​Velocidade prejudicial

Atualmente o Brasil está com uma posição de destaque na produção agrícola mundial, condição oriunda dos avanços tecnológicos na genética de semente, da mecanização agrícola e da agricultura de precisão. O crescimento populacional mundial desencadeou maior demanda por alimentos, com isso, aumentaram as exigências de qualidade e quantidade de produtos disponíveis, o que estão diretamente relacionadas com a necessidade de utilização de máquinas mais tecnológicas.

Segundo o relatório da FAO sobre o crescimento populacional global (FAO, 2009), a população do planeta deverá ultrapassar os 9 bilhões no ano de 2050, e isso irá exigirá um aumento mínimo da produção de alimentos em 70% a mais do que era produzido em 2009. Aprofundando essa análise, vários países possuem baixa disponibilidade de área, o que para o Brasil é de certa forma uma vantagem. No entanto, inevitavelmente, há uma necessidade por aumento da produtividade das culturas.

Objetivando o aumento da produtividade, cuidados nas operações agrícolas são imprescindíveis, em especial na semeadura, pois problemas nessa operação muitas vezes podem não ser recuperados ao longo do desenvolvimento da cultura, que comprometerátoda a safra.O que de errado pode acontecer nessa operação? Simulando algumas condições, a heterogeneidade da distribuição de sementes ao longo da linha resultado do excesso de velocidade de semeadura, resultará na disputa por nutrientes, luze água pelasplantas que estejam próximas. Isto é visualizadofacilmente em plantas como a de milho, pois aquelas plantas que estão com maior área de absorção de luz irão se desenvolver mais rápido, chegando antes ao estágio de maior exigência nutricional, extraindo do solo mais nutrientes do que as outras plantas.

A semeadura em solos manejados em sistema de plantio direto consiste em algumas operações, dentre elas o corte dos restos culturais remanescentes sobre a superfície; a abertura do sulco de fertilizantes e sua distribuição e deposição; abertura do sulco de semente, distribuição e a deposição dessa; a compactação e o fechamento dos sulcos. Nessas operações agricultores ou técnicos de campo estão cada vez mais identificando falhas na distribuição da semente e do fertilizante,problemas que estão reduzindo a produtividade da cultura, que é o objetivo final da atividade.

O problema gerado pela desuniformidade da distribuição de semente é normalmente ocasionado no distribuidor ou dosador e ocorre em função: do tamanho e formato irregular da semente em relação ao tamanho do alvéolo (furo) do disco; velocidade angular do disco horizontal, que pode danificar a semente, quando em elevada velocidade; e a trepidação da máquina, que pode resultar na expulsão da semente do alvéolo ou na acomodação de duas sementes no alvéolo. Pesquisadores como Tourinoet al. (2002) e Kurachi et al. (1989) afirmam que a uniformidade de espaçamento entre as sementes depositadas ao longo da linha influencia diretamente a produtividade da cultura. Os primeiros pesquisadores verificaram que o acúmulo de plantas em alguns pontos, como por exemplo, a soja (Glycinemax), provoca o desenvolvimento de plantas mais altas, reduzindo a produção individual, ficando mais propensas ao acamamento. Em outros casos foi verificado que a desuniformidade da distribuição longitudinal das sementes é uma das características que mais afeta o estande final das plantas, comprometendo a produtividade das culturas.

Uma solução oferecida para este problema é a utilização de disco Rampflow, tecnologia caracterizada por um disco horizontal de furação cônica na cavidade que, segundo a empresa desenvolvedora do projeto, resulta na redução das falhas de distribuição. Segundo a pesquisa realizada pela fabricante do disco, que testou a distribuição linear 60 híbridos de soja, o disco horizontal convencional de 12 mm apresentou uma falha de 0,7% e erro de duplos de 3,75%, contra 0,43% e 1,01%. Em outro teste com uma média de 13 híbridos de soja, a falha foi de 4,16% e erro de duplos de 30,42%, contra 2,6% e 9,36%, que resulta na redução brusca da falha empregando este tipo de disco. Entende-se aqui como falha aquelas sementes que ficaram com espaçamento maior que 50% da referência, e como duplos aquelas que ficaram com espaçamento menor que 50% da referência, isto baseado na metodologia da Associação de Normas Técnicas Brasileiras (ABNT).

Como as falhas na uniformidade da semeadura podem determinar perdas de produtividade, pesquisas vêm sendo realizada pelo laboratório de física do solo do IFRS Câmpus Sertão, como objetivo de qualificar a eficiência de semeadura de sementes de milho híbridocom dois dosadores: o disco horizontal convencional e o disco horizontal Rampflow.

