As pragas da batata

Em geral, a lavoura de batata é habitada por uma razoável quantidade de espécies de ácaros e insetos. A diversidade e quantidade variam de região para região, devido ao modo de cultivo, cultivares, clima etc. Tanto a parte aérea como a parte subterrânea da batata é hospedeira de diversas espécies, as quais podem causar expressivos danos, dependendo das condições climáticas e da variedade cultivada. No entanto, a importância de cada espécie varia nas diferentes regiões produtoras dos três Estados do sul do Brasil, embora se constatem diversas espécies de pragas, a quantidade relativa é, em geral, pequena. Pragas extremamente graves e limitantes em outras condições ainda não são problemas nesses Estados, incluindo-se a Traça da Batata e a Mosca Minadora. Não há dúvidas de que para se manter esta inestimável vantagem, tem-se que, cada vez mais, usar técnicas de controle alternativas aos inseticidas, minimizando e racionalizando o seu uso, tanto no espaço como no tempo.

O dano direto de pragas na batata deve-se: a) à alimentação nas folhas (folíolos), com redução da área fotossintética; b) à alimentação nas raízes e estolões, com redução da área de produção; c) à alimentação nos tubérculos, com redução da produção quali-quantitativa.

O dano indireto é causado devido à transmissão e à predisposição da planta para a incidência de doenças viróticas, bacterianas e fúngicas. Assim, os ácaros e insetos pragas da batata são importantes comprometedores da produção e da produtividade da lavoura.

As principais pragas da parte aérea da batata são: Vaquinha, Burrinho, Pulga, Traça, Pulgão, Mosca Minadora e Ácaro (Figura 1 - veja no final do texto como visualizar este artigo em PDF). Ocorrem de maneira localizada e, sob certas condições de clima, cultivar, sistema de plantio etc., constituem-se em um fator de redução econômica da produção. Todavia, as pragas da parte área da batata não podem e não devem ser consideradas de ocorrência generalizada, o que levaria ao uso sistemático de medidas imediatistas de controle (= aplicação de inseticidas). Há evidências de que grande parte da batata cultivada no Sul, especialmente na safra de outono, não necessita de aplicação sistemática de inseticida na parte área.

A tomada de decisão para o controle de pragas aéreas através de inseticidas, deve basear-se na constatação e no monitoramento da lavoura. Embora não se tenha determinado os níveis econômicos das perdas, os determinantes para a tomada de decisão e de ação de controle devem basear-se na constatação e na extensão da presença.

As principais pragas que atacam o sistema subterrâneo da batata (raízes, estolões e tubérculos) são as larvas de Vaquinha e de Pulga, além do Bicho Arame, Coró e Lagarta Rosca (Figura 1).

O dano causado pelas pragas de solo, geralmente, refere-se à perda da aparência do tubérculo, embora quando ocorre ataque prematuro nos estolões e tubérculos, soma-se uma considerável redução de produção. Em geral, o mercado de batata está cada vez mais exigente quanto à aparência do produto, incluindo a quase total ausência de furos e de outras lesões no tubérculo, daí a grande importância do controle das pragas de solo.

Este artigo trata da caracterização morfológica, de aspectos biológicos, do hábito de vida, do dano causado e do manejo das pragas da batata:

1) CIGARRINHA Empoasca spp.

Os adultos são insetos pequenos, com cerca de três milímetros de comprimento, com corpo alongado. As asas, quando fechadas, formam um tipo de "telhado" lateralmente ao corpo. São de cor geral verde-pálida a verde-prateada.

Vivem na face inferior dos folíolos e alimentam-se da seiva da planta. Também injetam saliva tóxica na planta, causando a paralisação do crescimento, o encarquilhamento e a necrose dos folíolos e folhas. Esta necrose típica é de cor marrom com bordas amarelas, chegando até as margens dos folíolos. As plantas atacadas podem morrer prematuramente.

Assim como os pulgões, as cigarrinhas também podem transmitir viroses.

