Alternativa energética

Já que o governo federal elegeu São Pedro como o grande vilão da crise energética por que atravessa o país. Já que, erroneamente, esse mesmo governo tenta culpar as empresas privadas de energia pela falta de investimentos no setor, o que é uma grande bobagem. Já que o governo demonstrou, mais uma vez, uma grande incompetência gerencial e preditiva. Já que, segundo o mesmo, o cidadão, o empresário, os comerciantes brasileiros são perdulários no que se refere ao consumo de eletricidade. Já que o Brasil é um país que tem a maior área agricultável com condições climáticas das mais invejáveis, do mundo, está na hora de se tomar duas atitudes.

Primeira, acabar com essa mistificação, para não dizer, o rosário de mentiras que nossos mandatários tentam através da mídia ‘oficiosa’ impor, goela abaixo, aos cidadãos. São Pedro não tem nada com a crise energética! As companhias privatizadas representam apenas 20% do parque energético, portanto, não são elas as principais responsáveis pela falta de investimentos no setor. A verdade é que o governo, nos últimos anos ficou muito mais preocupado e ocupado em esconder os esqueletos da corrupção de seus apaniguados no armário do que desenvolver políticas sérias, não apenas no setor energético, mas também em uma série de outros setores fundamentais para o desenvolvimento do país.

Quanto a dizer que somos perdulários no consumo de eletricidade é um escárnio! Basta verificar dados internacionais. O Brasil consome, em média 2.000 kWh/pessoa. Países de nosso nível ou até abaixo deste consomem o seguinte: Argentina (2.1000, Uruguai (2.400), Líbia (2680), Jamaica (2350), Cazaquistão (3150), sem falar em USA (12.5000 e Noruega (25.000). Chego a conclusão de que o governo federal, através de seus técnicos, políticos e periferia apresentam um ego muito maior que seus próprios QIs! Ou então imaginam que o brasileiro é retardado mental!

O fato desse mais novo “samba do crioulo doido” criado por FHC e equipe faz com que, mais uma vez, o cidadão pague a conta. Se depender de novos investimentos em hidrelétricas ou mesmo nas altamente poluidoras termoeléctricas movidas a gás boliviano, a situação somente poderá ser amenizada dentro de 3-4 anos, a não ser que, daí sim, São Pedro nos ajude e faça cair sobre o Brasil um verdadeiro dilúvio.

Uma opção de curto prazo, com excedentes de matéria-prima para produção de energia elétrica são as usinas de açúcar localizadas, principalmente em São Paulo, Paraná, Goiás, e Mato Grosso do Sul. Estas, primeiramente necessitam melhorar as eficiências de suas caldeiras que utilizam o bagaço, para produzir energia elétrica. Tais eficiências são baixas visto que nunca houve a preocupação, hoje existente com escassez energética, e sempre havia sobra de bagaço para consumo próprio. Estimativas da ESALQ-USP dão conta de que, o potencial de bagaço excedente nos estados acima citados, em curto prazo poderá abastecer uma população de consumidores de baixa renda, por volta de 5 milhões de pessoas. Claro que há necessidade de o governo fornecer financiamentos adequados para que as usinas e destilarias se ajustem. Cabe lembrar que, devido à própria característica das localizações geográficas das unidades canavieiras, estas utilizarão as atuais linhas de transmissão, sem necessidade, portanto, de investimentos nessa área.
E o que é importante frisar, fornecerão energia exatamente no período de estiagem nessas regiões. Na área canavieira de Ribeirão Preto, 5 usinas já, há alguns anos, estão fornecendo excedentes de energia elétrica por elas gerados, às concessionárias privadas.

Todavia, existe uma outra matéria-prima que, pode, deve e, com certeza, já começa a despertar o interesse imediato dos canavieiros. Trata-se do palhiço da cana de açúcar, que vem a ser o produto de colheita mecanizada sem queima prévia do canavial, como infelizmente ainda ocorre, quando a colheita é realizada manualmente.

Pois bem, o equivalente energético do palhiço gira em torno de 1,2 barris de petróleo por tonelada de material. Esse palhiço, constituído de ponteiros, folhas verdes, palha e frações de colmos não recolhidos pelas colhedoras, é encontrado nos canaviais na ordem de 9 a 28 toneladas/ha. Ou seja, dependendo das condições da cultura, um hectare de canavial, oferece entre 11 e 33 equivalentes barris de petróleo. Nessas regiões a área cultivada com cana é da ordem de 2, 7 milhões de hectares, fica claro o desperdício que o país está tendo em não aproveitar uma biomassa renovável para diminuir sua dependência de outras fontes de geração de eletricidade.

Considerando que, apenas 1.365.000 ha sejam passíveis de serem colhidos sem queima prévia, em função de condições de relevo, principalmente, considerando, ainda, as devidas perdas durante a queima desse material, a conseqüente geração de vapor e sua transformação em eletricidade, ou seja, as perdas devidas às transformações energéticas, apenas o palhiço poderá em curto prazo, abastecer uma população da ordem de 7 milhões de pessoas de consumo de baixa renda (padrão referenciado pelas concessionárias).

Comparativamente, na região sul, se fosse possível juntar toda a palha de arroz resultante das beneficiadoras, este material poderia produzir energia elétrica para abastecer apenas 260 mil consumidores de baixa renda.

Portanto, o que falta é ação no lugar de retórica! A biomassa aí está para ajudar o brasileiro a não ter que dormir com o pesadelo de apagões e com a sangria de tarifas de energia elétrica escorchantes.

Tomaz Caetano Ripoli
Esalq - USP

* Este artigo foi publicado na edição número 04 da revista Cultivar Máquinas, de julho/agosto de 2001. ver mais artigos