Ameaças para a soja

Como toda cultura exótica no País, a soja iniciou sua expansão com excelente sanidade. Porém, com poucos anos de cultivo comercial, as doenças começaram a aparecer, passando a representar um dos principais fatores limitantes ao aumento e estabilidade do rendimento. Além das doenças trazidas com as primeiras sementes, diversos patógenos nativos foram se associando à planta de soja. Atualmente, cerca de 50 doenças são listadas na cultura. Na safra 1999/00, as doenças foram responsáveis por prejuízos estimados em US$ 1,39 bilhão.

O risco da ocorrência de novas doenças na soja é contínuo. O maior ou menor dano que irão causar depende do grau de tecnologia utilizada na lavoura, da correta combinação das práticas agronômicas e do nível de preparo e agilidade das ações das instituições de pesquisa e de assistência técnica. Doenças tradicionais, de baixo impacto em uma região, podem representar alto risco em regiões de climas mais favoráveis ao patógeno. O desenvolvimento de uma nova raça de patógeno, cuja doença esteja sob controle através de resistência genética, pode representar novo risco à cultura. Dessa forma, a fim de que a defesa da cultura seja permanente e eficaz, é necessário ter a visão global do problema, sem restrição a país ou fronteira. É fundamental acompanhar a evolução das doenças ao nível global e estar sempre preparado para novos desafios.

Entre as doenças consideradas exóticas (introduzidas), as primeiras e mais comuns foram o míldio - Peronospora manshurica, a mancha púrpura e crestamento foliar de Cercospora - Cercospora kikuchii, a mancha parda - Septoria glycines e a antracnose - Colletotrichum truncatum. Essas, provavelmente, vieram nas sementes introduzidas pelos imigrantes japoneses, que cultivaram a soja para consumo caseiro.

Outras doenças cujos patógenos, provavelmente, já faziam parte do atual ecossistema da soja são a mancha alvo e a podridão radicular de Corynespora (C. cassiicola), a podridão radicular de Rosellinia (R. necatrix ou R. Bunodes: falta definição), a podridão radicular de carvão ou podridão de Macrophomina (M. phaseolina), o tombamento e a morte em reboleira (Rhizoctonia solani) e o tombamento e a murcha de Sclerotium (S. rolfsii). A podridão branca da haste, causada pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum, deve ter sido introduzida pelas sementes de diversas leguminosas que antecederam a cultura da soja. Duas doenças consideradas exóticas até recentemente passaram a fazer parte do quadro de preocupações da pesquisa e dos produtores, nos estados do Sul, sem que tenham uma explicação lógica para suas origens: a podridão radicular de Phytophthora (P. megasperma f. sp. glycines) (RS e SC) e a podridão parda da haste (Phialophora gregata) (RS, SC e PR). Estas são doenças tradicionais da soja nos Estados Unidos e não há informação de que sejam disseminadas pela semente.

Os nematóides de galhas, principalmente, as espécies Meloidogyne incognita e M. javanica, são nativas, de ampla ocorrência e são responsáveis por perdas significativas de soja. Na safra 1999/00, o prejuízo causado foi estimado em US$ 52,2 milhões.

Primeira epidemia

A mancha “olho-de-rã” foi a primeira grande epidemia na cultura de soja e responsável pelo início do programa de melhoramento visando resistência a doenças no Brasil. Na safra 1970/71, o fungo C. sojina foi introduzido através de um lote de sementes da cultivar Bragg, originada dos Estados Unidos e que foi semeada na Estação Experimental do IPEAME-MA (atual IAPAR), em Ponta Grossa. Desse primeiro foco, o fungo espalhou-se por todo o Estado do Paraná, causando severas perdas nos quatro anos seguintes, sendo a cv. Bragg, suscetível, predominante na época.

Do Paraná, a mancha “olho-de-rã” espalhou-se por todo o País, através de sementes infectadas, causando prejuízos estimados em mais de US$ 100 milhões. Atualmente, a doença está sob controle através de cultivares resistentes, estando restrita a ocorrências esporádicas nos estados do Tocantins, Maranhão e Piauí, onde ainda existem remanescentes da cultivar Doko e em áreas experimentais, onde são feitas inoculações e seleções de linhagens resistentes. O fungo C. sojina apresenta variabilidade patogênica e, da safra 1970/71 a 1999/00, já foram identificadas mais de 25 raças no Brasil. A resistência das cultivares desenvolvidas nesse período tem sido relativamente estável, porém, o surgimento de novas raças tem exigido a mudança de cultivares.