A infestação na lavoura é desuniforme e acontece em reboleiras. As formas de se constatar a presença de cigarrinhas podem ser por amostragem de folhas e visualização direta na parte inferior do folíolo, mais junto à nervura central; através de redes entomológicas; armadilhas amarelas de água ou pegajosas. Ao se tocar nas plantas infestadas, as cigarrinhas voam imediatamente a curtas distâncias, em vôos rápidos e diretos.

O ataque de cigarrinhas em lavouras de batata é esporádico e parece ser favorecido por clima quente e úmido.

2) PULGÕES

Algumas espécies de pulgões colonizam as plantas de batata, destacando-se o Myzus persicae (Sulzer); Macrosiphum euphorbiae (Thomas); Aphis gossypii (Glover) e o Aulacorthum solani (Kltb.); sendo as duas primeiras espécies as mais importantes.

O M. persicae é capaz de transmitir mais de 100 espécies de vírus de plantas em, aproximadamente, 30 famílias diferentes, incluindo culturas de caráter econômico no mundo inteiro, sendo considerado como o mais importante vetor de viroses na cultura da batata. É vetor de vírus tais como o PLRV, o PVY, o PVA e o PVM. Esses vírus são apontados como os mais importantes vírus da batata e os principais responsáveis pela degenerescência da batata.

Nas regiões subtropicias e tropicais, o M. persicae se reproduz de forma assexuada durante o ano todo, porém, machos de M. persicae foram capturados em armadilhas em várias regiões do Brasil, o que caracteriza a possibilidade da presença de populações sexuadas nos hospedeiros primários durante os meses mais frios do ano, principalmente na região sul do país.

Os pulgões se apresentam em duas formas básicas quanto à estrutura de seu corpo, ou seja, têm formas aladas (com asas) e ápteras (sem asas). Isto acontece, basicamente, em resposta a condições do local onde estão vivendo, quer seja da planta em si, quer seja do clima. Geralmente, quando acontece uma condição de estresse da planta hospedeira ou uma mudança repentina da temperatura, surgem as formas aladas.

O M. persicae, sem asas, tem o corpo de formato ovóide, de cor geral verde clara a verde transparente, sem manchas no corpo. Porém, em muitas regiões produtoras de batata têm se observado populações ápteras de coloração rosada ou avermelhada, sobretudo nos cultivos de outono. A forma alada mantém a cor geral do corpo verde clara, com tonalidades amareladas, rosadas, roxas e com manchas escuras características no dorso. A cabeça e o tórax são de cor preta (Figura 3).

A duração do ciclo de M. persicae, com temperatura média entre 23 e 240C, é de cinco a oito dias, com longevidade média de 20 dias. A fêmea é capaz de produzir até 80 descendentes.

O M. euphorbiae é outro importante vetor de viroses em batata e capaz de transmitir o vírus PLRV e o PVY. Possui o formato do corpo ovóide alongado, de coloração geral esverdeada, com extremidades do corpo escuras. Quando alado, possui a cabeça e o tórax verde-amarelado e o abdômen rosa-esverdeado, sem manchas.

Os prejuízos causados pelos pulgões em batata não se restringem à transmissão de viroses. A alimentação de M. persicae, na folhagem, podem ser severas, dependendo da ocasião na qual ocorre a infestação; durante o período de desenvolvimento da planta. A saliva de M. persicae e de M. euphorbiae tem ação toxigênica nas plantas, induzindo o aparecimento de necroses, principalmente ao longo das nervuras.

A colonização de uma planta de batata no campo, por pulgões, é considerada como dependente do estado fisiológico da planta. Assim, o M. persicae tem o seu foco inicial de colonização localizado invariavelmente nas folhas inferiores da planta, e daí, se vai dispersando para as folhas da parte superior à medida que estas passam para o estágio senescente. O M. euphorbiae prefere as folhas superiores, brotos e as inflorescências das plantas de batata.

No armazém, os brotos de batata semente podem ser colonizados, principalmente, por A.solani e M. persicae.

