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Artigo: Palmeiras e paisagens, vida e saúde

  • 15/12/2015 |
  • Tânia da Silveira Agostini-Costa

Cacho de buriti (Mauritia flexuosa) - Foto: Carlos A. R. Costa

As palmeiras pertencem à família Arecaceae, no passado também conhecidas como Palmae ou Palmaceae. A elegância das espécies onde cantam os sabiás compõe a paisagem dos mais variados biomas brasileiros. Além da beleza e da importância ao meio ambiente, estas espécies distintas contribuem com forte e característico impacto social, cultural, econômico e, também, nutricional.

O coqueiro (Cocos nucifera L.) caracteriza a paisagem da Mata Atlântica e de muitas praias do litoral brasileiro. De composição semelhante ao plasma sanguíneo, a água-de-coco, além de refrescante, possui alta capacidade de hidratação, contendo carboidratos e minerais, como o potássio, o manganês, o magnésio e o cálcio, entre outros.

Mais recentemente, diante de polêmicas envolvendo o consumo de óleos e gorduras, o óleo de coco resgata um crescente apelo funcional. A gordura saudável, rica em ácidos graxos de cadeias intermediárias (cerca de 50 % de ácido láurico e 19 % de ácido mirístico), seria facilmente absorvida e metabolizada pelo fígado, podendo ser convertida em cetonas específicas. Estas cetonas são importantes fontes alternativas de energia para o cérebro. Por isso, estudos recentes conduzidos na Austrália sugerem o efeito positivo do óleo de coco virgem na prevenção e controle do mal de Alzheimer. Segundo estes estudos, a água de coco e o óleo de coco ainda podem apresentar efeitos positivos na redução do colesterol plasmático, dos níveis de glicose no sangue e controle da pressão sanguínea.

Frutos de outras palmeiras também possuem óleos com diferentes características apreciadas. O óleo da polpa do coquinho azedo (Butia capitata Mart.), por exemplo, apresenta ácido linoléico e linolênico, considerados essenciais, que não são sintetizados pelo organismo, ou seja, precisam ser consumidos através da dieta. Já o óleo da amêndoa do coquinho azedo possui composição semelhante ao óleo de coco. O óleo da polpa de buriti apresenta mais de 70 % de ácido oléico (monoinsaturado).

As veredas de buriti (Mauritia flexuosa L.f.), que habitam lugares inundados e próximos de nascentes nos biomas Cerrado e Amazônico, foram poeticamente descritas na literatura brasileira, até serem eternizadas nas prosas de Guimarães Rosa. Buriti, também conhecido como árvore da vida, possui crescimento lento, porém vida longa. Seus frutos tropicais gerados da água e do sol carregam elevados teores de substâncias bioativas solúveis em lipídeos, em uma mistura bastante saudável. Os frutos de buriti e de outras tantas palmeiras, como a pupunha, o tucumã, a macaúba, o dendê, o coquinho azedo e outras possuem polpa de coloração fortemente dourada, reflexo do elevado teor de carotenóides, principalmente β-caroteno. Este carotenóide antioxidante também é pró-vitamina A, que recupera e protege a visão, mantém a integridade e beleza da pele. Outras substâncias bioativas lipossolúveis, como os tocoferóis (vitamina E) e fitosteróis (diminuem a absorção do colesterol) também são encontrados em quantidades muito elevadas na polpa do buriti e de algumas outras palmeiras. A composição da polpa, rica em óleos, favorece a absorção e biodisponibilidade destes nutrientes lipossolúveis. Estas propriedades bioativas também têm sido utilizadas em algumas indústrias de cosméticos, especialmente voltados para a hidratação e beleza da pele e dos cabelos.

De outra forma, o açaí (Euterpe oleraceae Mart.), abundante nas planícies inundadas do bioma amazônico, produz frutos ricos em pigmentos fenólicos solúveis em água, conhecidos como antocianinas (propriedades antioxidantes), que conferem aos frutos coloração púrpura, bastante escura. As principais antocianinas são a cianidina-3-glucosideo e a cianidina-3-rutinosídeo. Outros compostos fenólicos (ou polifenóis) hidrossolúveis conhecidos como flavonóides (luteolina, quercetina, velutina e derivados do campferol, entre outros) parecem exercer importante atividade antioxidante e antiinflamatória. As lignanas, também conhecidas como fitoestrogênios, seriam importantes para a atividade antioxidante e citoprotetora. Além destes compostos de menor peso molecular, a polpa de açaí também possui outros polifenóis polimerizados, conhecidos como proantocianidinas, de perfil semelhante ao encontrado no mirtilo (“blueberry”). Estudos recentes sugerem que as propriedades bioativas destes compostos também poderiam estar associadas à capacidade neuroprotetora do açaí contra peptídeos beta-amilóides produzidos no cérebro durante o mal de Alzheimer.

O consumo da pupunha é muito difundido na região Norte do Brasil. O buriti enriquece a dieta no Nordeste, especialmente Maranhão, no Cerrado e na Amazônia. O dendê, na Bahia. O coquinho-azedo no norte de Minas Gerais. O coco-da-baía e o açaí romperam barreiras geográficas e são apreciados em todo o país. Dada a diversidade de substâncias bioativas, nota-se a importância da conservação, preservação e manejo dos biomas brasileiros, aliado ao conhecimento das palmeiras e uso sustentado das espécies. Com a perspectiva de mudanças climáticas, além de conferir cor e beleza a nossa paisagem, as palmeiras, assim como tantas outras espécies da biodiversidade, também podem ser fontes de soluções criativas para a melhoria da saúde e qualidade de vida.


Referências Bibliográficas

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