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Manejo Integrado de Pragas é intensificado na região de Santa Maria, RS

  • 29/02/2016 |
  • Helena Boucinha

Foto: Divulgação

Na região de Santa Maria, no centro do Estado, as práticas e a filosofía que envolvem o Manejo Integrado de Pragas (MIP), adotadas ainda na década de 1980, estão sendo resgatadas pelos agricultores, principalmente na cultura da soja. É que a Emater/RS-Ascar, junto com os agricultores, está procurando diminuir pelo menos um terço do número de aplicações de inseticidas nas lavouras de soja em todo o Estado. O alerta geral foi dado há cerca de três anos, quando houve a presença da lagarta Helicoverpa armigera na soja, que trouxe prejuízos para as lavouras gaúchas.

Na região de Santa Maria, o monitoramento das lavouras está ocorrendo semanalmente em 20 dos 35 municípios de abrangência dessa área administrativa da Emater/RS-Ascar. O monitoramento está sendo feito em 25 lavouras, uma por município, em áreas que variam entre cinco e 30 hectares. O trabalho dos técnicos começou no final de novembro de 2015 e tem como objetivo fazer a identificação e contagem de pragas e inimigos naturais da cultura da soja. “A retomada dessa metodología leva em conta os interesses dos produtores e os impactos sobre a saúde humana, a sociedade e o ambiente, além do conhecimento técnico e da análise econômica. Os agricultores atualmente entendem melhor que as pragas podem ser manejadas sem provocar prejuízos que podem resultar difíceis de avaliar”, diz o assistente técnico da área de grãos do escritorio regional da Emater/RS-Ascar de Santa Maria, Luiz Antonio Rocha Barcellos, que coordena o andamento do MIP na região.

O MIP permite aos agricultores vigiar e controlar as pragas em suas lavouras, reduzindo ao mínimo a utilização de inseticidas, reduzindo o número de aplicações de defensivos. “O monitoramento oferece aos agricultores os meios para tomar decisões informadas, para que não desperdicem seus recursos nem ponham em perigo a sua saúde, não prejudiquem seus cultivos ou o meio ambiente”, explica Barcellos. Segundo Barcellos, a adoção do MIP na soja reduz cerca de 10% do custo total da lavoura.

Em Santa Maria, o MIP é desenvolvido em parceria com a Embrapa Passo Fundo, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e o Instituto Federal Farroupilha (IFF).

Capacitações

Para disseminar o MIP, os técnicos da Emater/RS-Ascar estão reunindo agricultores no campo, dentro de lavouras monitoradas, para que aprendam os princípios da metodologia. É o caso dos agricultores de Dona Francisca, Paraíso do Sul (com a presença de agricultores de Cerro Branco e Novo Cabrais) e Cachoeira do Sul que estiveram participando dessas reuniões nos dias 24, 25 e 26/02, respectivamente, para aprender como se faz uma inspeção através do pano de batida, o instrumento do MIP que fornece uma amostragem dos insetos e pragas da lavoura. O pano de batida consiste em uma superfície de 1m x 1,5m de largura, de cor branca, que é colocado numa fileira de soja para coletar amostras das pragas e identificar os inimigos naturais, auxiliando na tomada de decisão sobre o uso de defensivos.

“É natural que os agricultores tentem proteger as suas lavouras, mas muitos usam inseticidas por desconhecimento, apenas para ter uma sensação de segurança. Com esses ensinamentos (do MIP), a gente pode poupar muito dinheiro e a própria saúde”, diz o produtor Oscar Angelo Cassol, de Dona Francisca, que monitora oito hectares de uma área total de 30 hectares de soja no município. Foi na propriedade de Cassol que foi feita a reunião com alguns vizinhos que também plantam soja e querem aprender a usar o MIP.

Um deles é o produtor Valdir Roque Bissacotti, com 12 hectares de soja cultivados. Para ele, o MIP é importante porque auxilia a “não tomar decisões de controle apressadas ou tarde demais, sendo um tipo de análise que também evita perder dinheiro”.

Já para o produtor Mauro Barbieri, que cultiva uma área de 20 hectares de soja, “não é fácil guardar na cabeça todos os nomes, mas o que importa é que a gente possa encontrar e reconhecer os insetos, fazendo os cálculos certinhos e tomando a melhor decisão para a lavoura e para a natureza”.

Para o técnico da Emater/RS-Ascar do escritório municipal de Dona Francisca, Paulo Renato Maffini, “essa oportunidade de reunir os agricultores, bem no meio do ciclo da soja, é muito útil porque muitos são novos no plantio da lavoura”.

Conforme Maffini, muitos desses produtores trocaram o plantio do feijão pelo da soja. Há três anos, no município a soja ocupava cerca de 70 hectares e hoje chega a 500 hectares, envolvendo aproximadamente 40 produtores. “Apesar da expansão da cultura, se nota que com o MIP há resultados mais uniformes, há um adiamento das aplicações, sendo que toda a semana o monitoramento é feito e o produtor consegue avaliar com mais calma o uso de defensivos, o que é bom para o ambiente, para o bolso e a saúde”, disse Paulo.

Em Paraíso do Sul, o treinamento com o pano de batida do MIP foi feito na propriedade de Carlos Luiz Lüdtke, produtor que está monitorando pelo segundo ano consecutivo 14 hectares de soja, dos 50 hectares que cultiva no município. “Destacaria a economia que faço nas aplicações. Este ano, por exemplo, não precisei fazer qualquer aplicação. No ano que vem pretendo monitorar toda a área de soja que tenho”, disse Lüdtke.

Léo Dumke, também de Paraíso do Sul, contou que no ano passado não precisou fazer nenhuma aplicação de defensivos na sua área de 21 hectares, mas este ano foi necessário usar produto contra a lagarta da soja. “Então, eu vejo que tenho mais despesa e mais preocupação, mas o caminho é esse, monitorar”, declarou.

Em Cachoeira do Sul, o treinamento contou com a participação de agricultores e jovens rurais integrantes da Chamada Pública da Sustentabilidade, na lavoura de Nelci Armando Ruckert, no distrito do Bosque. “A qualificação dos agricultores é de grande importância para tomada de decisão no controle das pragas e doenças”, diz Marcelo de Oliveira Gomes, da localidade de Três Vendas, que acompanhou a capacitação do MIP.

A próxima capacitação do MIP ocorrerá no dia 2/03, em São Pedro do Sul, envolvendo produtores de Mata e Dilermando de Aguiar.

Planejamento

Para compartilhar o MIP com eficácia entre os agricultores, o escritório regional da Emater/RS-Ascar de Santa Maria está planejando uma técnica inovadora de capacitação participativa. “Após a colheita deste ano, vamos começar a reunir os agricultores em torno dos conhecimentos adquiridos no MIP e de suas técnicas, analisando resultados, como proteger os cultivos e como aprender a distinguir entre as pragas e os insetos bons, ou seja, aqueles que impedem que aumente a população de insetos daninhos. O apoio mútuo e a discussão entre os produtores são vitais para obter uma mudança sustentável do comportamento”, diz Barcellos.

Para a gerente do escritório regional da Emater/RS-Ascar de Santa Maria, Regina Hernandes, que participou da capacitação em Paraíso do Sul, a intenção é fazer com que os produtores se apropriem do MIP nas suas lavouras. “Nossa missão é promover o desenvolvimento sustentável em cada município e vejo que essa atividade pode realmente auxiliar no custo e na mão-de-obra da lavoura. É uma alternativa interessante que o produtor de se apropriar, pois muitas das aplicações feitas não são necessárias”, avalia a gerente.

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