No monitoramento de pulgões alados, infestantes ou não da cultura da batata, são utilizados diversos tipos de armadilhas, em muitas das quais a atração exercida pela cor tem fundamental importância. Os pulgões que infestam as plantas de folhas largas são mais atraídos pela cor amarela (amarelo canário), incluindo M. persicae e M. euphorbiae. Baseadas na atração pela cor, são comumente utilizadas as armadilhas amarelas de água e adesivas planas e cilíndricas. As armadilhas de sucção, auxiliadas ou não pela cor, são muito utilizadas em outros países.

O número de pulgões coletados em armadilhas, principalmente M. persicae, tem relação com a infecção de PLRV nas plantas de batata, considerando a idade das últimas, na qual se observou a revoada, porém não há relação com o PVY. Isso se deve, provavelmente, ao fato de que o PVY é transmitido por diversas espécies de pulgões vetores de vírus. No entanto, não há um nível confiável de controle de pulgões em batata baseado nas coletas através de armadilhas ou na população de pulgões nas plantas, para as condições brasileiras.

A utilização de dados climáticos e do monitoramento através de armadilhas pode resultar na previsão de revoadas de pulgões vetores de viroses em batata. As maiores revoadas de M. persicae têm ocorrido quando a temperatura média encontra-se entre 18 e 240C e coincidido com a existência de plantas jovens em campos de batata semente, por exemplo.

O controle de pulgões em batata semente deve ser muito rigoroso, não permitindo o desenvolvimento de colônias nas plantas, já nas áreas de batata consumo, pode-se aceitar populações maiores. No entanto, não há nível de controle estabelecido para as condições brasileiras.

Para as áreas de produção de batata semente é importante adotar uma série de medidas visando o controle cultural dos pulgões e das viroses. Inicialmente, a área escolhida deve apresentar baixa degeneração ou baixa atividade dos vetores, o que pode ser conhecido através de um estudo com armadilhas. A presença de ventos constantes é uma característica desejável. A adubação deve ser equilibrada, evitando-se, principalmente, o uso excessivo de nitrogênio, o qual mascara os sintomas de viroses e beneficia o crescimento das colônias de pulgões. Evitar o estresse hídrico, que favorece a alimentação dos pulgões até certo ponto. Durante o cultivo, as plantas com sintomas de viroses e também as plantas voluntárias e plantas daninhas devem ser erradicadas e descartadas longe da área de produção. A dessecação das ramas deve ser realizada não somente para parar o crescimento dos tubérculos como também para evitar a descida do vírus para os mesmos.

No controle químico M. persicae deve-se optar pelo uso de inseticidas com modos de ação distinta, em rotação, na parte aérea. Inseticidas granulados ou aplicados via líquido podem ser utilizados no sulco de plantio ou após a emergência inicial das plantas ou, ainda, durante a amontoa. Existem estudos que comprovam a redução na transmissão de viroses não persistentes com a aplicação sistemática de óleo mineral. Porém, as dosagens e o número de aplicações não estão ainda definidos para as nossas condições, o que pode acarretar fitotoxicidade, dependendo, principalmente, da temperatura do ambiente e da variedade cultivada.

O PLRV, vírus do tipo persistente ou circulativo, é controlado eficientemente com inseticidas. Esse vírus não é transmitido durante a picada de prova que o pulgão faz na planta logo após o pouso, dando ao inseticida a oportunidade de atuar. O pulgão adquire o vírus ao se alimentar em plantas infectadas e, após um período de latência, passa a transmiti-lo durante toda a sua vida.

O controle de PVY através de inseticidas é limitado. O PVY, vírus não persistente ou não circulativo, é transmitido durante a picada de prova, não permitindo a atuação do inseticida antes que a transmissão seja efetuada. O pulgão também adquire o vírus em plantas infectadas, porém não há período de latência e o inseto permanece virulento até, aproximadamente, uma hora.

