Alternativas de manejo dos nematoides em soja

Além dos nematoides que já provocam prejuízos à cultura da soja no Brasil, Helicotylenchus dihystera e Scutellonema brachyurus passam a preocupar produtores e a pesquisa. Embora de ocorrência mais restrita, Tubixaba tuxaua é outra espécie que merece atenção.

No ano em que a Sociedade Brasileira de Nematologia comemora seus 40 anos de existência, estão em foco entre os nematologistas brasileiros discussões a respeito da problemática envolvendo nematoides como sérios patógenos de diversas culturas de importância agrícola para o Brasil, além de espécies emergentes, que podem se tornar importantes em um futuro próximo.

Desde a primeira descrição de um nematoide de galhas, Meloidogyne exigua, parasitando cafeeiros na então província do Rio de Janeiro, em 1892, periodicamente a agricultura é confrontada por novas ou emergentes espécies de nematoides que se tornam sérios problemas em pouco espaço de tempo.

Exemplos existem em abundância na literatura nematológica. Após aproximadamente um século dessa primeira descrição, outro nematoide foi relatado no Brasil, o nematoide de cisto da soja (NCS), Heterodera glycines, parasitando plantas de soja. Este nematoide se disseminou rapidamente pelas lavouras e, de uma área inicial de 5.000ha na época de sua constatação, 1991/92, expandiu-se para mais de 200.000ha nos próximos anos, com perdas estimadas em mais de 20.000 milhões de dólares. Atualmente, o NCS continua causando perdas econômicas em lavouras de soja no Brasil, apesar da ampla utilização de cultivares resistentes.

Além disso, apesar da constante e bem conhecida importância dos nematoides de galhas para a agricultura brasileira, há exemplos recentes de espécies de Meloidogyne emergentes que têm causado perdas importantes, como é o caso de M. enterolobii (=M. mayaguensis) em goiabeira e tabaco.

Mais recentemente, uma espécie considerada como patógeno secundário na cultura da soja até o final dos anos 1990, o nematoide das lesões radiculares, Pratylenchus brachyurus, tornou-se o principal problema nematológico da cultura, especialmente nas condições do Cerrado brasileiro.

Diante de tais problemas, os nematologistas sempre uniram esforços para enfrentar a crise e encontrar soluções de manejo eficientes para os produtores. E agora não é diferente: na iminência de novos problemas, muitos já estão discutindo a situação e iniciando as buscas por alternativas de manejo, antes que tais nematoides venham a causar maiores prejuízos aos produtores.

É o caso de duas espécies, apontadas como potenciais patógenos para a cultura da soja, Helicotylenchus dihystera e Scutellonema brachyurus, além de uma terceira, de ocorrência mais restrita, Tubixaba tuxaua (Figura 1).

Tanto H. dihystera como S. brachyurus são consideradas espécies ectoparasitas, ou seja, que não teriam a capacidade de penetrar nas raízes das plantas e, portanto, teoricamente, os danos causados ao sistema radicular seriam menores. O primeiro, H. dihystera, é um nematoide bastante comum de se observar em amostras de solo em muitas culturas, enquanto que S. brachyurus teve sua ocorrência incrementada nos últimos anos. Nos últimos tempos, ambas as espécies têm aparecido em maior frequência de ocorrência nas análises nematológicas realizadas em lavouras de soja e também em maior quantidade, principalmente nos estados do Mato Grosso, Goiás, Maranhão, Mato Grosso do Sul e Paraná. 

Já no caso de T. tuxaua, trata-se de nematoide descrito no Brasil pelo professor da Esalq, em Piracicaba, Aílton Rocha Monteiro, ainda com poucas informações sobre seu ciclo de vida ou círculo de hospedeiros. Sua ocorrência também parece estar restrita aos estados do Maranhão, Tocantins, Paraná e Mato Grosso, embora sua disseminação possa estar sendo subestimada devido às dificuldades em seu reconhecimento e identificação.

Na última edição do Congresso Brasileiro de Nematologia, realizado em junho de 2015, em Londrina, Paraná, os três nematoides ganharam destaque e foram tema de uma mesa-redonda exclusiva para discussão a respeito de sua ocorrência, potencial de danos e manejo. Infelizmente, a informação que se tem até o momento ainda é pequena para concluir que se tratam de patógenos importantes para a cultura da soja. Mas os estudos realizados até o momento trazem uma preocupação em relação a esses nematoides.

Estudos realizados este ano pelo Laboratório de Nematologia do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), localizado em Londrina, apontam que H. dihystera e S. brachyurus podem ser considerados como potenciais patógenos para a cultura da soja e outras que fazem parte do sistema produtivo da sojicultura.

Os trabalhos apresentados pelo Iapar no Congresso de Nematologia mostram que ambos conseguem penetrar no sistema radicular da soja, ao contrário do se esperava em função do hábito de parasitismo desses nematoides, e, além disso, causar lesões semelhantes àquelas provocadas por P. brachyurus, o nematoide das lesões radiculares (Figuras 2, 3 e 4).

