A doença vem da cigarra

Há no mundo mais de 32 doenças descritas causadas por vírus e Mollicutes em milho. Esses patógenos são transmitidos das plantas doentes para as plantas sadias por cigarrinhas, pulgões e besouros. Nos Estados Unidos, já foram registradas mais de 30 espécies de cigarrinhas alimentando-se em milho. A densidade, bem como a proporção das espécies, depende do local, do ano e da estação do ano.

Entretanto, as principais espécies citadas em milho pertencem aos gêneros: Dalbulus, Graminella, Euscelidus, Stirellus, Exitianus, Baldulus e Peregrinus. São citadas também 22 espécies de pulgões, destacando-se o pulgão-do-milho, Rhopalosiphum maidis (Fitch) e o pulgão-verde, Schizaphis graminum (Rondani) que são os vetores mais eficientes do vírus do mosaico comum.

Entre os besouros, os vetores mais importantes pertencem aos gêneros Diabrotica e Choetocnema, e surgem de um vírus - ainda não confirmado no Brasil - denominado MCMV (maize chlorotic mottle vírus). Ainda nos EUA, existem também algumas espécies de ácaros, como Aceria tosichella Keifer, que ganham citação de "vetor" do vírus HPV (high plains virus) e WSMV (wheat streak virus). No Brasil, a ocorrência dos ácaros (Catarhinus tricholaenae and Oligonychus zeae) foi registrada no milho, mas não há registro dos patógenos por eles transmitidos.

As cigarrinhas Dalbulus maidis e Peregrinus maidis estão distribuídas desde o sul dos EUA até a Argentina. A espécie D. maidis é descrita como vetor de dois mollicutes, enfezamento pálido (CSS - corn stunt spiroplsma), do enfezamento vermelho (MBS -maize bushy stunt phytoplasma) e do vírus da risca (MRFV - maize "rayado fino" virus). P. maidis e vetor do vírus (MStpV - maize stripe virus) cujo patógeno ainda não foi descrito no Brasil.

Embora D. maidis tenha sido registrada pela primeira vez no Brasil em 1938, por Mendes, os patógenos causadores dos enfezamentos e da virose da risca foram descritos pela primeira vez em 1971 por Costa, Kitajima e Arruda (em São Paulo). Em Minas Gerais, a cigarrinhas D. maidis e P. maidis foram documentadas pela primeira vez em março de 1985. Elas alimentavam-se em milho na estação experimental da Embrapa Milho e Sorgo, mas é possível que essas espécies já estivessem presentes naquele Estado há muito tempo. Para verificar a incidência dos insetos nas plantas de milho basta observar o interior do cartucho das plantas - seu local preferido de alimentação e abrigo. Para levantar sua ocorrência em lavouras podem ser usados a rede entomológica, amostragem de plantas com saco plástico ou mesmo o aspirador motorizado. Dados de campo revelaram que a espécie D. maidis constituía 93% das cigarrinhas encontradas em milho, 40% em sorgo e 34% em áreas em pousio.

Levantamentos semanais da incidência de insetos no cartucho do milho durante 8 anos, revelaram que em média a população da cigarrinha do milho gira em torno de um adulto por planta. Porém, nos meses de março e abril - quando ocorre o pico populacional - a densidade de D. maidis pode chegar a 10 adultos por planta.

Biologia da cigarrinha

Os adultos da cigarrinha podem atingir mais que 4 mm de comprimento e 0.85 mm de largura. A coloração dos adultos é palha, podendo variar de escura a clara, dependendo da idade e de fatores ambientais. Na cabeça apresentam duas manchas escuras e, no último par de pernas, duas filas de espinhos bem visíveis.

As fêmeas inserem seus ovos principalmente na base da nervura central das folhas das plântulas de milho na proporção de 14 ovos por fêmea, por dia. Dependendo da temperatura, depois de 9 a 20 dias de incubação, eclodem as ninfas, que passam por 5 mudas até atingirem a fase adulta em 14 dias. As ninfas se alimentam na face inferior das folhas e se movimentam pouco, deixando pequenas exúvias brancas (exoesqueleto) presas na folha após cada muda. Os adultos sobrevivem em média 52 dias, mas alguns podem ultrapassar 4 meses. A temperatura ideal para o desenvolvimento dessa espécie é 26,5oC, entretanto, abaixo de 20oC não há eclosão de ninfas.

Danos da cigarrinha-do-milho

Em geral, os insetos vetores de patógenos causam dois tipos de danos: um decorre da ação do patógeno por ele transmitido, que provoca perdas nas plantas infectadas; o outro deve-se à ação direta da alimentação do inseto, seja através do consumo do tecido foliar ou sugando a seiva da planta infestada.

Como foi mencionado anteriormente, a cigarrinha é considerada a principal espécie vetora de patógeno em milho. Entre as doenças causadas por esses patógenos, destacam-se o enfezamento vermelho, enfezamento pálido e a virose da risca. As perdas que causam variam de 9 a 90%, dependendo da susceptibilidade das cultivares utilizadas, do patógeno envolvido e das condições ambientais. No Brasil, já foram registradas perdas de 28,6% na produção de milho devido à virose da risca.