As falhas no controle de M. persicae, na maioria das vezes, estão ligadas ao seu hábito de colonizar preferencialmente as folhas inferiores das plantas, o que dificulta a penetração da calda inseticida e também a translocação do mesmo em folhas mais velhas. O momento da intervenção e a qualidade da pulverização são fundamentais para o controle desse inseto.

No entanto, as falhas no controle de M. persicae também podem estar relacionadas ao uso indiscriminado de inseticidas na cultura da batata. Essa prática, além de acarretar danos ao meio ambiente e elevar os custos de produção, contribuem na seleção de populações de M. persicae resistentes a inseticidas. Nas principais regiões produtoras de batata do Brasil têm sido observadas grandes populações do pulgão, particularmente no final de ciclo, em áreas onde foram aplicados diversos inseticidas em várias ocasiões. A realidade é que de usados os inseticidas passaram a ser abusados no controle de pulgões.

A presença de populações de M. persicae resistentes a inseticidas, em áreas de produção de batata semente, pode resultar no aumento de viroses.

É importante ter em mente que, no sul do Brasil, as infestações mais constantes e severas de pulgões acontecem no período de plantio da primavera e a ocorrência dá-se, geralmente, em manchas (reboleiras). Por essa razão, a lavoura deve ser monitorada, através de armadilhas e/ou inspeção visual.

A mosca minadora, Liriomyza huidobrensis (Blanchard), é uma séria e limitante praga da batata em muitos países das Américas e no Caribe. O uso intensivo de inseticidas fez com que a mosca minadora atingisse níveis populacionais elevados e, em certos casos, chegasse a inviabilizar o cultivo da batata, como aconteceu em algumas regiões do Peru. Citam-se inúmeros casos de resistência desta praga a inseticidas. A possibilidade do desenvolvimento de resistência a inseticidas é grande onde quer que seja, todavia não há comprovação de caso de resistência da mosca minadora na cultura da batata no Brasil.

O adulto é uma pequena mosca, de cerca de 2 mm de comprimento, de cor marrom-escura a preta, com brilho metálico e com características manchas amarelas no dorso e na cabeça (Figura 4). A larva é branca-creme, sem pernas e corpo liso e brilhante. O ciclo de vida é de cerca de 40 dias no outono e de cerca de 25 na primavera, porém pode ser completado em somente 19 dias, em períodos muito quentes. Várias gerações anuais ocorrem e cerca de 4-5 em cada ciclo vegetativo da batata podem ser desenvolvidas, razão pela qual é problema maior nos plantios de verão.

3) MOSCA MINADORA

A mosca minadora infesta e se desenvolve em mais de 40 hospedeiros, tais como beterraba, espinafre, girassol, melancia, melão, pimentão, couve flor, brócolis, alfafa, feijão, tomate e fumo, o que garante uma considerável e constante persistência no agrossistema.

O problema com a mosca minadora tem se tornado mais constante e maior nos últimos anos em várias regiões do Brasil, quer na cultura da batata quer em diversas outras. Acredita-se que isso deva acontecer devido ao ciclo de vida curto, a alta mobilidade, alta capacidade reprodutiva, os ovos e larvas estarem protegidos no interior das folhas, a não presença de inimigos naturais de alta eficácia nas lavouras e o uso intensivo de inseticidas.

A incidência e o desenvolvimento desta praga depende da cultivar de batata, porém, no Brasil, ainda não se sabe a duração do ciclo nas principais cultivares comerciais de batata, todavia, em trabalhos experimentais a variedade Monalisa foi a mais resistente e a Atlantic a mais suscetível, tanto em áreas tratadas com inseticidas, quanto em áreas não tratadas. As variedades Bintje, Jaette-Bintje e Crebella assumiram posições intermediárias quanto à incidência de mosca minadora. A ocorrência da mosca minadora durante tempo seco e quente favorece o rápido desenvolvimento e dano.

Os adultos são de hábitos diurnos e muito ativos nas horas da manhã.