No caso específico de H. dihystera, uma população foi purificada a partir de amostra de solo recebida pelo laboratório e mantida em casa de vegetação em plantas de soja e milheto. O milheto foi utilizado, uma vez que a amostra recebida era oriunda de lavoura de soja onde houve rotação com milheto ADR300. Observou-se, cerca de 70 dias após a inoculação de 50 exemplares por planta, o aparecimento de sintomas radiculares semelhantes aos observados para P. brachyurus, ou seja, lesões escurecidas, tanto em soja (Figura 2) quanto em milheto (Figura 3). Além disso, raízes de soja e milheto foram coloridas e foi possível a visualização do nematoide no interior das raízes de ambas as plantas, sugerindo que o nematoide possa estar facultativamente comportando-se como endoparasita migrador nas culturas da soja e do milheto (Figuras 2 e 3).

Já para S. brachyurus, o estudo realizado objetivou avaliar a multiplicação em soja e a possível sintomatologia associada ao parasitismo. Para tal, plantas de soja foram inoculadas com 500 exemplares e avaliadas quanto à multiplicação do nematoide aos 20 e 60 dias após a inoculação (DAI). Além disso, raízes de soja foram observadas quanto ao aparecimento de sintomas e, posteriormente, coloridas. Os resultados mostraram que S. brachyurus consegue multiplicar-se em soja, apresentando fator de reprodução de 2,77 e número de nematoides por grama de raízes de 165, aos 60 DAI. Além disso, aos 60 DAI, grande número de lesões radiculares também foi observado, semelhantes àquelas causadas por P. brachyurus (Figura 4) e, após coloração das raízes, verificou-se que o nematoide estava presente em seu interior, sugerindo que possa estar também facultativamente comportando-se como endoparasita migrador na cultura da soja (Figura 4).

Ainda não foi possível isolar e multiplicar o nematoide T. tuxaua em condições de casa de vegetação para a realização dos mesmos tipos de experimentos realizados com H. dihystera e S. brachyurus. Além disso, pesquisadores que trabalham nas regiões em que esse nematoide costuma estar presente têm relatado o aparecimento de um nematoide do gênero Tubixaba, mas com características diferenciadas em relação à T. tuxaua, por exemplo, menor tamanho, o que traz mais um complicador para os estudos envolvendo esse nematoide. Faz-se necessário o esclarecimento acerca da(s) espécie(s) de Tubixaba que ocorre(m) em lavouras de soja no Brasil para que novos estudos possam ser realizados de maneira a trazer resultados mais confiáveis aos produtores. 

Conclui-se, portanto, a partir dos estudos realizados até o momento, que H. dihystera e S. brachyurus podem constituir-se em potenciais patógenos para a cultura da soja no Brasil e que estudos para o esclarecimento acerca de sua capacidade de causar danos em soja e milho são essenciais. 

Figura 1 – Helicotylenchus dihystera, Scutellonema brachyurus e Tubixaba tuxaua. Fotos: Priscila Moreira Amaro.
Figura 1 – Helicotylenchus dihystera, Scutellonema brachyurus e Tubixaba tuxaua. Fotos: Priscila Moreira Amaro.
Figura 2 - Raiz de soja cultivar TMG 115 RR inoculada com 50 exemplares de Helicotylenchus dihystera, com lesões causadas pelo parasitismo do nematoide. Helicotylenchus dihystera no interior das raízes de soja cultivar TMG 115 RR, aos 70 dias após a inoculação. Fotos: Santino A. da Silva e Priscila M. Amaro.
Figura 2 - Raiz de soja cultivar TMG 115 RR inoculada com 50 exemplares de Helicotylenchus dihystera, com lesões causadas pelo parasitismo do nematoide. Helicotylenchus dihystera no interior das raízes de soja cultivar TMG 115 RR, aos 70 dias após a inoculação. Fotos: Santino A. da Silva e Priscila M. Amaro.
Figura 3 - Raiz de milheto cultivar ADR 300 inoculada com 50 exemplares de Helicotylenchus dihystera, aos 70 dias após a inoculação. Helicotylenchus dihystera no interior das raízes de milheto ADR 300, aos 70 dias após a inoculação. Fotos: Santino A. da Silva e Priscila M. Amaro.
Figura 3 - Raiz de milheto cultivar ADR 300 inoculada com 50 exemplares de Helicotylenchus dihystera, aos 70 dias após a inoculação. Helicotylenchus dihystera no interior das raízes de milheto ADR 300, aos 70 dias após a inoculação. Fotos: Santino A. da Silva e Priscila M. Amaro.
Figura 4 - Raiz de soja cultivar TMG 115 RR inoculada com Scutellonema brachyurus, com lesões causadas pelo parasitismo do nematoide. Scutellonema brachyurus no interior das raízes de soja cultivar TMG 115 RR, aos 60 dias após a inoculação. Fotos: Santino A. da Silva e Priscila M. Amaro.
Figura 4 - Raiz de soja cultivar TMG 115 RR inoculada com Scutellonema brachyurus, com lesões causadas pelo parasitismo do nematoide. Scutellonema brachyurus no interior das raízes de soja cultivar TMG 115 RR, aos 60 dias após a inoculação. Fotos: Santino A. da Silva e Priscila M. Amaro.


Andressa C. Z. Machado, Iapar; Priscila Moreira Amaro, Unifil; Santino Aleandro da Silva, Iapar


Artigo publicado na edição 199 da Cultivar Grandes Culturas.

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