Duas raças de C. sojina (Cs-24 e Cs-25), identificadas em 1998, no Maranhão e Piauí, quebraram a resistência de várias cultivares lançadas recentemente. Isso exige, em nível de campo, atenção constante para detectar a tempo a variação na reação das cultivares. Por parte da pesquisa, a constatação de qualquer mudança na reação das cultivares deve desencadear novos estudos para determinação de raça e definir os cruzamentos para solução do problema.

Na safra 1988/89, teve início a epidemia do cancro da haste que, à semelhança da mancha “olho-de-rã”, disseminou-se do Sul do Paraná para o resto do Brasil. As perdas por cancro da haste somaram, no período de 1989 a 1996, mais de US$ 500 milhões. Graças à existência de um dinâmico programa de melhoramento genético e de testes de linhagens, com participação de diversas instituições, a doença está sob controle com cultivares resistentes. Todavia, o patógeno continua presente na maioria das regiões produtoras de soja, exigindo contínua atenção. Até o momento, a resistência ao cancro da haste tem sido estável, sem qualquer indicação de variabilidade genética do patógeno.

Na safra 1991/92, o nematóide de cisto da soja (NCS) (Heterodera glycine) passou a fazer parte do quadro de doenças da soja no Brasil. Iniciando com cerca de 10.000 ha infestados no primeiro ano de constatação, nos estados de GO, MS, MT e MG, na safra 1999/00, passou para mais de 1,7 milhão de hectares. Atualmente, mais de 85 municípios em sete estados (GO, MG, MS, MT, PR, RS, SP) estão infestados. O total de prejuízos causados pelo NCS até a safra 1999/00 foi estimado em US$ 200 milhões.

Expansão e doenças

Com a expansão da soja para as regiões Centro e Norte/Nordeste do Brasil, com sementes originadas do Sul, as doenças transmitidas pelas sementes foram espalhadas por todas as regiões do País, onde a cultura se viabilizou. Doenças de impacto ocasional na região Sul, quando introduzidas em regiões de clima mais favorável dos Cerrados, passaram a causar constante redução de rendimento. Os exemplos mais importantes são as doenças de final de ciclo (mancha parda - Septoria glycines e crestamento foliar de Cercospora - C. Kikuchii), antracnose (Colletotrichum truncatum, seca da haste e da vagem ou Phomopsis da semente (Phomopsis sojae/Diaporthe phaseolorum f. sp. sojae Phomopsis longicola) e mancha alvo (Corynespora cassiicola). O oídio (Microsphaera diffusa), que sempre esteve presente em parcelas experimentais de cultivares tardias e em casa-de-vegetação, sem nunca ter causado danos significativos, repentinamente, na safra 1996/97, foi responsável por perdas avaliadas em US$ 315,3 milhões.

A única explicação para essa epidemia nacional, após muitos anos de simples ocorrência, e sua continuidade como problema em anos subseqüentes, é o desenvolvimento de uma nova raça. Por outro lado, não se tem explicação para a ocorrência repentina ao nível nacional, em vez de uma evolução gradual. Algo semelhante vem ocorrendo com a podridão vermelha da raiz ou síndrome da morte súbita (PVR/SDS) (Fusarium solani f. sp. glycines). A doença foi constatada pela primeira vez na safra 1981/82, em São Gotardo, MG, porém, o agente causal só foi confirmado por Nakagima et al., em 1996. Durante muitos anos, a PVR ficou restrita às lavouras da região de São Gotardo. A partir do final da década de 80, passou a chamar a atenção em diversas lavouras do Sul do Paraná, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul (Chapadão do Sul) e Goiás (Chapadão do Céu). Na safra 1999/00, foram listados 99 municípios com PVR, distribuídos pelos estados da BA, GO, MG, MS, MT, PR, RS e SP, compreendendo cerca de 2 milhões de hectares.

O prejuízo causado por PVR nessa safra foi estimado em US$ 53 milhões. O surgimento e a expansão da PVR é outro tema de reflexão, deixando as seguintes questões sem respostas: a.) não há prova da transmissão pela semente e, no entanto, está amplamente disseminada, aumentando a cada ano; e b.) é de ocorrência recente em lavouras de mais de 30 anos de cultivo de soja, na região Sul, enquanto tem causado danos significativos em áreas de primeiro ano de cultivo, em Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Bahia, dando a impressão de que o fungo é nativo e de ampla distribuição. Pela sua dificuldade de controle, a PVR é a doença mais preocupante dentre as que ocorrem atualmente em soja no Brasil. Nenhuma prática agronômica têm mostrado eficácia no controle da doença. Estudos em casa-de-vegetação e a campo, tem demonstrado diferenças de reação entre cultivares, porém, testes mais rigorosos a campo têm sido dificultados pelas variações climáticas de cada safra.

