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Máquina compacta voltada a pequenos produtores limpa tomate sem uso de água

Equipamento móvel e compacto que não usa água na limpeza vai ajudar pequenos produtores a classificar tomate e outros frutos e hortaliças, no próprio campo, e contribuir para a redução de perdas no pós-colheita. Licenciado para a empresa paulista MVisia, o equipamento representa uma alternativa aos agricultores que têm pouco acesso à tecnologia automatizada. A empresa pretende disponibilizá-lo ao mercado até o fim de junho.

“As classificadoras compactas podem trazer várias vantagens aos pequenos agricultores, agregar valor ao produto, com classificação mais uniforme, redução do tempo para chegar aos consumidores e menor incidência de danos físicos, melhorias que podem influenciar os lucros, além de diminuir as perdas pós-colheita”, afirma o pesquisador da Embrapa Instrumentação (SP) Marcos David Ferreira que coordenou os trabalhos que deram origem ao equipamento. Outra vantagem da tecnologia é a economia de água a qual não é empregada no processo. A limpeza convencional do tomate pode consumir até 500 m3 de água por mês em algumas unidades de beneficiamento.

Desenvolvido em formato vertical, o protótipo usa um sistema de escova de três vias em helicoide, que faz aumentar a eficiência de limpeza e classificação, atenuando significativamente o impacto nos frutos. Os métodos de seleção em máquinas estáticas convencionais podem provocar quase três vezes mais lesões.

Engenheiro agrônomo, com doutorado em Fitotecnia pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado pela Texas A&M University, Ferreira explica que, embora nem sempre sejam percebidas externamente, essas injúrias podem causar alterações metabólicas, fisiológicas e de sabor e resultar em perdas quantitativas e qualitativas significativas nos frutos.

A classificadora compacta, com 2,20 metros de altura por 1,60 metros de largura tem capacidade para classificar cerca de uma tonelada de frutos diariamente, quantidade que varia de acordo com a regulagem da máquina, tipo do fruto, entre outros fatores. A máquina funciona à base de energia elétrica e pesa cerca de 200 kg.

O engenheiro mecatrônico Fernando Velloso, sócio da MVisia, pretende apresentar a classificadora durante a Exposição Técnica de Horticultura, Cultivo Protegido e Culturas Intensivas (Hortitec) a ser realizada entre os dias 21 e 23 de junho no município de Holambra, interior paulista. “Nessa data, pretendemos disponibilizar unidades do equipamento prontas para a comercialização”, prevê.


Experimentos

O equipamento consumiu três anos de pesquisa e foi desenvolvido com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) na modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular. Para realizar os testes, Ferreira empregou dois sistemas mecânicos diferentes de classificação e um manual, para controle, considerando análises de qualidade - incidência e gravidade de lesões, perda de peso, pH, sólidos solúveis, firmeza, leveza, coloração, índice de maturação e produção de CO2.

As análises de incidência e gravidade de lesões consistem na detecção de danos mecânicos em frutos utilizando uma técnica de coloração da casca, na qual é aplicado corante específico na superfície do fruto. Após a coloração, o fruto é classificado de acordo com a intensidade (número de regiões que permanecem manchadas) e gravidade (baixa, média, alta ou muito alta) das lesões detectadas. “Essa técnica é simples, barata e útil para mostrar diferenças de dano mecânico entre os frutos”, afirma o pesquisador.

Em cada sistema mecânico foram utilizados 100 tomates armazenados posteriormente em temperatura aproximada de 21° C durante 14 dias. Os frutos foram colhidos em uma fazenda localizada em São Carlos (SP), transportados para o laboratório e selecionados de acordo com padrões americanos de uniformidade, tamanho e cor para classificação de tomates para consumo in natura.

No primeiro tratamento, o pesquisador conta que os tomates foram classificados em uma máquina horizontal convencional, de um metro de largura por 4,40 metros de comprimento, simulando uma linha comercial composta de várias etapas: lavagem sob aspersão, escovas de nylon e espuma, secagem com ventilador convencional e escovas de nylon e classificação por rolos.

O cientista esclareceu que para esse tratamento foram utilizados os critérios de taxa de fluxo de cada bico de pulverização, rotação de escovas a 120 rpm, e rotação do rolo de classificação a 90 rpm. “Nesse experimento, observamos que a classificação no sistema tradicional resultou no maior número de frutos feridos, 81, cerca de 2,5 vezes mais do que na máquina móvel vertical”, lembrou.

Já no segundo tratamento, com o protótipo móvel vertical, foi analisado a limpeza utilizando três conjuntos de escovas compactas de três vias – nylon e cerdas – e de comprimentos diferentes, sendo que duas escovas afixadas em posições opostas uma para baixo e outra para cima, além de um conjunto de rolos plásticos. Nesse protótipo e na triagem manual, as incidências registradas foram menores, com 23 e 34 lesões detectadas, respectivamente.