Embora exista muita variação entre as cultivares de milho hoje disponíveis no mercado, em lavouras implantadas tardiamente há registro de até 60% de plantas infectadas. As plantas de milho são severamente danificadas quando infectadas pelos patógenos causadores dos enfezamentos, cujas perdas na produção podem chegar a 50% devido ao enfezamento vermelho e a 100% devido ao enfezamento pálido.

Os danos diretos causados pela cigarrinha-do-milho às plantas decorrem da sucção de seiva. Dependendo do estádio nutricional da planta e da densidade de infestação, pode ocorrer murcha e morte das plantas recém-germinadas. Experimentalmente foi observado que a densidade de 10 adultos por planta pode reduzir o peso seco do sistema radicular em 62% e da parte aérea de plantas novas em cerca de 40%

Efeitos nas cultivares

Uma coleção de 42 híbridos comerciais de milho foi avaliada para a incidência de adultos e ovos da cigarrinha. Os resultados revelaram diferenças significativas entre os híbridos. O menor número de adultos da cigarrinha por planta foi nos PX 1373-A, Z 8501, AG 122, G 150-C and Z 8568. Já o menor número de ovos por planta ocorreu nos híbridos PX 1273-A, CO 822992, AL-Manduri, C 615, P 3041 and AG.

De todos os 43 híbridos avaliados, os mais infestados apresentaram 10,0 ovos/planta e os menos infestados 2,5 ovos/planta em média. Foi observado ainda que nem sempre o híbrido com maior densidade de adultos apresentava maior densidade de ovos, mostrando que nem sempre o melhor híbrido para a cigarrinha se alimentar é o melhor para oviposição.

Foi observado que o sorgo é cerca de 10 vezes menos ovipositado - ou visitado pela cigarrinha - do que o milho. Por outro lado, também o sorgo não é sensível aos patógenos transmitidos pela cigarrinha. Em condições de campo pode-se coletar essa cigarrinha em sorgo, mas em laboratório, 100% dos insetos utilizados na infestação experimental do sorgo morreram.

Controle da cigarrinha

Há várias estratégias para o controle das doenças causadas por vírus e mollicutes no milho. Cultivares resistentes têm sido a principal estratégia para o controle de doenças em plantas. No entanto, a imunidade do milho aos patógenos causadores do enfezamento vermelho (fitoplasma) e do enfezamento pálido (espiroplasma) ainda não foi registrada. Há diferenças significativas entre os híbridos comerciais disponíveis no mercado, no que tange à susceptibilidade aos patógenos transmitidos pela cigarrinha.

A eficiência de transmissão do espiroplasma pela cigarrinha infectiva varia de 5% após 3 dias de alimentação a 72% após 14 dias. Doze dias após a alimentação em plantas doentes, 100% da população de cigarrinha tornam-se infectivos. O período de incubação do espiroplasma em D. maidis varia de 16 a 30 dias, dependendo da temperatura. Os sintomas das plantas infectadas aparecem depois de 4 a 7 semanas. Há registro da redução da incidência do "enfezamento do milho" em plantas tratadas com antibiótico, especialmente as tetraciclinas.

A alternativa à resistência genética para o controle das doenças, cujos patógenos são transmitidos por vetores, geralmente é baseada no manejo do vetor. Neste caso, os métodos culturais - biológicos ou químicos - são os mais comumente usados. No caso da cigarrinha-do-milho, pode-se destacar como medidas culturais a eliminação das plantas voluntárias provenientes de sementes perdidas durante a colheita anterior, realização do plantio o mais cedo e num menor intervalo de tempo possível, evitando-se os plantios sucessivos e contínuos como acontece nas regiões onde é possível cultivar mais de uma safra por ano agrícola.

A opção do controle químico deve ser adotada somente em último caso. Através de pulverização, os adultos da cigarrinha são controlados por vários inseticidas, como os à base de oxydemeton methyl e acephate. Entretanto, se existirem focos de infestação próximos, novas populações estarão imigrando para o campo diariamente, e esses produtos não apresentam bom efeito residual, tornando necessário monitoramento freqüente do campo e repetidas pulverizações.

Melhores resultados são obtidos com o tratamento do solo. Nos Estados Unidos, há registro de redução de 70% na incidência dos enfezamentos em áreas tratadas com o carbofuran, resultando em incremento de 300% na produtividade. No Brasil, resultados experimentais revelaram ótimo controle da cigarrinha com os princípios ativo aldicarb - utilizado no tratamento do solo -, e do imidacloprid, usado no tratamento de sementes, com redução de 100% na incidência da virose da risca. Outros princípios ativos como o carbofuran e thiodicarb, foram eficientes. Mas apresentaram um menor efeito residual.

José Magid Waquil
Embrapa Milho e Sorgo

* Este artigo foi publicado na edição número 14 da revista Cultivar Grandes Culturas, de março de 2000. ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura