Aplicação em taxa variável para melhorar a fertilidade do solo

Cada vez mais a agricultura de precisão é um fator que agrega muito na produtividade da lavoura. A aplicação em taxa variável é uma das formas de melhorar e padronizar a fertilidade do solo.

A atividade agrícola brasileira passa por constantes transformações, visando o incremento de produtividade por área cultivada, o que torna a agricultura cada vez mais competitiva e dinâmica, exigindo do produtor um maior nível de especialização e capacidade de gerenciamento.

A adoção da tecnologia de gerenciamento é importante pelo fato de que, apesar de a maioria dos produtores não ter a percepção que o solo é desuniforme, as áreas de cultivo podem ter muitas variações em fertilidade, produtividade, tipo de solo e necessidades químicas. Esta heterogeneidade e sua variabilidade espacial dependem dos fatores de sua formação e estão diretamente relacionadas ao manejo dos mesmos.

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A agricultura de precisão pressupõe a elaboração e a utilização de mapas que descrevam características técnicas simples e práticas de serem compreendidas, buscando diminuir a vulnerabilidade dos sistemas de produção e aumentando a competitividade da produção agrícola. O uso de tecnologias, como as da agricultura de precisão, é fundamental a fim de proporcionar um aumento na eficiência do uso dos fertilizantes, pois alguns deles estão com suas reservas em nível de esgotamento.

A variabilidade espacial encontrada em produtividade e nos teores de nutrientes no solo nas lavouras está sendo avaliada por diversos produtores. Neste contexto, existe a possibilidade de manejá-la visando aumentar a eficiência do uso de insumos, o que torna a implementação da agricultura de precisão viável economicamente nas propriedades rurais. Se a variabilidade do campo puder ser medida e registrada, e estas informações serem usadas para otimizar as aplicações em cada local, estaremos aplicando na prática o conceito de agricultura de precisão. A caracterização da variabilidade espacial de atributos do solo no campo pode ser realizada por meio de amostragem e análises de solo, com o auxílio das ferramentas de geoestatística, visando identificar zonas com restrições químicas que possam estar limitando o rendimento das culturas.

A correção através da aplicação a taxa variável é bastante eficiente
A correção através da aplicação a taxa variável é bastante eficiente

O EXPERIMENTO

Para avaliar a eficiência da amostragem de solo georreferenciada, a fim de identificar a variabilidade química dos nutrientes fósforo e potássio de uma lavoura, bem como avaliar a eficiência da aplicação a taxa variável na correção e evolução dos níveis destes nutrientes no solo, foi realizado um experimento no município de Coxilha (RS), em um Latossolo Vermelho com plantio direto consolidado e estabelecido a mais de 15 anos, com as culturas anuais de soja, trigo e milho.

Inicialmente foi georreferenciada a área de 50ha estabelecendo-se a malha com uma amostra a cada 1,5ha da camada de 0cm a 10cm de profundidade. As aplicações em taxa variável para a correção dos níveis de fertilidade no talhão foram feitas em pré-plantio da cultura do trigo safra 2011, utilizando-se duas operações a taxa variável. A primeira aplicação realizada com o fosfato monoamônico (MAP - 48% P2O5) e a segunda com cloreto de potássio (60% K2O). Como adubação de base foram utilizados 150kg/ha de MAP 08-48-00 (NPK) e uma aplicação em cobertura com 180kg/ha de ureia cloretada 30-00-20 (NPK).

As distribuições dos fertilizantes em taxa variável foram realizadas utilizando um distribuidor centrífugo com controlador de taxa variável da marca Stara, modelo Twister 1500 APS (Figura 1), com capacidade de tanque de 1.500 litros. O distribuidor é equipado com mecanismo dosador gravimétrico, de abertura variável, que possibilita aplicação a taxa variável. 

Para avaliar a variabilidade existente na fertilidade do solo se utilizou o coeficiente de variação (CV) entre os valores encontrados nas amostras. Classificou-se o CV entre os atributos do solo em baixo, médio e alto. Para o CV ser considerado baixo, deve ser inferior a 12%; médio entre 12% e 62% e alto acima de 62%.

RESULTADOS ENCONTRADOS

Analisando o nutriente P (fósforo) observa-se, no mapa de aplicação utilizado no ano de 2011 (Figura 1), que 18,37ha do talhão já estavam com os níveis acima de 12mg/dm3 não sendo utilizada dose para correção de solo. 

