Aplicação de fungicidas contra mancha amarela em trigo

A mancha amarela é limitante da cultura do trigo, principalmente em sistema de plantio direto e monocultura, em regiões mais frias, com chuvas frequentes, dias encobertos e alta umidade do ar, como ocorre no Sul do Brasil. A aplicação foliar de fungicidas, em especial trizóis e estrobilurinas, associada a outras estratégias de manejo, tem se tornado essencial nos últimos anos ante ao aumento da intensidade da doença e das dificuldades de controle.

No Sul do Brasil, o clima contribui para ocorrência e aumento da intensidade de doenças, pois durante o desenvolvimento da cultura observa-se de forma frequente excesso de chuva, acúmulo de dias encobertos e alta umidade do ar. Nesse cenário, a mancha amarela da folha do trigo ganha importância, principalmente nas regiões mais frias em que o trigo é cultivado em monocultura e sistema de plantio direto, alcançando um potencial de danos de até 48%.

A doença é causada pelos fungos Drechslera tritici-repentis (Died.) Shoemaker e Drechslera siccans (Drechsler) Shoemaker. Os primeiros sintomas aparecem nos estádios iniciais da planta, geralmente nas folhas próximas ao solo. Uma vez no interior da planta, o fungo secreta toxinas que podem causar amarelecimento e necrose dos tecidos, originando pequenas lesões ovaladas com halo amarelado e centro necrótico. Essas lesões evoluem, através de um processo chamado expansão de lesão, podendo coalescer e tomar grande proporção do tecido foliar. Esse processo é menos dependente do ambiente, por isso as manchas foliares tendem a evoluir sob condições adversas à esporulação, dispersão do inóculo e indução de novas infecções.

Figura 1: Sintomas da mancha amarela do trigo com expansão de lesão a partir do ponto de infecção. UPF, Passo Fundo/RS. 2013. Fonte: Ranzi, C.
Figura 1: Sintomas da mancha amarela do trigo com expansão de lesão a partir do ponto de infecção. UPF, Passo Fundo/RS. 2013. Fonte: Ranzi, C.

As principais formas de sobrevivência do patógeno de uma safra para outra se dão através de sementes infectadas e restos culturais. Nos restos culturais, o patógeno forma estrutura de sobrevivência, que libera esporos sexuais no início da safra sob condições favoráveis, començando o ciclo da doença em sistema de plantio direto com monocultura. Durante o desenvolvimento da cultura, sob condições favoráveis e sem adoção do controle químico, esporos assexuais são formados sobre as lesões e permitem que a doença se expanda e se torne mais agressiva. Dentro desse contexto, medidas integradas para diminuir a quantidade de inóculo em sementes e restos culturais são importantes. A intenção é atrasar o início da doença no campo, e assim diminuir os danos sobre a cultura e perdas para o agricultor.

Em áreas com problemas de mancha amarela, a rotação de cultura com espécies não hospedeiras por pelo menos um ano, como aveia, nabo forrageiro e canola pode ser eficiente para reduzir a quantidade de inóculo no campo, assim como a utilização de sementes com boa qualidade sanitária. Deve-se optar sempre que possível por cultivares menos suscetíveis à doença, sendo esta informação oferecida em dias de campo, instituições de pesquisa e informativo técnico da cultivar desejada. O tratamento de sementes com fungicidas é outra ferramenta importante, e deve ser realizado sempre que houver presença do patógeno na área ou na semente. Por fim, a aplicação foliar de fungicidas junto às outras medidas de manejo da doença é essencial, devido ao aumento da intensidade da doença e dificuldade de controle nos últimos anos no Sul do Brasil.  

Tendo em vista que a mancha amarela é de difícil controle, a Universidade de Passo Fundo (UPF), através dos professores, Carlos Forcelini, Carolina Deuner e orientados, desenvolvem trabalhos nesse sentido. As respostas de rendimento de trigo à aplicação foliar de fungicida é altamente variável, sendo influenciada pela resistência genética da cultivar à doença, quantidade de doença presente no campo, época, dose e número de aplicações, tecnologia de aplicação, rendimento potencial da cultura, condições climáticas durante o ciclo da cultura e virulência do patógeno.

A maioria dos fungicidas foliares utilizados para o controle de mancha amarela possuem os grupos químicos triazol ou estrobilurina, ou a mistura de ambos. Em trabalho realizado na área experimental da UPF, safra 2013, foi avaliado o desempenho de fungicidas sobre o controle de mancha amarela. O cultivar utilizado foi TBio Pioneiro, suscetível a mancha amarela. Os fungicidas empregados foram piraclostrobina + epoxiconazol (66,5+25 g i.a./ha), azoxistrobina + ciproconazol (60+24), trifloxistrobina + protioconazol (60+70), propiconazol (100) e epoxiconazol (62,5) nos estádios de perfilhamento, elongamento e florescimento. 

