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Qualidade na conservação de microrganismos garante padrão do produto final

  • 20/10/2017 |
  • Fernanda Diniz

Em quase 50% das unidades de pesquisa que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mantém em todo o Território Nacional, encontram-se coleções de microrganismos com potencial de aplicação nos mais diversos setores da economia brasileira. Esses acervos genéticos conservam vírus, bactérias, fungos e leveduras de todos os biomas do País de grande interesse para a agricultura, agroindústria, pecuária, alimentação, entre outros segmentos de importância para o agronegócio. Em 2012, a Empresa começou a investir fortemente na implantação de requisitos de qualidade nessas coleções, de forma a adequá-las aos padrões nacionais e internacionais exigidos pelo mercado.

Os requisitos são definidos com base nas normas internacionais (ABNT ISO/IEC 17025, ABNT ISO GUIA 34 e Versão Brasileira do Documento Diretrizes da OCDE de Boas Práticas para Centros de Recursos Biológicos) e envolvem documentação, registros, pessoal, instalações de campo e laboratoriais, condições ambientais, equipamentos e rastreabilidade.

"É um trabalho hercúleo implantar esses requisitos em 21 coleções de microrganismos de 18 unidades de pesquisa da Embrapa”, afirma a pesquisadora especialista em gestão da qualidade na Empresa, Clarissa Castro. Mas, nem a magnitude do projeto foi suficiente para desanimar a ela e a uma equipe de pesquisadores de norte a sul do Brasil, que desde 2012 se lançaram ao desafio de adequar os seus acervos genéticos aos padrões internacionais de qualidade. As ações começaram com o diagnóstico de todas essas coleções e resultaram num modelo corporativo para gestão dessas coleções.

Hoje, cinco anos depois, em uma reunião realizada na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, pesquisadores de 12 dessas Unidades compartilharam as experiências adquiridas ao longo desse período e comemoraram os bons resultados de seus esforços. “É claro que os patamares de alcance dos resultados são diferentes porque algumas das coleções já têm mais de três décadas e outras são bem mais novas, mas no geral os resultados da implantação da qualidade são muito positivos em todas as unidades envolvidas nesse processo”, constata Clarissa.

Além do tempo, existem também diferenças conceituais entre as coleções, que podem ser divididas em três modelos: Centros de Recursos Biológicos (CRBs), Institucionais (CI) e de Trabalho (CT).

Os CRBs têm como função principal preservar e fornecer recursos biológicos (com qualidade assegurada) para P&D e aplicações nos setores científicos, industriais, de agronegócios, ambiente e saúde; desenvolver P&D sobre os recursos biológicos mantidos e conservar a biodiversidade. Mas, para se tornar um CRB, a coleção tem que atender às normas de acreditação do INMETRO e dos demais órgãos.

As coleções institucionais são aquelas que atendem a várias pesquisas e instituições e a requisitos mínimos. Essas coleções atuam como fiéis depositárias e possuem curadores responsáveis, podendo executar atividades práticas de coleta de amostras, isolamento, identificação, caracterização, prospecção, armazenamento e documentação.

As coleções de trabalho são aquelas que atendem a um ou a mais projetos de pesquisa e a requisitos mínimos. Geralmente, estão vinculadas a projetos específicos e a uma ou mais coleções institucionais ou CRBs e possuem pesquisadores responsáveis, podendo executar atividades práticas de coleta de amostras,isolamento, identificação, caracterização, prospecção, armazenamento e documentação.

CRBs: microrganismos de qualidade à disposição da sociedade

Para o analista da Embrapa Soja (Londrina-PR), Moisés de Aquino, a importância da implantação de CRBs não se restringe à garantia da qualidade dos isolados disponibilizados. “Mais do que assegurar a confiabilidade das informações sobre os microrganismos, a instituição do CRB Embrapa possibilitará o rápido acesso a esses recursos genéticos a partir de coleções instaladas em diferentes Unidades. Isso é muito importante para pesquisadores e profissionais que irão utilizá-los no desenvolvimento de novos produtos e tecnologias”, afirma.

Responsável pela gestão da qualidade no Centro de Recursos Biológicos (CRB) da Embrapa Soja, cuja curadora é a pesquisadora Mariângela Hungria, ele afirma que um dos piores problemas enfrentados pelos responsáveis por coleções microbianas, antes da implantação dos requisitos de qualidade, era a perda de microrganismos. “Além do valor econômico associado a esses recursos genéticos, sua perda impacta diretamente na diminuição da diversidade genética conhecida. Os requisitos da qualidade preveem o armazenamento de cada estirpe por dois métodos diferentes, além da manutenção de backups das coleções o que garante redução significativadessas perdas”, enfatiza.

