quais representam custos significativos. Pode-se mencionar as perdas por erros em taxa de aplicação, que superam, em média, a 18% da taxa pretendida. Tomando-se como exemplo o controle fitossanitário em soja (herbicidas, inseticidas e fungicidas), a um custo estimado de R$ 150,00 por hectare, o desperdício médio seria de R$ 27,00 por hectare. Isto significa o custo de um pulverizador de pequeno porte (R$ 13.500,00) a cada 500 hectares plantados. Além disso, ao considerarmos o desperdício por erros em espaçamento entre pontas e pontas desgastadas, haveria ainda um acréscimo de 10,4% nos custos. Sabe-se que as perdas citadas não são as únicas existentes no processo. Porém, uma análise simples permite avaliar a contribuição destes problemas no aumento dos custos das aplicações. Além dos custos, estes problemas elevam também os riscos ambientais, predispondo o ambiente a contaminações desnecessárias.

Considerações finais

A estrutura física montada para o Projeto IPP, bem como a metodologia empregada nos testes, demonstraram ser adequadas para a identificação de falhas nos pulverizadores, e também para respaldar modificações que poderiam melhorar a qualidade do trabalho executado por tais máquinas. Considerando as variáveis avaliadas, conclui-se, até o momento, que todos os pulverizadores de barras testados apresentaram condição de uso e manutenção inadequados, necessitando ajustes, reparos e/ou substituição de componentes. Os resultados obtidos nesta pesquisa justificam a implantação de inspeções periódicas em pulverizadores agrícolas no Brasil.

O Projeto IPP continuará a realizar inspeções visando o desenvolvimento metodológico e o fomento das inspeções periódicas de pulverizadores no Brasil. Além das inspeções isoladas, novos contatos com cooperativas e associações de produtores estão sendo realizados para viabilizar programas de inspeções coletivas.

Paralelamente, ações de divulgação estão em curso, com destaque a um programa de palestras a engenheiros agrônomos organizado pelo CREA/PR, onde o Prof. Gandolfo está percorrendo as principais regiões paranaenses para participar de debates sobre o Projeto IPP.

Ulisses Rocha Antuniassi
FCA/UNESP
Marco Antonio Gandolfo,
FFALM

* Este artigo foi publicado na edição número 14 da revista Cultivar Máquinas, de setembro/outubro de 2002.

* Confira este artigo, com fotos e tabelas, em formato PDF. Basta clicar no link abaixo:

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