O dano é causado pelo adulto e pela larva. As moscas fêmeas fazem dois tipos de puncturas ou "picadas" nos folíolos da batata, para oviposição e alimentação. As puncturas ou "picadas" têm sido utilizadas como indicativo da presença e para o controle da mosca. A constatação da presença de puncturas ou "picadas" pode ser importante no monitoramento da mosca minadora.

As minas, conseqüentes do hábito do movimento e da alimentação das larvas, aparecem primeiro nas folhas baixeiras das plantas, para depois, surgirem nas superiores.

A oviposição ocorre mais pela manhã e é feita na face inferior dos folíolos. Para tal, a fêmea introduz o ovipositor no folíolo, depositando o ovo e causando uma lesão. A cicatrização desta lesão produz um tipo de verruga, que também é uma característica indicativa, junto com as puncturas ou "picadas", do ataque da minadora. Plantas com muitas posturas e verrugas tornam-se de cor prateada-acinzentada.

As "picadas", puncturas, verrugas e minas ocasionadas pela mosca minadora reduzem a área foliar, causam a morte de folíolos, das folhas ou da planta inteira ou debilitam as plantas, tornando-as mais susceptíveis a doenças fúngicas.

O controle com inseticidas granulados sistêmicos aplicados na ocasião da amontoa, certamente, manterá as plantas livres da minadora, pelo menos, por cerca de 30 dias.

Todavia, o controle químico da mosca minadora tem sido realizado com inseticidas fosforados, carbamatos, piretróides, reguladores de crescimento e outros, tanto de uso isolados como em mistura de tanque.

É fundamental, tanto como a escolha do inseticida, a hora e a forma de aplica-lo na lavoura. Aplicações no período da manhã tendem a ser muito mais eficazes, pois é quando os adultos e larvas são mais ativos. O uso de bicos e barras de pulverização inadequadas com a localização, o modo de ataque da mosca minadora e a fase do desenvolvimento das plantas, tem resultado na ineficácia da aplicação de inseticidas pois, por exemplo, se aplicado somente na camada superior de folhas, a eficiência só poderia ser observada na parte superior das plantas, embora a maior e mais intensa infestação estivesse nas partes inferiores, onde ocorrem as primeiras minas. Dosagens inferiores ou superiores às recomendadas, o momento e o modo da aplicação têm sido as causas dos fracassos no controle da mosca minadora e, principalmente, da necessidade de repetições de aplicações na mesma planta e na mesma safra.

Não há, até o presente, nível de controle para a mosca minadora na cultura da batata. Geralmente, o início das aplicações de inseticidas é em base da presença de adultos, puncturas ou "picadas", de minas etc.

Armadilhas adesivas podem ser utilizadas para monitorar a mosca adulta, porém ainda não há uma relação estabelecida entre as capturadas e o nível de controle. Para efeito de monitoramento e também de controle é usado, em alguns países, armadilhas feitas com lonas plásticas, madeiras, galões ou outros recipientes redondos de cor amarela, branca ou verde e untada com graxa (preferencialmente transparente) ou vaselina industrial. Independente da cor da armadilha, estas coletam mais moscas machos do que fêmeas, porém as armadilhas amarelas coletam maiores quantidades de moscas fêmeas, o que é uma vantagem em termos de retardar a disseminação da infestação na planta ou na lavoura.

O manejo dos restos culturais através da sua incorporação no solo é de grande importância no manejo, pois esses abrigam o estágio de pupa ou larva da mosca minadora, servindo de fonte para a disseminação para outras áreas da lavoura ou para áreas vizinhas.

4) TRAÇA

Duas espécies de traças Phthorimaea operculella (Zeller) e Tuta (Scrobipalpuloides) absoluta (Meyrick), são mencionadas atacando a batata na América do Sul. P. operculella, que tem distribuição cosmopolita e T. absoluta, que restringe-se aos países sul-americanos. Ambas espécies existem no Brasil, porém o ataque em batata é esporádico e localizado. Não se conhece caso em que a traça da batata seja uma praga generalizada nas lavouras. Assim, é importante conhecer as suas características e seus danos, para certificar-se da efetiva presença.