A partir de 1995, a mela (Rhizoctonia solani/Tanathephorus cucumeris), passou a causar danos na soja, principalmente no Maranhão (Balsas) e no Piauí (Uruçuí). Desde então, vem se expandindo e causando perdas significativas também em Mato Grosso (Rondonópolis, Nova Mutum, Lucas e Sorriso). Essa doença poderá representar sério problema para a soja em expansão para as regiões tropicais úmidas, como o Norte de Mato Grosso, Rondônia e Pará. Por ser causada por um fungo de distribuição quase universal, a possibilidade de causar danos à soja depende apenas da coincidência de condições climáticas favoráveis, o que, certamente ocorrerá na maioria das regiões tropicais amazônicas, para onde segue a expansão da soja.

A mudança de práticas agronômicas e a falta de manejo adequado da cultura têm favorecido o agravamento, principalmente, das doenças radiculares. A sucessiva semeadura direta tem favorecido a incidência da PVR e da podridão radicular de Corynespora. O manejo inadequado do solo, que resulta em compactação, nas regiões sujeitas a veranico, tem agravado o estresse hídrico nas plantas e, conseqüentemente, aumentado seriamente a incidência da podridão de carvão (Macrophomina).

Além das doenças mencionadas, outras vêm aumentando em severidade a cada safra, como a mancha foliar de Ascochyta (A. sojae), a mancha foliar de Phyllosticta (P. sojicola) e o míldio (P. manshurica).

Os exemplos citados mostram que a agricultura é um processo contínuo e dinâmico. Para cada problema solucionado, vários outros surgem, exigindo constante atenção da pesquisa e de todos aqueles, direta ou indiretamente envolvidos com a cultura. Por parte da pesquisa, o controle das diversas doenças exige um esforço coordenado, integrado e multidisciplinar. Doenças tradicionais, de baixo impacto em uma região podem constituir sérios problemas em regiões que as favoreçam. O desenvolvimento de uma nova raça pode pôr a perder todo o trabalho de vários anos de melhoramento para resistência às raças até então existentes, como tem ocorrido com a mancha “olho-de-rã”.

O melhoramento contínuo para produtividade e demais características agronômicas, sem levar em conta os testes para reação às doenças, pode, ao longo do tempo, eliminar os genes de resistência. Cultivares resistentes, quando modificadas para atender certos interesses, podem perder essa característica se não for devidamente avaliada. Exemplo dessa situação é a ocorrência da mancha “olho-de-rã”, nas três últimas safras, nas cultivares transgênicas em uso na Argentina, onde diversas cultivares foram severamente afetadas. Além do cuidado com as doenças que já ocorrem no país, deve-se estar sempre atento às doenças que ocorrem ao redor do mundo e que poderão vir a ser problemas para a sojicultura brasileira. Entre as diversas doenças da soja ainda não constatadas no Brasil, destacam-se a ferrugem (Phakopsora pachyrhizi), ausente apenas no continente americano, a mancha foliar vermelha (“red leaf blotch”) (Pyrenochaeta glycines/Dactuliochaeta glycines), presente em alguns países da África, principalmente na Nigéria, Zâmbia e Zimbabwe. Uma mancha foliar causada pelo fungo Myrothecium roridum ocorre em reboleiras e de forma pouco agressiva nos Cerrados brasileiros, porém, na Índia, é responsável por severas perdas de soja. Essas doenças, para as quais não há resistência genética adequada, se introduzidas no Brasil, poderão dobrar as perdas ou o custo de produção, principalmente nos Cerrados. Na eventualidade da introdução de qualquer dessas doenças no Brasil, a única defesa para a soja, será a existência de um dinâmico programa de pesquisa e de assistência técnica.

Uma afirmação que continua válida após mais de 40 anos foi feita pelo eminente Fitopatologista J. C. Walker (1959): “O sucesso final da resistência como medida de controle depende da busca contínua de informação básica, da contínua busca de germoplasma e da integração contínua em um amplo programa de melhoramento da cultura considerada”. Vale acrescentar que, em um país imenso como o Brasil, com tamanha diversidade climática e desafios por superar, a integração de esforços entre as instituições de pesquisa e assistência técnica, públicas e privadas, será a única garantia para continuidade de uma sojicultura rentável.

José Tadashi Yorinori,
Embrapa Soja

* Este artigo foi publicado na edição número 22 da revista Cultivar Grandes Culturas, de novembro de 2000. ver mais artigos
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