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ARTIGOS TÉCNICOS

Uréia - ferramenta ou arma?

Com o início do período seco, a suplementação de animais a pasto e o confinamento para terminação são estratégias fundamentais, para melhorar a eficiência dos sistemas de produção. Entretanto, essas estratégias caracterizam-se por altos custos em função dos insumos utilizados na alimentação dos animais, principalmente, no que se refere às fontes protéicas. Em ambos os casos, a uréia é uma importante fonte alimentar em equivalência protéica. Da mesma forma que a uréia pode ser utilizada como uma poderosa ferramenta em dietas de bovinos, a mesma pode ser tornar uma arma. Geralmente isto ocorre em dietas formuladas de forma errônea, acarretando em problemas de intoxicação, que inclusive pode levar os animais à morte.

A uréia é amplamente utilizada na formulação de dietas para bovinos de corte e leite com dois objetivos primordiais, o primeiro é a redução de custos pela substituição parcial de fontes protéicas vegetais, o segundo é o fornecimento de quantidades adequadas de proteína degradável no rúmen, para melhor eficiência de digestão da fibra e síntese de proteína microbiana.

O teor médio de nitrogênio na uréia varia de 42 a 46,7%, o equivalente de 262 a 292% de PB por 100 g de uréia. Este último valor é estimado em função do teor médio de N na proteína verdadeira, que é de 16% de N. Em média, usamos o fator de 280% de PB, que é a % de N (média) na uréia dividida pela % de N na PB (16%), ex: 45/16 x 100= 281,2. Para determinar o teor de uréia em um produto comercial, utiliza-se o valor de equivalente protéico de NNP (nitrogênio não protéico) por 280, ex.: o rótulo de um produto com 40% de PB diz que o equivalente protéico em nitrogênio não protéico (NNP) é de 20%, então o percentual de uréia na mistura é de 7,0% (20/280*100).

Esta conversão do N da uréia em equivalente protéico é feita devido à capacidade dos ruminantes de transformá-lo em proteína de altíssima qualidade. A transformação da uréia em proteína se dá através da ação de microorganismos ruminais. Ao entrar no ambiente ruminal, a uréia e as fontes de proteína vegetal são quebradas em amônia, através da ação de enzimas produzidas pelos microorganismos. Estes microorganismos crescem e se multiplicam e, para tal, utilizam a amônia e carboidratos da dieta (energia) para síntese de proteína microbiana. Estes microoganismos, ou melhor, esta proteína microbiana passa para os intestinos onde vai ser absorvida e utilizada pelos animais. A uréia apresenta elevada solubilização/hidrólise, ou seja, ela é rapidamente degradada e transformada em amônia no ambiente ruminal, esta solubilização é de 100%, e ocorre entre 1 e 4 horas após ingerida.

Devido à alta solubilização da uréia, um dos problemas relacionados a ela é uma rápida liberação de amônia no rúmen, havendo perdas de N, pois não há um sincronismo entre a fermentação dos carboidratos. Assim o nitrogênio em excesso no rúmen vai ser absorvido e levado ao fígado, para metabolização, e parcialmente reciclado via saliva para o rúmen do animal, podendo ser então utilizado pelos microorganismos. Entretanto, este processo tem gasto de energia, diminuindo a disponibilidade de energia para o animal. Por ser um processo lento, a amônia pode se acumular no sangue, causando a intoxicação e muitas vezes a morte do animal.

Quadros de intoxicação por uréia são freqüentemente observados em situações em que, por algum motivo, o animal consome quantidades elevadas de uréia, sem prévia adaptação. Isso ocorre principalmente quando são disponibilizados apenas sal e uréia para os animais. Outro fator que podemos considerar como causa de intoxicação são os erros na formulação de rações ou suplementos, ou seja, não é garantida uma quantidade mínima de carboidratos, para que as bactérias usem a amônia liberada no meio ruminal de modo mais eficiente. De forma geral, o maior perigo do uso de uréia na alimentação dos bovinos está na forma de utilizá-la, quer seja por erros de manejo, ou por pouco conhecimento em nutrição.

Recentemente, Kenny et al (2001) relatam que, ao fornecer fonte de energia, no caso melaço, este foi eficaz em reduzir as concentrações de uréia sangüínea (Figura 1 - veja no final do texto como visualizar o artigo em PDF). Esta redução, com o fornecimento de energia, dá-se pela maior eficiência do uso da amônia liberada no rúmen pela uréia e pelos microorganismos na presença de energia.

Devemos lembrar que a forragem demora cerca de 4 a 6 h para iniciar sua degradação, enquanto que a uréia, com 4 h de incubação ruminal, praticamente desaparece. Desta forma, podem ocorrer perdas de N, se não forem associadas fontes de energia prontamente solúveis, como o milho moído ou raspa de mandioca.

Produtos à base de uréia e processados com amido fazem com que a uréia fique envolta, por uma espécie de “capa” de amido, caso em que são chamados de amiréia. Este tipo de produto garante a energia prontamente disponível para o N liberado pela degradação da uréia, configurando assim uma espécie de proteção, para evitar que consumos excessivos venham causar intoxicação. Por outro lado, a formulação de suplementos com a mesma quantidade de energia e proteína sai dos que utilizam amiréia não mostra qualquer benefício.