A mariposa destas duas espécies tem o corpo de cor castanha-cinza-pálida e algo prateada, com manchas mais escuras nas asas, que lembram um X na espécie P. operculella, com franja de pêlos nas bordas das asas e longas e finas antenas (Figuras 5 e 6).

Phthorimaea operculella constitui um sério problema em regiões de clima quente, danificando a folhagem e os tubérculos de batata, sendo que temperaturas entre 25oC e 30oC são favoráveis ao desenvolvimento da espécie.

P. operculella ataca os folíolos, os talos e os tubérculos, na lavoura e no armazém, enquanto que T. absoluta restringe-se somente aos folíolos. Além da batata, essas duas espécies de traças atacam diversas outras culturas, tais como o tomate, fumo, berinjela, beterraba e pepino.

O ciclo de vida se completa em 20 a 30 dias. Anualmente, podem desenvolver-se diversas gerações, dependendo da disponibilidade de hospedeiro e da temperatura. Quanto mais quente, maior e mais rápido é o desenvolvimento.

Os ovos são pequenos (0,5 mm), de formato oval-achatado, de cor branca-creme e são depositados em diversos locais da planta, tais como na face ventral do folíolo, nos talos, nos tubérculos, além do armazém, em caixas, paredes, madeiras, estrados. Normalmente, a postura é de um só ovo, porém pode ocorrer a oviposição de maior número. Em cerca de cinco dias após o ovo ter sido depositado, nascem as lagartinhas.

As lagartas são fáceis de serem reconhecidas. Quando bem desenvolvidas, medem cerca de 1 cm de comprimento. O corpo tem coloração branca-verde-amarelada cabeça marrom escura. A superfície dorsal da lagarta é de cor esverdeada à rosada e algo pálida-translúcida. A fase de lagarta dura cerca de 12 a 14 dias.

As mariposas voam, principalmente à noite. Durante o dia se refugiam em lugares protegidos da luz, razão pela qual é difícil de se observar as mariposas das traças durante o dia. Quando molestadas, durante esse período, têm vôos curtos e desorientados.

As traças atacam a batata na lavoura, onde as lagartas penetram e causam minas ou galerias nos folíolos, talos e tubérculos. Somente as lagartas causam danos.

As lagartas penetram na folha e se alimentam do parênquima, minam internamente os talos, e estes danos causam a perda do tecido foliar, ruptura dos talos e a morte dos pontos de crescimento da planta. Os tubérculos expostos são facilmente atacados na lavoura. As mariposas colocam seus ovos juntos às gemas do tubérculo e, para isso, podem entrar nas cavidades do solo para efetuarem a postura.

As lagartas fazem galerias ou túneis no interior do tubérculo, sendo irregulares na forma, tamanho e profundidade. As lagartas emergem e penetram na batata através destes locais. Sobre o tubérculo, junto aos olhos ou gemas, ficam excrementos característicos, ou seja, do tipo pó de serragem grudada em finos fios "tipo de seda".

A infestação ocorre na lavoura e se alastra no armazém, rápida e intensamente, especialmente em ambiente escuro, onde ocorre os maiores danos. Uma lagarta pode atacar e destruir mais de um folíolo, porém ataca somente um tubérculo ou um talo.

