Água e químicos

A aplicação de produtos químicos na lavoura, por intermédio da água de irrigação, denomina-se quimigação. Trata-se de uma técnica em grande expansão no país e ambientalmente segura para diversos tipos de produtos, como: herbicidas, fungicidas, inseticidas e fertilizantes. É compatível com vários sistemas de irrigação, sendo os proprietários dos sistemas de irrigação localizada e pivô central os que fazem uso mais freqüente desta prática. Feita de maneira correta, a quimigação representa, na atualidade, importante tecnologia na agricultura irrigada.

Ambientalmente segura?

As lavouras estão sujeitas à ação de pragas, doenças e plantas daninhas, cujo controle envolve operações de grande significado socioeconômico, por reduzir as perdas e garantir o retorno do investimento realizado pelo produtor. Um dos métodos utilizados no controle desses agentes de perda tem sido a aplicação de defensivos agrícolas, que, no curto prazo, apresenta bons resultados, desde que feita adequadamente. É importante que esse método seja empregado dentro do contexto mais amplo do manejo integrado.

Dentre as diferentes técnicas de aplicação de defensivos disponíveis, as que se baseiam na pulverização convencional (costal e tratorizada) são as mais difundidas, graças à flexibilidade que oferecem em distintas aplicações. Atualmente, entretanto, uma nova técnica de aplicação fitossanitária, a quimigação, vem se desenvolvendo bastante. A aplicação de produtos químicos na lavoura por intermédio da água de irrigação, também conhecida como quimigação, está se intensificando por parte dos produtores que dispõem de equipamentos de irrigação, pois é técnica eficiente com muitos produtos e economicamente viável.

Produtores rurais já fazem uso desse método de aplicação com sucesso, mas sem o devido respaldo da pesquisa. Muitos produtores, por sua conta e risco e com base em suas próprias observações, estão fazendo aplicações de agroquímicos sem o conhecimento dos riscos ambientais que a nova técnica, quando utilizada de maneira inadequada, pode acarretar.

Diversos agricultores estão aplicando quantidade de produto muito superior à necessária, de maneira a “compensar” o grande volume de água aplicado. Soma-se a isso o fato de que, muitas vezes, os próprios profissionais de extensão rural não conhecem o real efeito dos defensivos agrícolas existentes no mercado quando aplicados via água de irrigação. A pesquisa precisa responder às dúvidas dos produtores e fornecer dados para evitar possíveis fracassos e danos ao meio ambiente.

Os mais diversos tipos de produtos, entre eles os herbicidas, os inseticidas, os fungicidas, os nematicidas e os fertilizantes, são passíveis de serem aplicados via irrigação. Apesar de ser uma técnica relativamente nova para muitos agricultores, começou a ser usada com mais intensidade, nos Estados Unidos, na década de 70. No Brasil, somente nos últimos anos é que a quimigação tem-se firmado como técnica, sendo os proprietários dos sistemas de irrigação localizada e pivô central os que fazem uso mais freqüente dessa prática.

Com a evolução dos sistemas de irrigação, a introdução de novos defensivos no mercado, o aumento crescente do custo da mão-de-obra e a necessidade de elevar a eficiência dos insumos agrícolas, criou-se grande expectativa em relação à utilização dessa tecnologia. De maneira geral, os sistemas de irrigação por aspersão, principalmente o pivô central e os sistemas lineares, são os mais adequados a essa técnica, enquanto a irrigação por superfície é de uso mais limitado.

Vantagens e Desvantagens

As principais vantagens da quimigação podem ser assim relacionadas:

• Uniformidade de aplicação: de maneira geral, se o equipamento de irrigação estiver operando em perfeita condição, a distribuição de defensivos na lavoura será mais uniforme que a convencional.

• Economia: constitui-se numa técnica mais econômica do que a convencional.

• Incorporação e ativação: os produtos que visam atingir o solo são incorporados e ativados quando aplicados com grande volume de água.

• Flexibilidade: a aplicação pode ser feita em épocas de grande fechamento da cultura, sem grandes danos a esta.

• Redução da compactação do solo: tem-se o tráfego de máquinas eliminado na lavoura durante a aplicação dos produtos.

• Redução de danos à cultura: o menor tráfego também diminui os danos à cultura.

• Menores riscos ao operador: o operador não precisa estar em contato com o produto distribuído, como no caso da aplicação convencional.

A quimigação traz consigo, entretanto, algumas características inerentes à aplicação de defensivos agrícolas que devem ser manejadas corretamente, sob o risco de inviabilizar o sistema, como:

• Necessidade de manejo eficiente: a quimigação pressupõe o manejo eficiente da irrigação para o sucesso da operação.

• Riscos ambientais: a quimigação é um risco potencial ao meio ambiente quando manejada de forma inadequada.

• Equipamentos adicionais: há necessidade de adquirir alguns equipamentos adicionais para se realizar a aplicação com segurança.

Medidas de Segurança

No Brasil, como não há legislação específica sobre as precauções a serem tomadas na quimigação, as medidas e os equipamentos de segurança a serem adotados dependem, basicamente, da conscientização do produtor irrigante e do custo envolvido. De qualquer forma, os sistemas de irrigação não devem operar sem válvulas de segurança, drenos automáticos e dispositivos de intertravamento entre a bomba dosadora e a de irrigação.

Vale ressaltar que os defensivos, assim como a sua forma de aplicação, devem estar devidamente registrados no órgão federal competente. É importante frisar que nem todos os defensivos proporcionam resultados satisfatórios na quimigação em virtude, principalmente, de sua formulação. Em alguns casos, os métodos convencionais são preferíveis.

Pesquisas

Alguns centros de pesquisa e universidades, tanto em nível nacional como internacional, têm feito estudos visando comprovar a eficácia e desenvolver a tecnologia da quimigação. Trabalhos têm sido conduzidos procurando adequar o manejo dos sistemas de irrigação, bem como as formulações dos defensivos, a essa nova técnica.

Nesse contexto, destacam-se trabalhos realizados no Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa, em Viçosa, MG, conduzidos pelo Prof. Mauri Teixeira, pelo Dr. Rogério Vieira (Epamig) e pelo doutorando João Paulo Cunha, visando determinar a eficácia e a uniformidade da distribuição de defensivos agrícolas aplicados via água de irrigação.

Considerações Finais

Sem dúvida, a aplicação de produtos químicos conjunta com a irrigação representa, na atualidade, importante tecnologia na agricultura irrigada. Deve ser feita, entretanto, com critério, de maneira a evitar possíveis danos ambientais e prejuízos econômicos. Um manejo adequado inclui sistemas bem projetados, calibração bem feita e operador bem treinado. O conhecimento do alvo e das características do produto a ser aplicado também é fundamental. Quando se fala em quimigação, a primeira dúvida que se tem é com relação à segurança ambiental. É importante que fique claro que toda e qualquer forma de aplicação de defensivo representa risco ao ambiente quando mal manejada. Porém, feita de forma correta, a quimigação, assim como a aplicação convencional, é ambientalmente segura.

É importante destacar que o aumento do volume de água na quimigação não implica utilização de doses maiores de defensivos. Pelo contrário, há evidências, em alguns estudos, de que a dose recomendada de certos defensivos pode ser reduzida quando estes forem aplicados via água de irrigação.

João P. A. Rodrigues da Cunha
Universidade Federal de Viçosa

* Este artigo foi publicado na edição número 06 da revista Cultivar Máquinas, de novembro/dezembro de 2001. ver mais artigos
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