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Hortaliça pouco conhecida será alternativa de cultivo para o Cerrado

Uma pesquisa em andamento está avaliando a viabilidade de cultivar physalis nas condições do Brasil Central, onde predomina o bioma Cerrado. A physalis é uma hortaliça fruto da família das solanáceas, da qual fazem parte o tomate, a berinjela e o pimentão. Trata-se de um fruto pequeno de alto valor e muito utilizado na ornamentação de sobremesas finas. Os resultados preliminares foram promissores e surpreenderam os pesquisadores que, apesar das adversidades climáticas, conseguiram garantir uma boa produção e qualidade do fruto.

"A proposta é estabelecer um sistema de produção para facilitar os tratos culturais e entender como a planta deve ser conduzida no campo e, ao mesmo tempo, avaliar as características do fruto que são essenciais para atender as demandas de mercado", pontua o pesquisador Raphael Melo, da área de fitotecnia da Embrapa Hortaliças.

Realizado em Brasília (DF), o experimento foi conduzido em um sistema de transição, sem aporte de qualquer insumo químico, e as plantas foram tutoradas com bambus e barbantes, para facilitar os tratos culturais e a colheita, diminuindo a necessidade de intensa mão de obra.

O grande diferencial foi conduzir as plantas em espaldeira, mantendo até uma altura de 80 cm sem vegetar, somente com a condução de duas ou três hastes. Dessa forma, a plantas ficaram menos suscetíveis às pragas como lagartas e obtiveram mais nutrientes disponibilizados para a copa, que teve franca produção.

"O desenvolvimento da planta ocorreu em um período de alta temperatura e baixa umidade relativa do ar, condições que não são favoráveis para a cultura. Por isso, acreditamos que a forma de condução favoreceu a produção", explica Melo ao sinalizar que o Cerrado pode ser uma alternativa interessante para produção na entressafra de locais tradicionais de plantio como Lages, município da região serrana de Santa Catarina, de clima ameno e altitude elevada.

Frutos mais doces

Além do bom rendimento das plantas, as primeiras avaliações relacionadas à qualidade do fruto indicaram um elevado teor de sólidos solúveis, que são compostos responsáveis pelo sabor, principalmente açúcares. Os valores medidos apontaram frutos com 18º Brix, sendo que um grau Brix (1º Bx) equivale a um grama de sólidos solúveis, sendo a maioria açúcares, por 100 gramas de solução, ou seja, 1% de açúcares e demais compostos.

Para physalis, geralmente, o padrão de qualidade do fruto gira em torno de 13º Bx. Os pesquisadores acreditam que a alta luminosidade da região do Cerrado, aliada ao modo de condução da planta, possa ter favorecido uma maior concentração de sólidos solúveis.

"Nessa etapa, vamos iniciar outras análises como ponto de colheita e vida útil, sob sistema de armazenamento refrigerado e natural, porque a physalis é um fruto climatérico que, mesmo depois de colhido, atinge a maturação", explica a pesquisadora Neide Botrel, da área de pós-colheita da Embrapa Hortaliças, ao destacar que os resultados desses testes vão favorecer a logística de distribuição para mercados distantes.

Além disso, em parceria com a Embrapa Agroindústria de Alimentos, localizada no Rio de Janeiro, será realizada a caracterização nutricional da physalis para mensurar os teores de vitaminas e minerais. "Devido à coloração do fruto que, quando maduro, fica amarelo intenso, imaginamos que ele será rico em carotenoides precursores da vitamina A", sinaliza Neide.

Bom potencial de mercado

Existem diversas espécies do gênero Physalis, sendo algumas inclusive tóxicas. O fruto comumente comercializado, na forma fresca ou processada, é da espécie Physalis peruviana, que foi domesticada e atualmente tem um grande potencial de mercado. No Brasil ocorre a espécie Physalis angulata, utilizada tradicionalmente na medicina popular e na alimentação, mas pouco explorada fora do âmbito da pesquisa.

A Colômbia é o maior produtor mundial de physalis, exportando os frutos para outros países da América, mas principalmente para o continente europeu. "Nesse país, o sistema de produção apresenta um elevado nível tecnológico para atender o mercado externo. Enquanto eles focam a exportação para outros países, o Brasil pode viabilizar a produção para atender esse nicho do nosso mercado interno e evitar a dependência do produto estrangeiro", contextualiza o pesquisador Raphael Melo ao ponderar que, embora o calibre do fruto colombiano seja maior, nosso fruto apresentar maior teor de sólidos solúveis, sendo, portanto, mais adocicado.

Apesar dos resultados positivos dos experimentos, ainda faltam ajustes e validações no manejo da cultura nas condições do Cerrado, tais como nutrição mineral e teor de matéria orgânica no solo, para alcançar o padrão dos frutos importados e assegurar ganhos para o agricultor. "No geral, a physalis apresenta um grande potencial para cultivo na região do Brasil Central, principalmente em pequena escala com foco na agricultura familiar", conclui o pesquisador, que espera estabelecer bases para um futuro sistema de produção e, assim, garantir mais segurança para os investimentos na cultura.

A cereja dos doces

Fruto pequeno, mas de alto valor agregado, a physalis ocupa posição de destaque na ornamentação de doces finos e, além da leve acidez complementar o sabor do chocolate, seu tom alaranjado oferece um contraste e um belo efeito visual nas vitrines de confeitarias e nas mesas de festas. As pequenas folhas que envolvem a physalis, na verdade, são chamadas de cálice ou capulho e funcionam como uma embalagem natural, protegendo o fruto que é delicado e possui casca bem fina.

A physalis está sendo estudada no âmbito do projeto "Avaliação agronômica, caracterização nutricional e estudo da vida útil de hortaliças não convencionais", que busca tornar acessíveis informações sobre essas espécies com o intuito de fomentar a produção, o consumo e a comercialização. Além dela, as outras hortaliças analisadas são: almeirão-de-árvore, amaranto, azedinha, beldroega, bertalha, capuchinha, cará-do-ar, caruru, chuchu-de-vento, jambu, major-gomes, mangarito, muricato, ora-pro-nobis, peixinho, serralha, taioba e vinagreira.

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