Dentre as principais pragas da batata, P. operculella talvez seja a espécie com as maiores possibilidades de um eficiente manejo, devido às diversas táticas de controle disponíveis, sejam práticas culturais, uso de feromônios e inimigos naturais ou controle químico. Por exemplo: Plantar sementes sadias. Dentro dos armazéns os tubérculos continuam sendo infestados pela traça. O plantio destes tubérculos reconduz ovos, lagartas e pupas para o campo, constituindo importantes focos de disseminação da praga na lavoura. Adicionalmente, sementes sadias originam plantas com maior capacidade de suporte ao ataque de pragas e doenças, potencialmente mais produtivas, com maior número de hastes e de tubérculos, reduzindo-se o percentual de dano causado pela traça. Preparar adequadamente o solo evita a formação de torrões que servirão de abrigos a adultos da traça e possibilita o plantio a uma profundidade adequada. Plantar na profundidade adequada à época. Plantios muito profundos retardam a emergência dos brotos, prolongando o ciclo da cultura e, conseqüentemente, o tempo em que as plantas permanecem suscetíveis ao ataque da praga. Por outro lado, plantios muito rasos facilitam o acesso de adultos e lagartas da traça aos tubérculos, principalmente no final do ciclo da cultura, quando os camalhões já estão desgastados. Realizar uma amontoa adequada. A amontoa é importante barreira física , dificultando o acesso de adultos e lagartas da traça aos tubérculos e deve ser realizada de modo a evitar-se a formação de fendas e gretas. Com o crescimento das plantas, o engrossamento das hastes e desenvolvimento dos tubérculos mais superficiais, abrem-se fendas e rachaduras nos camalhões, principalmente junto ao colo das plantas, por onde as fêmeas e lagartas da traça podem alcançar os tubérculos mais profundos. Maior importância ainda tem a amontoa, quando considera-se que há variedades que têm por característica emitir estolões superficiais; estas são geralmente mais suscetíveis ao ataque da traça do que as variedades que lançam estolões mais profundos.

Em solos úmidos, há uma adesão maior das partículas, com conseqüente redução de fendas e gretas. Assim, a irrigação por aspersão, diminuindo as rachaduras no solo, dificulta o acesso de adultos e lagartas aos tubérculos. Em áreas em que se dispõe de irrigação por aspersão, deve manter-se o solo úmido, mesmo após a dessecação das plantas, como medida de prevenção aos danos nos tubérculos, principalmente se o período entre a dessecação e a colheita for alongar-se. Adicionalmente, as lagartas não toleram condições de umidade prolongada.

Desta forma, o uso de irrigação durante períodos de seca, favoráveis à praga, constitui-se em eficiente método de controle Eliminar outros hospedeiros da traça das proximidades das lavouras, principalmente outras espécies de solanáceas. Restos de cultura, tubérculos não colhidos ou descartados durante a colheita e plantas voluntárias (socas) são fontes de alimento e abrigo para a traça, mantendo populações da praga nas áreas de plantio, entre uma safra e outra. Não atrasar a colheita, pois após a dessecação das plantas as lagartas da traça descem para o solo, infestando os tubérculos, e as fêmeas, na ausência de plantas verdes, buscam os tubérculos expostos e os mais superficiais para realizarem as posturas.

Durante a lavagem e classificação, separar e eliminar os tubérculos infestados. Armazenar em locais limpos, desinfetados e protegidos. Populações da traça encontram condições favoráveis em armazéns sujos e mal manejados. A limpeza e desinfestação do armazém e caixarias, através de pulverizações e expurgos, evitará o plantio de tubérculos infestados e a conseqüente reinfestação das lavouras pela traça. O uso de telas impedindo o acesso dos adultos da traça aos armazéns, às caixas e sacarias, após a desinfestação, evita novas posturas nos tubérculos. O armazenamento em câmaras frias reduz a infestação nos tubérculos, uma vez que o ciclo de vida de P. operculella é interrompido em temperaturas inferiores a 10 o C. Armadilhas luminosas equipadas com lâmpadas "luz negra UV" têm sido empregadas com sucesso em armazéns para atrair e eliminar adultos da traça.

Além destas práticas culturais e os cuidados durante o beneficiamento e armazenamento dos tubérculos, duas outras táticas de controle podem ser inseridas em um programa de manejo da traça da batata: o uso do feromônio sexual e o controle biológico.

Lagartas de P. operculella têm entre seus inimigos naturais várias espécies de parasitóides e predadores, que contribuem efetivamente para a redução da população da praga nas lavouras. Contudo, em termos práticos, o controle biológico da traça da batata tem se fundamentado no uso do Baculovirus phthorimeae. Tubérculos são tratados com formulações do vírus e as lagartas, após infectadas, tornam-se lentas, deixando de alimentar-se e morrendo em poucos dias.