Segundo Ferreira, a análise de incidência de lesões ocorreu uma única vez. E a cada dois dias durante o armazenamento, foram feitas análises não destrutivas, que envolvem registro de dados como perda de peso, firmeza, índice de maturidade, luminosidade, coloração e produção de CO2, e as destrutivas, de pH e sólidos solúveis.

O pesquisador constatou que os resultados médios das análises de qualidade obtidos ao longo dos 14 dias de armazenamento não indicaram diferenças significativas entre os tratamentos para todos os atributos, com exceção dos componentes de firmeza e coloração. “Com base nos resultados encontrados, acreditamos que há grande potencial de utilização da unidade móvel pelos pequenos agricultores, com possibilidade de trazer benefícios para toda a cadeia”, diz.

Etapas

Arte: Andressa Brasil, a partir de Marcos Ferreira, 2008.

Beneficiamento do tomate

O tomate de mesa, até alguns anos atrás era beneficiado e classificado totalmente em campo, em bancadas de madeira localizadas no final dos carreadores de plantio, muitas vezes sem proteção contra chuva e sol, e embalado em caixas tipo K, as mais usadas no Brasil, mas inadequadas pelo alto custo da madeira e problemas de ordem sanitária.

Com o aumento da demanda por produtos de qualidade, o tomate passou a ser beneficiado em máquinas automatizadas, de grande precisão, que permitem maior rapidez, mas de elevado custo para pequenos e médios agricultores. Além disso, em muitos países subdesenvolvidos a classificação ainda é feita manualmente.

Dessa forma, melhorar a eficiência da classificação tornando o produto mais competitivo, e reduzindo a utilização de recursos naturais, como a água, é uma das vantagens desse equipamento. “O importante é que o pequeno-médio produtor pode utilizar uma tecnologia simples, de baixo custo e investimento e melhorar a sua competitividade no mercado”, afirma Ferreira.

Sistema de limpeza

Melhorar a eficiência do sistema em relação ao uso da água durante o beneficiamento também tem sido outra preocupação do setor. Embora pesquisas e ações tenham sido realizadas ao longo dos anos, inclusive por parte dos produtores, o consumo ainda é excessivo, mas pode ser reduzido ou até mesmo anulado, dependendo da natureza do produto que deve passar por limpeza.

Estudos realizados entre 2006 e 2009 indicam que algumas unidades de beneficiamento de tomate podem utilizar de 250 a 500 m3 por mês na lavagem de tomates. Para alguns produtos, de maior sujidade como a batata, em alguns casos podem ocorrer gasto de um a dois litros por quilo de produto beneficiado.

A limpeza pode ser realizada de maneiras distintas, mas alguns produtos não aceitam contato com a água após a colheita. De acordo com o pesquisador Marcos David Ferreira, o caqui e certas hortaliças, como a cebola, são alguns dos exemplos. “Nesse caso, a limpeza deve ocorrer por meio de escovação”, afirma.

Mas no Brasil, devido a hábitos do mercado e do consumidor, até mesmo produtos que não necessariamente deveriam ser lavados, para uma conservação melhor, como a batata, são limpos com água, ao contrário de práticas adotadas em outros países, que usam a escovação a seco.

O pesquisador lembra que, para a eficiência do sistema de limpeza, considerando que a maioria dos hortifrútis é lavada, é preciso levar em conta a interação de alguns fatores, como rotação das escovas – e tipo de cerdas -, quantidade-pressão da água, superfície do produto, tempo de exposição e tipo de sujeira.

No entanto, um fator muito importante é a qualidade da água e a contaminação microbiológica. Ferreira esclarece que a água para ser usada na limpeza precisa ser de qualidade adequada, classe 1, de acordo com a classificação da Agência Nacional de Águas (ANA), e disponível em quantidade e custo compatível.

A lavagem pode ser realizada em tanques ou por meio de jatos de água, na forma de spray ou de pequenas gotas de água ou ainda em uma associação de duas alternativas – imersão em tanques e jatos de água. Outra forma é fazer a lavagem utilizando-se canos perfurados. “Estudos de pesquisadores brasileiros demonstram que o uso de bicos de spray proporciona uma economia na quantidade de água aplicada superior a 90% e também aumenta a eficiência do sistema de limpeza”, diz Ferreira.

O pesquisador esclarece que o uso de quantidade elevada de água por quilo de produto não indica maior eficiência no processo de lavagem e limpeza. “Muitas vezes, menores quantidades de água, associadas à escovação, propiciam limpeza eficiente e economia substancial”, explica.


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