Aprenda a controlar a lagarta Helicoverpa armigera

Um ano após a detecção de H. armigera no Sul do Brasil, muitas lacunas ainda permanecem abertas a respeito do status dessa espécie exótica. Com intensidade de danos variável de acordo com a região de ocorrência, o manejo do inseto exige muita atenção e medidas racionais, como alternar, nas aplicações, inseticidas com diferentes mecanismos de ação, em relação aos sítios bioquímicos e fisiológicos dos insetos, com o objetivo de prevenir o desenvolvimento de populações resistentes da praga. 

Em se tratando de uma espécie exótica, que até bem pouco tempo não existia na região, um ano de experiência em campo e mesmo com o grande esforço de pesquisa feita e em andamento e os avanços de conhecimentos já obtidos, ainda é muito pouco o que se conhece sobre o status de Helicoverpa armigera, após o seu surgimento no Sul do Brasil.

Objetiva-se por meio deste texto divulgar o que foi possível aprender neste período após o aparecimento do problema, bem como apontar para dificuldades e lacunas existentes, no sentido de, em última instância, auxiliar no manejo desta praga e de minimizar seus danos à produção vegetal. Muitas perguntas têm sido feitas, como, por exemplo: ela veio para ficar? Será que vai ocorrer novamente? O que vai acontecer com ela no inverno? Ela vai ser praga de outras culturas além da soja? Será que o problema é tão sério como está sendo apresentado? Tem outras espécies de lagartas ocorrendo também?

As informações aqui colocadas em sua maioria são preliminares e precisam de confirmação. Algumas são decorrentes de pesquisas ainda em andamento. Outras, da vivência e da troca de experiência que o contato com agrônomos, técnicos agrícolas, profissionais que atuam em empresas de insumos e produtores tem permitido. Entende-se que diante do problema, não se pode sonegar o que vem se observando e aprendendo, mesmo que seja pouco e preliminar.

Antecedentes

A confirmação oficial da ocorrência de H. armigera no Rio Grande do Sul ocorreu na safra de soja 2013-14 (Salvadori et al, 2013; Salvadori et al, 2014a), quando esta lagarta veio à tona como problema e ficou muito evidente a sua presença nas lavouras, com ampla distribuição geográfica. Não se sabe exatamente em que ano ela teria surgido por aqui, todavia, é lógico admitir que os níveis verificados na safra passada resultaram de um processo de crescimento populacional cujo início ocorreu em anos anteriores.

Inicialmente, foi constatada como uma espécie de lagarta de difícil controle, cujos indivíduos sobravam nas aplicações de inseticidas feitas na cultura da soja para controle das lagartas de ocorrência comum. Especulou-se, em um primeiro momento, até em função das notícias que chegavam das regiões produtoras de soja do Brasil central, que se tratava da lagarta-da-maçã do algodoeiro (Heliothis virescens). Também foi cogitado que poderia ser a própria lagarta-da-espiga do milho (Helicoverpa zea), devido à semelhança morfológica entre as lagartas e os adultos. Outra possibilidade considerada foi de que poderia ser Helicoverpa gelotopoeon, espécie já constatada anteriormente no estado, que recentemente havia ocorrido em nível de praga em soja, na Argentina. Este tipo de situação, de dúvida sobre a taxonomia de espécies, é comum quando se trata de pragas novas, especialmente quando já ocorrem espécies semelhantes na região. Insetos dos gêneros Helicoverpa e Heliothis são considerados “afins”, pertencentes não só à mesma família (Noctuidae) como também à mesma subfamília (Heliothinae), razão pela qual são denominados de heliotíneos. Um exemplo que ilustra esta proximidade taxonômica é que a lagarta-da-espiga do milho, atualmente denominada como Helicoverpa zea, já foi Heliothis zea.

Dinâmica populacional

Antes mesmo da identificação precisa da espécie, o problema tomou proporções de praga de importância econômica na safra 2013-14, uma vez que sua existência no Rio Grande do Sul só foi oficializada em 19 de novembro de 2013 (Salvadori et al, 2013). Nesta mesma temporada, já no início de dezembro/2013, lagartas inicialmente sob suspeita e posteriormente confirmadas como sendo H. armigera, já tinham sido detectadas em níveis preocupantes em várias lavouras do norte do Estado. No mês de novembro, foram registradas várias ocorrências em lavouras de trigo de lagartas grandes comendo espigas, às vezes maduras, ou mesmo após a colheita, junto com os grãos colhidos. Lagartas grandes também foram registradas em canola e em linho, alimentando-se de estruturas reprodutivas. Em lavouras de soja, a primeira constatação na região norte do Estado ocorreu nos primeiros dias de novembro, em plantas recém-emergidas, de ovos e de lagartas pequenas, com menos de 1cm de comprimento. Antes disso, já tinham sido coletadas mariposas em armadilhas de feromônio no mês de outubro.