A porcentagem de controle da mancha amarela variou entre os tratamentos (Tabela 1). A melhor eficiência de controle foi constatada para o tratamento 9, primeira aplicação de trifloxistrobina + protioconazol com adição do propiconazol e as duas subsequentes de trifloxistrobina + protioconazol, com eficiência de 72%. Os dois tratamentos que apresentaram a menor eficiência foram os tratamentos 5 e 7 (34%), ambos com aplicações de azoxistrobina + ciproconazol, porém, o tratamento 7 teve adição do fungicida epoxiconazol a esta mistura somente na primeira aplicação. Uma possível explicação para o resultado de menor eficiência de controle, apresentados pelos dois tratamentos é a menor quantidade de triazol na formulação, 24 g i.a./ha comparado, por exemplo, com o tratamento 9 que tem 70 g i.a./ha. As manchas foliares são melhor controladas pelos triazóis, respondendo positivamente a adição de mais triazol a mistura (triazol + estrobilurina). Esse procedimento é fundamental em cenários favoráveis a manchas foliares, como cultivares suscetíveis, monocultura de trigo e condições ambientais favoráveis. Segundo a indicação técnica da pesquisa do trigo (REUNIÃO, 2006), considera-se bom controle quando o fungicida apresenta eficiência superior a 70%, e controle regular quando a eficiência fica entre 50% a 70%. Portanto, o tratamento que apresentou bom controle, conforme os critérios descritos foi o tratamento 9, e todos os outros, exceto os tratamentos 5 e 7, que apresentaram um controle regular, com eficiência variando de 58% a 66%.

Os maiores rendimentos foram observados nos tratamentos: 2 - três aplicações da mistura piraclostrobina + epoxiconazol (5.034,1 kg/ha); 3 - mesma mistura com adição de propiconazol na primeira aplicação (5.072,5 kg/ha); 9 - aplicações de trifloxistrobina + protioconazol, com propiconazol adicionado na primeira aplicação (4955,0 kg/ha). 

Figura 2: Área experimental com sintomas de mancha amarela. Área tratada (esquerda) e testemunha sem tratamento (direita). UPF, Passo Fundo/RS. 2013. Fonte: Deuner, C.C.
Figura 2: Área experimental com sintomas de mancha amarela. Área tratada (esquerda) e testemunha sem tratamento (direita). UPF, Passo Fundo/RS. 2013. Fonte: Deuner, C.C.

A testemunha produziu 1.147,1 kg/ha a menos em relação ao tratamento 2, que apresentou a maior produtividade. Isso reforça a importância de uma boa condução da lavoura e auxílio de fungicidas que se mostram como uma ferramenta importante para minimizar os danos causados pelas doenças, sendo uma medida emergencial, rápida e eficiente. Para que a cultura do trigo seja sustentável, é necessário manter altos patamares de rendimento de grãos. Nesse sentido, os fungicidas devem ser aplicados segundo critérios que assegurem o retorno econômico, considerando o ciclo biológico do patógeno, o comportamento das cultivares, e as condições climáticas.

As pesquisas que tem como objetivo o manejo integrado de manchas foliares devem ser intensificadas e contínuas, com o objetivo de orientar o manejo dos agricultores para reduzirem danos na triticultura. Há a necessidade de que sejam desenvolvidos novos fungicidas ou reposicionados os fungicidas do mercado, para atenuar o problema de controle da mancha amarela. Porém, isso deve estar associado a outras estratégias de manejo, como resistência genética e rotação de culturas.

Trigo e doenças fúngicas 

O trigo (Triticum spp.) é o segundo cereal mais produzido no mundo, com significativa importância na alimentação humana e na economia agrícola global. O cereal é cultivado nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país, sendo o Sul responsável por mais de 90% da produção nacional. 

A produção brasileira de trigo supre aproximadamente metade da demanda nacional. No entanto, é de conhecimento geral que o Brasil possui imenso potencial para produzir trigo, sem exigir a incorporação de áreas ainda não cultivadas com grãos. Sendo assim, dentre os componentes que limitam o potencial produtivo da cultura, as doenças de origem fúngica se destacam, pois comprometem a qualidade e rendimento de grãos.


Victória V. Bertagnolli, Camila Ranzi, Valéria C. Ghissi, Pedro Bertagnolli Neto, Giovani Pastre, Gustavo Visintin, Carolina C. Deuner, Universidade Federal de Passo Fundo


Artigo publicado na edição 202 da Cultivar Grandes Culturas.

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