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ARTIGOS TÉCNICOS

Café - Excluindo os nematóides

Desde antes do primeiro relato sobre a ação dos nematóides de galha (Meloidogyne spp.) em cafeeiro, no final do século passado, nenhuma outra praga ou doença foi tão devastadora para a cafeicultura no Brasil como esses nematóides. De fato, os nematóides de galha devastaram a cafeicultura da então Província do Rio de Janeiro, maior produtora na época. No Volume 8 dos Archivos do Museu Nacional, publicado em 1892, encontra-se o famoso “Relatorio sobre a Molestia do Cafeeiro na Provincia do Rio de Janeiro”. Foi concluído pelo Dr. Emílio Augusto Goeldi, um naturalista suíço que trabalhava no Museu Nacional no Rio, nos “primeiros dias de Novembro de 1887”, embora só tenha sido publicado em novembro de 1892.

Prefaciando o Volume 8 do citado periódico, contendo a diagnose da doença na cafeicultura da então Província do Rio de Janeiro, o Dr. Neves Armond, Diretor Geral Interino do Museu, entre outras palavras, escreveu: “Acha-se incluído no presente volume o relatório em que o Sr. Dr. Emilio Göldi descreve a moléstia que tem assolado os cafesaes no Estado do Rio de Janeiro, causando-lhes graves estragos e pondo em sério perigo o futuro da mais importante fonte da riqueza nacional. Assignala-lhe o distincto zoologo como causa um verme nematoide da familia dos anguillulideos, para o qual propõe o nome scientifico Meloidogyne exigua”.

Discorrendo sobre o histórico e expansão da doença na então Província do Rio de Janeiro, Goeldi escreveu: “Ha vinte annos, mais ou menos, existe a molestia do cafeeiro, cujo resumo historico vamos dar, ao norte da Provincia do Rio de Janeiro. Baseado nas melhores informações sobre o apparecimento da molestia do cafeeiro, soubemos que foi observado em primeiro logar nas proximidades da cidade de S. Fidelis, a 12 ou 15 kilometros para sudoeste da Serra denominada do Collegio até a margem do rio Parahyba, na fazenda da “Pureza”, na qual a mortandade foi tão grande, de 1869 a 1870, que os seus proprietarios tiveram de abandonar a cultura do café, substituindo-a pela da canna.”

Na época, o autor estimou que a área total infestada já havia alcançado cerca de 300 mil ha. De acordo com suas estimativas, a Província do Rio de Janeiro tinha uma área total de 69.000 km2 e a doença se expandia à razão de 150 km2 por ano. Com base nesses números, Goeldi assim se expressou em seu relatório sobre o futuro da cafeicultura do Estado do Rio de Janeiro, face à expansão da doença: “Somos levados a crer que a molestia conquistaria a superficie total da Provincia do Rio de Janeiro em um espaço de tempo muito menor do que aquelle que se obteria theoricamente dividindo 69.000 por 150. Si esta época, hypotheticamente, só chegará depois de 8 ou 9 gerações humanas - quem sabe si ella não se apresentará depois de uma ou duas gerações? Declaro com franqueza que seria grande illusão enxergar um futuro côr de rosa na cultura do café, na Provincia do Rio. Desejaria de coração que nem uma nem outra das duas fórmas da minha prophecia chegasse a realizar-se - mas, caveant consules! “ [A expressão latina “caveant consules” significa: “Cuidem-se os governantes]. É oportuno salientar que, ante a iminência da destruição da cafeicultura da então Província do Rio de Janeiro, pelo nematóide, Goeldi já advertia, em novembro de 1887: “Cuidem-se os governantes!”.

Café por cana

Tendo–se confirmado o prognóstico de Goeldi, contido em seu relatório publicado em 1892, os nematóides forçaram a substituição da cafeicultura do Rio de Janeiro pela cultura da cana-de-açúcar, a partir do final do século passado. No início deste século, o Estado de São Paulo passou a ser o principal beneficiário dos novos investimentos na cafeicultura. O Estado do Paraná o foi a partir de 1950. Na década de 1965 a 1975, o Estado do Paraná produziu uma média anual de 9,3 milhões de sacas contra 7,1 milhões produzidas por São Paulo e apenas 2,4 milhões produzidas por Minas Gerais.

No final da década de 70 e início dos anos 80, os danos que os nematóides vinham causando à cafeicultura paranaense foram denunciados em várias publicações. Jaehn & Lambert, 1983 (Resultados de Pesquisas Cafeeiras 1971-82. Rio de Janeiro, IBC/GERCA, 1983. p.287) também se referiram às pesadas perdas que os nematóides vinham causando à cafeicultura paranaense e apontaram Meloidogyne exigua, M. incognita e M. coffeicola como as espécies de maior importância econômica.

Essas perdas constantes causadas pelos nematóides e as freqüentes geadas, somadas a períodos de preços do café não muito atrativos, certamente foram decisivos para desestimular a cafeicultura paranaense. O principal pólo de produção de café passou, então, para o Estado de São Paulo onde os nematóides também já vinham causando prejuízos. Das 60 mil propriedades de café existentes no início da década de 80, cerca de 25 mil já estavam infestadas pelos nematóides de galha (Meloidogyne spp.), representando 43,35 % dessas propriedades, conforme dados da literatura. No Oeste do Estado, cujo parque cafeeiro, em 1978, contava com 430 milhões de covas, os danos causados por espécies de Meloidogyne foram devastadores.