No primeiro teste realizado com o híbrido Pionner 30F53 (Tabela 1) atecnologia Rampflow reduziu em quase 2% a falha, sendo que a presença de duplos não teve tanta diferença entre os discos, nas condições de trabalho utilizada, que foi com baixa velocidade (em torno de 2km/h), visando testar o efeito da furação.

A redução da falha vai afetar diretamente o estando final de plantas, que nesse caso resultou em 92.593 plantas/ha contra 90.556 plantas/ha do disco convencional. Como algumas cultivares de milho respondem linearmente a densidade de plantio haverá uma relação direta com a produtividade.

TABELA 1. Índice de falhas, duplos e aceitáveis, espaçamento médio entre as sementes, velocidade de emergência no disco horizontal convencional e com a tecnologia Apollo.

Tratamentos

Índices (%)

Espaçamento

médio (cm)

Velocidade

Emergência

Falhas

Duplos

Aceitáveis

Disco horizontal

6,86

a*

2,54

90,60

23,77

a

8,65

b

Disco Apollo

3,99

b

3,11

92,90

22,77

b

9,18

a

* Médias seguidas por letras distintas, na mesma coluna, diferem pelo teste T (p < 0,05).

Em outro teste realizado com as velocidades de 4,5km/h, 6,0km/h e 8,8km/h ainda com a cultura do milho, primeiro fator de ocorrência foi à falha no corte de palha e, em função dessa o aumento da rugosidade superficial.

Na figura 2 está demonstrado o coeficiente de variação (CV) da distribuição linear de sementes nas velocidades em estudo, e pode-se verificar que em velocidades menores e maiores o disco horizontal convencional apresentou menor variação entre as sementes, sendo 20% menor na velocidade de 4,5km/h, e 10% na velocidade de 8,8 km/h. A tecnologiaRampflow foi melhor na velocidade intermediária, 6,0 km/h.

Figura 2 – Coeficiente de variação (%) da distribuição linear de sementes pelo disco horizontal convencional e rampflow nas velocidades 4,5km/h, 6,0km/h e 8,8 km/h.

Na tabela 2 está o índice de falha e duplo ao longo de 3,0m lineares pelos dosadores, e percebe-se que não há muita diferença entre os dosadores nesse quesito, demonstrando para as velocidades testadas com esse híbrido de milho AG9045 (Agroceres) não há diferença em tais tecnologias.

Tabela 2 – Índice de falha e duplo pelo dosador horizontal convencional e rampflow nas velocidades de 4,5, 6,0 e 8,8 km.h-1, ao longo de 3,0m lineares.

Dosador/dados

4,5 km/h

6,0 km/h

8,8 km/h

Falha

Duplo

Falha

Duplo

Falha

Duplo

Rampflow

2,0

0,8

3,2

0,6

3,4

1,2

Convencional

1,0

0,6

3,0

0,8

2,2

0,8

* Médias seguidas por letras distintas, na mesma coluna, diferem pelo teste T (p < 0,05).

Na tabela 3está apresentado um estudo da Pionner,que é pertinente de ser citado aqui, pois demonstra o efeito econômico da variação do espaçamento entre sementes, ou seja, arranjo entre elas. Nota-se claramente que em velocidades maiores ocorrem maiores diferenças. Na velocidade de 7,5km/h temos aproximadamente 1.481 plantas a menos por hectare. Isso significa 738kg a menos por hectare, ou seja, 12,3 sacos. Considerando R$ 25,00 o valor da saca do milho, o resultado uma diferença de R$ 300 reais/ha, isto significa que em dois hectares de perdas seria possível comprar um saco de sementes (dependendo da variedade).

Tabela 3 – Teste de velocidade de plantio na cultura do milho

Velocidade de plantio

5 km/h

7,5 km/h

10km/h

População final (pl.ha-1)

52612

51131

46821

Diferença de população

0

-1481

-5791

Produtividade (kg.ha-1)

9327

8589

8203

Fonte: Pionner

Aumentando a velocidade para 10km/h passamos para uma produtividade de 1.124kg/ha menor,ou seja, 18,7sc/ha a menos, ou ainda R$ 468,30 a menos por hectare. Frente ao aumento dos insumos (semente, adubo, inseticida, fungicida), nada adianta focar o trabalho no controle de pragas se, a semeadura não foi bem realizada. É importante observar detalhadamente cada item da semeadora bem como a velocidade de trabalho, o que aumenta as chances de sucesso na operação.


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