Inicialmente, devido ao hábito da lagartinha se abrigar no interior do ponteiro da soja, houve certa dificuldade de identificar qual seria o agente causal dos danos que apareciam nas folhas recém-abertas. O fato é que já no primeiro decêndio de dezembro/2013, a partir de amostras trazidas para identificação por técnicos e produtores ao Laboratório de Entomologia da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo, tinha-se registrado o problema em 33 municípios do Rio Grande do Sul e em alguns de Santa Catarina.

Tentando fazer uma generalização, no sentido de descrever a dinâmica populacional de H. armigera em relação ao ciclo da soja, mas já admitindo que ela varia de um local para outro, é possível descrever que após uma infestação inicial que se prolongou até meados de dezembro, o problema se estabilizou e, em torno de janeiro-início de fevereiro, coincidindo com um período de temperaturas excepcionalmente altas, voltou a crescer (Salvadori et al, 2014c). Posteriormente, no fim do ciclo da soja voltou a ocorrer um crescimento na infestação de lagartas. Embora em pequena intensidade, constatou-se a lagarta em espigas de milho e, após a colheita da soja, em soja guaxa, nabo-forrageiro, aveia-preta, maria-mole e buva. Esta flutuação populacional de lagartas correspondeu à abundância de mariposas coletadas em armadilhas de feromônio. Fato surpreendente, quando se perguntava em que época as mariposas iriam reaparecer após a estação fria, foi a coleta de mariposas durante o outono e o inverno, embora em número muito reduzido em relação ao ocorrido na estação quente. É necessário ressaltar que o inverno de 2014 não foi rigoroso, pelo contrário, foi ameno o suficiente para que pupas originassem mariposas em um período em que isso parecia improvável.

Na safra atual (2014/15), os eventos estão se repetindo: a captura de mariposas aumentou consideravelmente na primavera e, agora, na primeira quinzena de novembro, já foram constatados ovos e lagartas pequenas em lavouras de soja na região de Passo Fundo, Rio Grande do Sul.

No que diz respeito às espécies de heliotíneos que têm ocorrido, embora seja prematuro concluir a respeito, através da captura com armadilhas de feromônio para H. armigera distribuídas no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, se constatou 97,5% de H. armigera e 2,5% de H. zea (Salvadori et al, 2014b). Em armadilhas com feromônio para H. gelotopoeon, colocadas no campo em março de 2014, na área experimental da Famv, não foram capturados heliotíneos.

Como já foi registrado no Rio Grande do Sul (Salvadori et al, 2013), o controle biológico natural de H. armigera, mesmo se tratando de espécie há pouco introduzida, tem atingido níveis expressivos, especialmente devido ao parasitismo por dípteros e himenópteros. Levantamentos mais completos e precisos realizados em lavouras de soja de 16 municípios do Paraná, na safra 2013/14, evidenciaram um índice médio de mortalidade de lagartas de Helicoverpa pela ação de inimigos naturais de 60,9% (variando de 27,8% a 92,8%) (Correia-Ferreira et al, 2014).   

Biologia

Quanto à biologia de H. armigera para as condições locais, observações preliminares indicam que o período de incubação dos ovos varia muito pouco, ficando em torno de três dias. Os ovos inicialmente são claros, quase brancos, e vão escurecendo à medida que se aproxima a eclosão das lagartinhas. Estas, nascem com aproximadamente 2mm de comprimento, são de coloração creme e transparentes, tornando-se esverdeadas tão logo dão início ao consumo de folhas. A fase larval dura em torno de 14 dias a 18 dias, sendo que nos períodos mais quentes do verão constatou-se que a lagarta pode durar apenas 12 dias e atingir 40mm de comprimento. Existe uma variação muito grande na cor das lagartas, tanto em relação à coloração geral do corpo, como das listras e das pintas. A duração fase de pupa, que ocorre no solo, na estação quente, também não varia muito (dez dias a 12 dias). Tudo indica que o tempo para completar uma geração é mais determinado pela duração das lagartas, acrescido do tempo necessário para que as mariposas entrem em atividade reprodutiva (cópula e oviposição).