Figura 1 - Mapa de aplicação de fósforo em 2011
Figura 1 - Mapa de aplicação de fósforo em 2011

Avaliando a evolução nos níveis de P com a aplicação a taxa variável (Tabela 1), se observa que o teor mínimo em 2011 se encontrava em 5mg/dm3 tendo aumentado para 7,7mg/dm-3 em 2012, o que ainda é classificado como baixo pela Comissão de Química e Fertilidade do Solo RS/SC (2016).

A média subiu de 11,6mg/dm-3 (nível baixo) para 14,2mg/dm-3 (nível alto) e o teor máximo se manteve nos 24mg/dm-3 (nível alto). O CV da área em 2011 era 42,6% tendo diminuído para 35,7%, permanecendo ainda na classificação médio. Esse resultado demonstra que a variabilidade deste talhão diminuiu com as intervenções em taxa variável.

Por outro lado, houve uma evolução do teor de fósforo de maneira geral. Isto porque, em 2011 encontrava-se 47% do talhão com o nível baixo (24ha) e em 2012 foram 7,5ha, representando apenas 11,8% da área (Tabela 2). No nível médio, em 2011 tinha-se apenas 8,9% da área (3ha), tendo evoluído para 41,2% (21ha) em 2012. No nível alto, em 2011 se encontrava 44,1% (22,5ha) e evoluiu para 47% (24ha) da área do talhão. Assim, pode-se destacar que a aplicação em taxa variável foi muito eficiente na elevação e na melhoria dos níveis de fósforo das regiões mais críticas, bem como elevando os níveis médios para altos, aumentando, assim, o potencial produtivo da cultura implantada.

Na avaliação do nutriente potássio não foram observados teores muito baixos nos dois anos. Isso pode estar relacionado ao fato de o tipo de solo da região ser rico nesse nutriente. Como o objetivo do trabalho previa a possibilidade de correção da variabilidade do mesmo, optou-se por fazer uma correção a taxa variável para 180mg/dm3 (Figura 2).

Figura 2 - Mapa de aplicação de potássio em 2011
Figura 2 - Mapa de aplicação de potássio em 2011

Os valores da Tabela 3 mostram que os teores mínimos e médios de potássio baixaram, sendo que o teor mínimo passou de 80mg/dm3 para 77mg/dm3 (classe baixo) e o teor médio baixou de 170,9mg/dm3 para 167,8mg/dm3 (classe alto). O teor máximo subiu de 276mg/dm3 para 334mg/dm3 (classe muito alto). Porém, os valores encontrados permaneceram na mesma faixa de classificação para os dois anos. Quando avaliamos o CV observamos que o mesmo teve uma pequena elevação, pois em 2011 estava em 33,4% e em 2012 foi para 34,7%. Mesmo com estas pequenas variações encontradas entre os anos e os níveis mais baixo e médio terem diminuído, a lavoura não mudou a classificação dos níveis de K encontrados.

Isso pode ser explicado pelo fato de as aplicações de correção de K terem sido realizadas antes da semeadura do trigo e o produtor utilizou como adubação na linha somente MAP (08-48-00) na dose de 150kg/ha. Já o potássio foi disponibilizado na forma de ureia cloretada (30-00-20), juntamente com a primeira aplicação de nitrogênio na dose total de 180kg/ha em cobertura, com expectativa de produção em torno de 4ton/ha. Para a semeadura da cultura da soja, em 2011/12 o fertilizante utilizado foi o 00-25-15-08 (NPK+S), na dose de 250kg/ha. Esta foi uma opção do produtor que, por motivos econômicos, na hora da compra do insumo e em função de o solo se encontrar com níveis elevados de potássio, não utilizou a dose mínima de K2O que a cultura exporta numa produção média de 50 sacas por hectare.

A Tabela 4 mostra que os níveis de K encontrados em 2011 classificados no nível muito alto eram de 11,7% (6ha), subindo para 20,6% (10,5ha) da área do talhão em 2012. Em 2011 havia 61,7% (31,5ha) do talhão na classe alto, permanecendo em 2012. Isso mostra que a lavoura está com o maior percentual da área corrigido, comprovando, novamente, o uso eficiente da taxa variável a fim de diminuir a variabilidade existente no nível de potássio do talhão.

Diante dos resultados apresentados pode-se confirmar o que já vem sendo mostrado em diversos trabalhos em agricultura de precisão. A tecnologia de AP foi eficiente para identificar a variabilidade dos nutrientes avaliados no solo. Ainda, a aplicação em taxa variável de fósforo e potássio foi eficiente para diminuir a variabilidade destes nutrientes no talhão, sendo verificada elevação dos níveis dos mesmos após as correções.

 

Reges Durigon, Valmir Werner, Nema-UFSM; Olavo Gabriel Rossato Santi, Drakkar Solos


Artigo publicado na edição 174 da Cultivar Máquina

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