Como conseqüência, a partir da metade da década de 1980, a cafeicultura em Minas Gerais começou sua arrancada rumo à liderança na produção brasileira. Provavelmente, os mineiros não perderão essa posição tão cedo para nenhuma outra unidade da Federação. Primeiro, porque, além de M. exigua, não há outras espécies de Meloidogyne mais nocivas ao cafeeiro disseminadas no Estado; segundo, pelas possibilidades de expansão da cafeicultura no cerrado e, em terceiro lugar, porque ainda há, em seus domínios, expressivas áreas de fronteiras agrícolas aptas para a cafeicultura.

Praga importante

Em que pesem os registros históricos dando conta dos vultosos prejuízos causados por M. exigua à cafeicultura do Rio de Janeiro, com o passar do tempo, difundiu-se uma crença generalizada entre os produtores brasileiros de que esse nematóide não tinha importância econômica relevante para a cafeicultura.

De fato, os cafeicultores da Zona da Mata, do Alto Paranaíba e do Sul do Estado de Minas Gerais e da região geo-econômica de Vitória da Conquista, no Sudoeste da Bahia, vêm convivendo com esse nematóide há mais de 25 anos, usualmente, sem adotarem nenhuma medida de controle. Mesmo assim, nunca constataram mortalidade de plantas semelhante ao que foi relatado por Goeldi na então Província do Rio de Janeiro. Pelo menos em parte, isso, provavelmente, se deve ao fato de que os genótipos de cafeeiro plantados, hoje, foram selecionados e testados em áreas de ocorrência do nematóide.

Naturalmente, um certo grau de resistência ou tolerância vem sendo incorporado às diferentes seleções feitas, quer pelos pesquisadores quer pelos produtores. Aliás, tratando deste particular, Goeldi, em seu relatório publicado em 1892, já havia notado diferença de comportamento entre variedades de café. Sobre isso ele escreveu: ”Tem-se observado que a variedade do café influe algum tanto sobre a mortandade, sendo menos atacado o café Java, mais o Bourbon e ainda mais o Maragogipe. Desta ultima variedade pude notar que morrem 10% no terceiro anno e 50% no quarto anno”.

Dados recentes

Mais recentemente, novas tecnologias introduzidas no cultivo do cafeeiro, notadamente a aplicação de defensivos granulados no solo para o controle de pragas e doenças de parte aérea, tais como o bicho mineiro (Perileucoptera coffeella Guérin) e a ferrugem (Hemileia vastatrix Berk. & Br.), respectivamente, contribuíram para salientar a importância econômica do parasito. Com efeito, os próprios fabricantes dos produtos vêm deixando de recomendar essa prática, em áreas infestadas com M. exigua, pelo pronto reconhecimento da baixa eficiência do controle, em função da interferência do nematóide na absorção e transporte dos produtos pelas raízes atacadas. A interferência do nematóide na absorção e transporte de nutrientes em cafeeiro já é fato conhecido e bem documentado (Santos & Ferraz, 19XX).

Do total de 82 espécies válidas de Meloidogyne, 14 infectam o cafeeiro em todo o mundo e, dessas, sete já foram citadas associadas ao cafeeiro (Coffea spp.) no Brasil, a saber: M. arenaria, M. coffeicola, M. exigua, M. hapla, M. incognita, M. javanica e M. paranaensis. Além dessas, em 1997 esse autor, em cooperação com o Dr. Anario Jaehn da FCA de Botucatu (falecido) e com o Dr. Wallace Gonçalves do IAC – Campinas, descreveram uma nova espécie coletada em Dracena, SP e a nomearam M. goeldii (Santos, 1997). Embora não se trate de uma espécie com agressividade comparável a M. incognita, M. paranaensis ou M. coffeicola, no Município de Álvaro de Carvalho, SP, recentemente, foi encontrado um cafezal com reboleiras exibindo plantas mortas por esta espécie.

Embora os nematóides de galha que atacam o cafeeiro já tenham sido detectados em diferentes Unidades da Federação, a sua ação devastadora se deu apenas nos Estados do Rio de Janeiro, Paraná e São Paulo. Em Minas Gerais, M. incognita e M. coffeicola foram detectados em Uberaba e Machado, respectivamente, há alguns anos. Contudo, os danos ficaram restritos aos locais de ocorrência. Em parte, isso se deve ao fato de que muitos dos cafeicultores das fronteiras agrícolas mais recentes de Minas, vieram de áreas dos Estados do Paraná e de São Paulo onde os nematóides causaram danos devastadores.

Muitos deles já têm certa experiência; já sabem e põem em prática certas estratégias de exclusão, notadamente evitando mudas suspeitas. No Estado de São Paulo, a sobrevivência da cafeicultura em regiões como o Noroeste do Estado, a Alta Paulista, Sorocabana e outras se deve, em grande parte, ao trabalho das Cooperativas. Estas têm feito chegar aos produtores as tecnologias que têm sido geradas pelos órgãos de pesquisa, notadamente o IAC, visando possibilitar a convivência com os nematóides.

A enxertia, por exemplo, uma das mais bem sucedidas alternativas de convivência, aprimorada pelo IAC-Campinas, tem chegado aos produtores pelo trabalho das Cooperativas e seus Profissionais. No Estado do Paraná, o trabalho das Cooperativas e do IAPAR e até ações da iniciativa privada, têm possibilitado a renovação de lavouras em áreas infestadas.

Jaime Maia dos Santos
UNESP / FCAV

* Este artigo foi publicado na edição número 14 da revista Cultivar Grandes Culturas, de março de 2000.


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