Alvo definido: mancha alvo no algodoeiro

Nas últimas safras, em várias lavouras de algodoeiro nos Estados da Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás foi observada uma doença foliar com sintomas semelhantes ao da mancha alvo da soja, causada pelo fungo Corynespora cassiicola (Berk. & Curtis) Wei. Em algumas áreas de ocorrência, além das manchas nas folhas, também ocorreu intensa desfolha. Doença semelhante em algodoeiro foi noticiada nos EUA em 2012 no Estado da Geórgia, principalmente na cultivar DP 1048 B2RF com desfolha estimada em 70% (FULMER et al., 2012).

Os sintomas iniciais da mancha alvo no algodoeiro são pequenos pontos circulares de coloração arroxeada nas folhas (Figuras 1 e 2). Com a evolução da doença, esses pontos tornam-se manchas de formato arredondado ou irregular, com bordas marrom escuro e centro marro claro, variando em tamanho de 2mm a 20mm (Figura 3). As lesões, quando completamente desenvolvidas, podem apresentar anéis concêntricos (Figura 4) e, quando a infecção é alta, as folhas caem prematuramente. A rápida desfolha é causada pela aceleração da senescência, o que torna a folha amarelada em poucos dias (Figura 5). As lesões também ocorrem em brácteas (Figura 6) e em maçãs novas.

Associado aos sintomas, foi isolado um fungo com conidióforos simples, que originavam conídios sub-hialinos, com número variável de septos (4 a 20) com dimensões de 50 μm a 190 μm de comprimento e 7 μm a 16 μm de largura, ligeiramente curvados e com formato obclavado a cilíndrico (Figura 7). Com base na similaridade dos sintomas e sinais já descritos na literatura (FULMER et al., 2012), a diagnose tentativa aponta para Corynespora cassiicola (Berk. & Curtis) Wei., mesmo agente causal da mancha alvo em soja. Esse fungo causa doença em 530 espécies de plantas de 380 gêneros, incluindo monocotiledôneas e dicotiledôneas (DIXON et al., 2009). Além de isolados fitopatogênicos, alguns isolados de C. cassiicola são saprofíticos.

As condições ambientais ideais para o desenvolvimento de C. cassiicola são temperaturas abaixo de 30º C e períodos prolongados de alta umidade. Como o desenvolvimento e a disseminação da mancha alvo são dependentes de alta umidade (longos períodos de molhamento foliar), a doença progride mais rapidamente após fechamento do dossel (Figura 8), causando desfolha. Locais onde ocorre a combinação de fatores que favorecem maior umidade no dossel como cultivares de crescimento mais vigoroso, população de plantas elevadas ou falhas no manejo de regulador de crescimento, aliado a fatores ambientais como dias nublados e períodos ininterruptos de chuva, são mais propensos à ocorrência da mancha alvo.

O vento é a principal via de disseminação do patógeno a curtas distâncias e não há informações ainda sobre a disseminação por meio de sementes de algodoeiro. O fungo, por ser cosmopolita e necrotrófico, pode sobreviver em plantas hospedeiras e colonizar restos culturais de diversas espécies vegetais (SNOW; BERGGREN, 1989).

Diante da severidade observada na cultura da soja e agora em algodoeiro nas áreas de cultivo do cerrado (Figura 8), demonstrou-se que isolados tanto de algodão como de soja são capazes de causar doença em ambos os hospedeiros (GALBIERI et al., 2014). O mesmo fato já havia sido registrado nos EUA (JONES, 1961). Portanto, o aumento do inóculo na cultura da soja pode afetar o cultivo subsequente de algodoeiro (segunda safra) ou no próximo ano agrícola (safra única). As 23 cultivares de algodão mais plantadas no Brasil foram testadas em condições controladas e todas foram suscetíveis ao patógeno, sem apresentarem diferença de severidade (GALBIERI et al., 2014), entretanto, existe um relato de resistência identificada na fase de plântula no genótipo PR 02-77.

Outro problema recente que pode ser apontado para o surto epidêmico é o uso de fungicidas a base apenas de triazóis e estrobilurinas tanto em algodoeiro direcionado ao controle da mancha de ramulária, quanto em soja para o controle da ferrugem asiática. Não se sabe se existem no Brasil isolados do patógeno naturalmente resistentes aos diversos fungicidas usados em soja, algodão e milho, como já demonstrado para benzimidazóis, estrobilurinas e carboxamidas em outros países. Todavia, isolados de soja testados in vitro foram insensíveis ao grupo dos benzimidazóis (carbendazim e tiofanato-metílico), tiveram sensibilidade intermediária a triazóis (ciproconazole e protioconazole) e, na maioria das vezes, foram sensíveis aos SDHI (succinate dehydrogenase inhibitors) boscalide, fluopiram e fluxapiroxade (TERAMOTO et al., 2013).

Alguns calendários de aplicações de fungicidas foram propostos em trabalhos desenvolvidos nos EUA (Hagan et al., 2015; Kemerait et al., 2011). Apesar das reduções consideráveis nos níveis de desfolha, particularmente com o fungicida Pyraclostrobin, as produtividades médias de algodão em parcelas tratadas com fungicida e os controles não tratados em vários trabalhos não diferiram (Kemerait et al., 2011; Hagan et al., 2014; 2015). Apesar da eficiência reduzida em evitar perdas na produtividade de algodão, alguns tratamentos diferiram do controle sem aplicação na redução de desfolha: Pyraclostrobin (nas doses de 657 ou 876 mL/ha) - 3 aplicações (início da floração, 2 e 4 semanas após a primeira aplicação); Pyraclostrobin (657 mL/ha) + Clorotalonil (1,167 L/ha) – 3 aplicações (início da floração, 2 e 4 semanas após a primeira aplicação); Pyraclostrobin + Fluxapyroxad (292 mL/ha) 2 aplicações (2 e 4 semanas após o florescimento) e Fluxapyroxad (328 mL/ha) 2 aplicações (2 e 4 semanas após o florescimento). Entretanto, no Brasil ainda não existe nenhum fungicida registrado para o controle da mancha alvo em algodoeiro.

Pelo fato de ser um fungo necrotrófico e com ampla gama de plantas hospedeiras, a sobrevivência de C. cassiicola em restos culturais de algodão e soja servirá de inóculo primário para a próxima safra. Nesse contexto, é provável que a doença seja mais intensa em áreas onde prevaleçam o cultivo sucessivo dessas culturas. A escolha de plantas não hoepedeiras, como as gramíneas, para uso em rotação pode auxiliar na redução do inóculo inicial do patógeno na safra subsequente.

Diante da ausência de resistência genética nas cultivares em uso atualmente, o manejo deverá ser focado em práticas culturais que retardem ou impeçam o desenvolvimento da doença. Conhecendo-se a dependência do patógeno por prolongados períodos de molhamento foliar, todas as medidas que possam aerar o interior do dossel das plantas, também afetaram negativamente o desenvolvimento da mancha alvo. Entre essas medidas, podem ser destacadas a escolha de cultivares com menor vigor vegetativo, densidades de plantios mais baixas, o fracionamento das adubações de cobertura com nitrogênio e o manejo correto de reguladores de crescimento.

 O artigo está presente na edição 193 na Cultivar Grandes Culturas.


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Nelson Dias Suassuna; Luís Gonzaga Chitarra; Fabiano José Perina

Embrapa Algodão