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ILPF: escolha de espécie e manejo de árvores é essencial para qualidade da madeira

  • 21/09/2015 |
  • Kadijah Suleiman
A finalidade de uso da madeira que vai ser produzida, assim como o manejo das árvores, são aspectos essenciais a serem considerados durante o planejamento de um sistema de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). Como explica o pesquisador da Embrapa Gado de Corte, André Dominghetti Ferreira, a qualidade da madeira é influenciada por vários fatores e entre os principais estão: espécie arbórea, manejo silvicultural, desrama e desbaste.

“Entre as características desejáveis das árvores a serem cultivadas em sistemas de ILPF, pode-se citar fuste alto, copa pouco densa, crescimento rápido, capacidade de fornecer nitrogênio e nutrientes à pastagem, adaptação ao ambiente e tolerância à seca, ausência de efeitos tóxicos sobre os animais, capacidade de fornecer sombra e abrigo bem como controle da erosão”, diz André.

O destaque para o eucalipto como componente arbóreo decorre de, apesar de ser uma espécie exótica, apresentar rápido crescimento e ser bem adaptada às condições de clima e solo do Brasil. “São mais de 600 espécies e nesses cerca de 80 anos de pesquisas no país, vários experimentos de melhoramento genético foram desenvolvidos dando origem a vários clones melhorados de acordo com a demanda”, acrescenta o pesquisador.

Segundo ele, vários clones são indicados para produção de celulose ou carvão, por exemplo. Para ILPF são usados clones que apresentam multiplicidade de uso e densidade da madeira intermediária, podendo ser utilizados para movéis, lenha, carvão ou outros produtos, dependendo da necessidade.

Outras vantagens do eucalipto como componente arbóreo nos sistemas agroflorestais são: rápido crescimento e considerável produtividade de madeira, cultivo em elevado estágio tecnológico em algumas regiões brasileiras e potencial para capitalizar os sistemas agroflorestais, pois funciona como uma “poupança-verde”.

“Apesar da vasta possibilidade de uso da madeira de eucalipto em ILPF, o agricultor deve dar ênfase às formas de uso mais nobres como postes, madeira serrada e laminados para a produção de móveis, obtendo assim maior lucratividade no sistema. Quanto mais nobre for o emprego da madeira, mais longo será o período para corte e maior será a complexidade do manejo a ser adotado”, informa o pesquisador.

Outras espécies

No Brasil existem espécies nativas com boa qualidade de madeira, porém com crescimento mais lento que o apresentado pelo eucalipto. Enquanto com o eucalipto é possível retornar os animas para a área cerca de 12 a 14 meses após o plantio, com as nativas o prazo aumenta consideravelmente para entre 24 e 36 meses, ou mais dependendo da espécie, obrigando o pecuarista a deixar a área fechada durante esse tempo.

Caso o produtor não tenha pressa, pode-se citar como opções de nativas o baru, a canafístula, o cedro rosa e o paricá. “Quanto maior a qualidade da madeira, maior o retorno financeiro. A madeira de algumas espécies é comercializada por valores bem superiores às de outras espécies, mas tudo depende da demanda pela matéria-prima. Apesar do maior retorno financeiro, estas espécies demandam maior investimento inicial, em função principalmente do valor de aquisição da muda e manejo pós-plantio”, diz André.

Manejo

A produção de madeira de qualidade depende da aplicação de algumas técnicas como a desrama e o desbaste. A desrama consiste na retirada dos ramos laterais para a obtenção de madeira sem nós, aumentando o aproveitamento das toras das árvores. Alguns cuidados são necessários para a realização das desramas, como por exemplo, realizar a primeira desrama quando o diâmetro à altura do peito (1,30 m do solo) for de no mínimo seis centímetros; realizar a desrama em até no máximo 30% da altura total da árvore e fazer os cortes dos ramos bem rentes ao tronco. Geralmente são realizadas três desramas, buscando atingir seis metros de fuste livre de ramos laterais.

Além de propiciar a produção de madeira de boa qualidade, outra função da desrama é permitir a entrada dos animais na área e aumentar a incidência da luz do sol, que favorece a produção simultânea de forrageiras. O momento ideal da primeira desrama dependerá de fatores como água, adubação e temperatura, pois influenciarão no desenvolvimento inicial das plantas.

A segunda técnica - o desbaste - é utilizada para reduzir o número de árvores por hectare visando aumentar a área útil das árvores remanescentes. Além disso, é uma forma de injeção de renda no sistema, pois antecipa uma parte da renda adquirida com a madeira. A madeira proveniente dos desbastes intermediários pode ser comercializada como lenha, carvão, escoras para a construção civil, entre outras possibilidades. Podem ser realizados um ou dois desbastes, e as taxas de retirada de indivíduos são variáveis, pois dependem de fatores de crescimento e qualidade das árvores. “A decisão para realização dos desbastes deverá sempre ser tomada com o auxílio de um responsável técnico que acompanha o sistema”, orienta o pesquisador.

Foto: Andre Dominghetti ver mais notícias