Dano e manejo

A intensidade do ataque de H. armigera nas lavouras de soja no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina variou muito conforme o local. Porém, a ocorrência de lagartas e de adultos em várias localidades e regiões indica que a espécie está amplamente disseminada em solo gaúcho e catarinense. Os danos, da mesma forma, variaram com a densidade das infestações e, principalmente, com o resultado das ações de manejo e controle empregados. Há, contudo, certa polêmica nesse sentido, havendo de um lado relatos de que os danos médios para os estados não teriam sido tão expressivos e, de outro, relatos de perdas médias significativas. Em situações que o controle não foi realizado ou não foi eficiente, há relatos de que as perdas teriam sido superiores a 30%, no rendimento de grãos. De fato, a quantificação das perdas causadas por pragas deve ser feita com metodologia apropriada e experimentalmente e os dados de pesquisa sobre os danos de H. armigera para as condições locais são poucos. Uma avaliação de danos realizada na área experimental da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária (Famv), em Passo Fundo, Rio Grande do Sul, permitiu estimar uma perda de 22,5% no rendimento de grãos da soja (Suzana et al, 2014b). Não há dúvidas de que a presença de H. armigera contribuiu para que o uso de inseticidas na última safra de soja atingisse a média de quatro a cinco aplicações e que, em alguns casos, até sete aplicações de inseticidas foram realizadas na cultura.

Existe ainda uma grande carência de informações sobre a eficiência comparada de inseticidas no controle de H. armigera. É comum se ouvir tantos comentários negativos como positivos sobre o resultado de controle proporcionado pelos mesmos produtos, indicando que isso depende muito das condições em que foram aplicados. Na falta de pesquisa, além do que é posicionado pelas empresas registrantes e/ou que comercializam os produtos inseticidas para soja, os próprios agentes de assistência técnica e produtores têm gerado informações, testando lagarticidas de diferentes grupos, químicos e biológicos. Isso, aliado aos poucos resultados de pesquisa existentes, embora não haja consenso, permitiu alguns avanços e indicativos em relação aos produtos que podem ser mais eficientes. Todavia, testes em nível de lavoura, além de estarem sujeitos a diferentes condições ambientais e operacionais, geralmente não têm o controle experimental (testemunha, sem aplicação) que permita comparações, fazendo com que os resultados nem sempre sejam convergentes e que persista muita dúvida a respeito.

Uma questão que não parece ser objeto de dúvidas reside no fato que o sucesso da aplicação de inseticidas não depende apenas da escolha do produto e do ajuste da dose. Depende muito do momento (tamanho das lagartas) e da qualidade (tecnologia, horário etc) da aplicação. Aplicações quando as lagartas ainda estão pequenas têm sido mais eficientes, inclusive evitando a repetição de aplicações e o aumento de doses devido a procedimentos malsucedidos por serem tardios. A aplicação preventiva (na ausência de pragas) não é a melhor opção, à medida que o alvo não está definido e que se perde em efeito residual. O monitoramento das lavouras com armadilhas de feromônio (mariposas), pelo exame de plantas (ovos e lagartas pequenas) e pelo método do pano de batida (em plantas maiores), é uma prática imprescindível para se obter bons resultados no controle de H. armigera.

Não se deve menosprezar o potencial do controle biológico, preservando inimigos naturais da praga através do uso de produtos seletivos ou do uso seletivo de produtos, especialmente nas primeiras aplicações que se fizerem necessárias. Nesse particular, o tratamento de sementes com certos inseticidas tem se mostrado eficiente para controle de lagartas neonatas de H. armigera (Suzana et al, 2014a), com a vantagem de ser seletivo. Outro cuidado importante a ser adotado é alternar, nas aplicações, inseticidas com diferentes mecanismos de ação, em relação aos sítios bioquímicos e fisiológicos dos insetos, com o objetivo de prevenir o desenvolvimento de populações resistentes da praga. 


José Roberto Salvadori, PPGAgro-Famv, Universidade de Passo Fundo, RS; Crislaine Sartori Suzana, PPGAgro-Famv-UPF


Artigo publicado em dezembro de 2014, na edição 187 da Cultivar Grandes Culturas. 

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