O CRB da Embrapa Soja contém 3.409 linhagens de bactérias fixadoras de nitrogênio do solo de interesse para o agronegócio da soja. A fixação de nitrogênio é a segunda função mais importante da planta, perdendo apenas para a fotossíntese. Se considerarmos que o complexo agroindustrial da soja é o principal exportador de produtos agropecuários no Brasil e que as exportações originadas pela cadeia produtiva desta commodityalcançam cerca de US$ 31 bilhões, é possível imaginar o valor do material genético conservado pela Embrapa.

A coleção teve início com 30 estirpes trazidas da Embrapa Agrobiologia pela pesquisadora Mariângela Hungria na década de 1980 e, com o passar dos anos, foi incrementada com estirpes trazidas do EUA, mas principalmente, com linhagens coletadas anualmente em experimentos conduzidos pela Embrapa Soja.

Atualmente, 2800 acessos já estão armazenadosde acordo com as normas internacionais e 1400 já foram incluídas na base de dados da Embrapa, AleloMicro, onde são gerenciados os acessos de todas as coleções de CRB.Quando solicitados os materiais são enviados para institutos de pesquisa e universidades para execução de estudos e pesquisas.  

Coleções de trabalho e institucionais: material de qualidade para a ciência     

 As pesquisadoras da Embrapa Gado de Leite (Juiz de Fora, MG), Maria Aparecida Brito, e da Embrapa Caprinos e Ovinos (Sobral, CE), Patrícia Yoshida, compartilham do otimismo de Moisés em relação à implantação da qualidade nas coleções microbianas pelas quais são responsáveis. Segundo elas, muitos avanços foram obtidos ao longo desses últimos cinco anos em prol da melhoria da forma de manutenção do material genético e também da uniformização das informações associadas.

Maria Aparecida ressalta o avanço nas cinco coleções institucionais mantidas pela Embrapa – uma de Microrganismos de Interesse da Agroindústria e Pecuária na Embrapa Gado de Leite; duas de Microrganismos Multifuncionais e Fitopatogênicos, sendo uma na Embrapa Milho e Sorgo (Sete Lagoas, MG) e outra na Embrapa Arroz e Feijão (Santo Antônio de Goiás, GO);  uma de Microrganismos de Interesse Agroindustrial na Embrapa Uva e Vinho (Bento Gonçalves, RS) e uma de Microrganismos de Interesse da Suinocultura e Avicultura na Embrapa Suínos e Aves (Concórdia, SC).

Patrícia Yoshida, responsável pela coleção de trabalho da Embrapa Caprinos e Ovinos, também está muito otimista em relação à implantação dos requisitos de qualidade na coleção de Microrganismos Patogênicos a Caprinos e Ovinos, que hoje conta com cerca de 60 acessos de vírus e bactérias causadores de doenças nestes animais.

Antes da implantação da qualidade na Unidade de Sobral, muitos microrganismos eram perdidos em função das altas temperaturas da região nordeste do País que danificavam os equipamentos. “Hoje, contamos com uma sala climatizada a cerca de 25ºC, que é suficiente para garantir o bom funcionamento dos freezers a -20ºC e -80ºC, nos quais são armazenadas a coleção”, afirma. Além disso, ela lembra que a rede de energia está mais estabilizada e temos um gerador que alimenta a sala em caso de quedas de energia, que anteriormente também prejudicavam o processo de conservação.

Os microrganismos patogênicos são de grande importância para o desenvolvimento de pesquisas em controle, prevenção e diagnósticos de doenças relacionadas aos caprinos e ovinos no Brasil. Atualmente, Patrícia está trabalhando no mapeamento de genes de microrganismos isolados de mastite ovina e no desenvolvimento de métodos de tratamento da Linfadenite caseosa, causada por uma bactéria, a enfermidade bacteriana mais comum entre esses animais. Ela causa abscessos principalmente nos linfonodos externos, que com o rompimento espontâneo, disseminam a doença no rebanho e prejudicam a qualidade dos caprinos e ovinos para o mercado. Se não for tratada corretamente em alguns animais cronicamente infectados pode até levar a óbito.

“O tratamento disponível atualmente é a drenagem do abscesso e cauterização química com tintura de iodo, o que tem um custo alto para o produtor, não impede completamente a disseminação da doença nos animais e exige gastos com mão-de-obra. O objetivo é disponibilizar opções de tratamento precoce nos estágios iniciais do abscesso, que cessem o seu progresso. Estamos fazendo estudos iniciais in vitro do uso de antibiótico nanoparticulado no combate a essa bactéria, em parceria com o pesquisador Humberto de Mello Brandão da Embrapa Gado de Leite, ”, complementa.

O objetivo dos pesquisadores da Embrapa é concluir a implantação em todas as coleções da Embrapa até o final de 2018.

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