O equivalente de proteína degradável da uréia não deve ultrapassar 70% da PDR total da dieta, em geral usa-se em torno de 30%. Na Tabela 1, a substituição da PDR por uréia não afetou o consumo de forragem, porém valores acima de 50 % diminuíram a digestibilidade da matéria orgânica, resultando em menor consumo de matéria orgânica digestível. Isto torna a uréia uma ferramenta bastante valiosa para substituir parcialmente a proteína verdadeira no rúmen, porém as condições devem ser favoráveis para que os microorganismos possam usar de maneira efetiva. Ou seja, ao usar uréia deve-se garantir a energia, para melhor eficiência microbiana em usar o N.

O uso de uréia como única fonte de proteína para suplementos é menos indicado, em função de alguns microorganismos do rúmen necessitarem de peptídeos e de alguns aminoácidos para maximização da sua atividade, sendo aconselhável o uso de fontes de proteína verdadeira no suplemento.

O uso de suplementos nos quais o equivalente protéico em uréia é superior a 30% da PB total tem demonstrado desempenho 25 a 80% inferior ao desempenho esperado de alimentos formulados com proteína natural. Isto tem duas possíveis causas: a baixa energia na forragem, que diminui a eficiência de uso da uréia, tornando necessária a inclusão de fontes energéticas prontamente disponíveis na dieta, e baixa palatabilidade da uréia, diminuindo o consumo do suplemento em relação aos que não contém uréia.

Recentemente, Farmer et al (2004) mostraram um aumento na perda de peso de vacas em pastagens de má qualidade, consumindo níveis crescentes de uréia em substituição à proteína degradável no rúmen de suplementos com teores de PB maior que 40% (Tabela 2). Os autores mencionam que houve recusa do suplemento por alguns animais sob tratamento com 45% de substituição.

Quando o NNP substitui a proteína verdadeira no suplemento, deve-se garantir fonte de enxofre (S), para melhor síntese da proteína pelos microorganismos, principalmente de aminoácidos sulforados. A relação N:S mais adequada é entre 12:1 a 14:1. O sulfato de amônio (21% N e 22 % S) pode entrar como fonte de S na relação de 85% de uréia e 15% de sulfato de amônia. O uso de sal mineral misturado ao suplemento, em geral, já disponibiliza quantidades de enxofre adequadas.

O principal cuidado quanto ao uso da uréia deve ser a adaptação dos animais de forma gradativa, principalmente quando não se fornece fonte de energia conjunta (ex: sal + uréia). Em suplementos múltiplos, com adequado fornecimento de energia, temos usado até 5% de uréia na mistura.

Fase de testes

Atualmente, no Brasil, está em fase de teste o Optigen 1200, que é a uréia envolta por um polímero, com equivalente protéico de 279%. Os resultados preliminares mostram que a taxa de desaparecimento deste produto é lenta, assemelhando-se muito ao farelo de soja (Figura 2). Ou seja, o Optigen permite uma maior sincronização entre a degradação da fibra e a liberação de N, potencializando a eficiência de síntese de proteína microbiana. Desta maneira, o produto poderá ser incluído em níveis mais elevados que a uréia tradicional, pois não promove um “pico” de liberação de amônia.

Em trabalho realizado na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo, com bubalinos recebendo dietas à base de cana de açúcar (80% da MS) e concentrado (20% da MS), avaliou-se o efeito de substituição de 80% da uréia de um suplemento por Optigen, associado ou não à levedura viva (Beef Sacc). Os resultados (Tabela 3) demonstram que com o Optigen houve aumendo na digestibilidade da dieta, e, conseqüentemente, um aumento nos nutrientes digestíveis totais (NDT) em torno de 10 unidades percentuais. Vale ressaltar a maior degradabilidade do FDN para os tratamentos com Optigen, mas principalmente das dietas com Beef-Sacc.

A uréia pode e deve ser usada para reduzir custos na alimentação, porém todos os cuidados e técnicas (Quadro 1) de uso devem ser observados rigorosamente sob pena de severas perdas. Novas tecnologias como o Optigen estão sendo estudadas, para reduzir os riscos da uréia e melhorar o aproveitamento do N, com maior eficiência da digestão e conseqüentemente no desempenho animal.

Dicas para uso de uréia em dietas de bovinos:

1. Limitar em 1 a 1,5 % na MS de uréia na dieta total doa animais (ruminantes).

2. Limitar em até 5% de uréia no concentrado quando este for oferecido separadamente do volumoso.

3. Limitar em 30-50 % de nitrogênio da uréia em relação ao N total da dieta.

4. Fornecer juntamente com a uréia fontes de carboidratos de diferentes degradabilidades para melhor sincronização com a hidrólise da uréia, otimizando a síntese de proteína microbiana.

5. No caso de suplementos a pasto, fornecer sempre no período da tarde, pois o pico de liberação da amônia vai ocorrer junto com a degradação da fibra da forragem (carboidrato)

6. Mistura uniformemente a uréia com a ração.

7. Fornecer o suplemento em cochos cobertos.

Marcelo Manella
Alltech do Brasil

* Este artigo foi publicado na edição número 18 da revista Cultivar Bovinos, de maio de 2005.

* Confira este artigo, com fotos e tabelas, em formato PDF. Basta clicar no link abaixo:

/arquivos/bovinos18_ureia.pdf


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