Embora eficientes todas essas táticas aqui discutidas, o controle da traça baseia-se larga e quase que exclusivamente no uso de agroquímicos. Princípios ativos dos grupos dos carbamatos, fosforados, piretróides, além de fisiológicos e microbianos, estão registrados para o controle de adultos e lagartas de P. operculella em batata e outras culturas. O correto emprego destes produtos envolve o uso das doses recomendadas, as épocas corretas de aplicação, a observância dos períodos de carência e a rotação dos ativos de modo a evitar-se o surgimento de populações resistentes aos inseticidas. Os próprios hábitos das lagartas, alimentando-se em folhas baixeiras, protegidas no interior de galerias e ocultando-se em "casulos", torna mais difícil aos inseticidas atingirem com eficiência o alvo biológico. O uso de bicos leque, de preferência AI, pressão adequada para o tipo de bico utilizado e velocidade de pulverização compatível determinarão uma maior eficiência no controle químico da traça da batata.

5) BURRINHO Epicauta atomaria (Germar)

São besouros de corpo oval-alongado, cor cinza e com várias manchas escuras nas asas. O aspecto geral é aveludado (Figura 7).

As fêmeas depositam os ovos no solo, sempre em grupos de 50 a 80. As larvas se desenvolvem no solo, porém não atacam ou comem qualquer parte da planta de batata. Os adultos normalmente chegam em grandes revoadas (bando) na lavoura de batata e também, curiosamente, saem, subitamente, em bando. Comem vorazmente as folhas da batata, principalmente as mais jovens, situadas no terço superior da planta. A infestação ocorre em manchas ou focos dentro da lavoura, muito raramente estendendo-se por grandes áreas. Sob determinadas condições, como no início do período vegetativo, em lavouras pequenas, a desfolha brusca e intensa causada por burrinhos pode ser total, ficando somente as nervuras das folhas e talos da planta, o que, sem dúvidas, levaria à redução da produção e até a morte precoce da planta.

6) BICHO DA TROMBA DE ELEFANTE Phyrdenus muriceus (Germar)

Os adultos são cascudos de tamanho médio, corpo compacto, de cor geral cinza-escuro. A superfície do corpo é coberta de tipo de "espinhos" e tem aparência fosca. Possuem, na parte inferior da cabeça, uma longa "tromba", algo que pode caracterizá-los e daí, o seu nome vulgar de bicho da tromba de elefante. As larvas são brancas-creme, com muitos pêlos na superfície do corpo, cabeça de cor marrom-escura. Quase sempre permanecem encurvadas, lembrando um C (Figura 8). A infestação tem sido freqüente nas lavouras de batata da região sul do RS.

Os adultos podem consumir as folhas, deixando-as rendilhadas, bem como atacar e perfurar os talos da planta de batata. As larvas atacam os tubérculos, cavando galerias curtas (mais ou menos do tamanho do seu próprio corpo). Ao seguirem comendo a polpa do tubérculo, produzem um tipo de câmara, onde as larvas permanecem.

Não se conhece o comportamento, ciclo de vida e demais informações sobre esta praga, em geral, esporádica da batata.

7) LAGARTA ROSCA Agrotis spp.

Os adultos são mariposas, de cor geral cinza-escura, com manchas escuras e faixas mais claras nas asas (Figura 9). A lagarta é de cor cinza-escura, com manchas claras no dorso, corpo liso e brilhante.

As fêmeas adultas depositam os ovos no solo e nas partes inferiores (rente ao solo) da planta de batata. As larvas, durante os primeiros estágios de desenvolvimento, se alimentam das folhas que estiverem junto ao solo, e após desenvolvidas, passam a agir como lagartas cortadeiras, cortando os talos das planta, atacando e consumindo os tubérculos mais superficiais. As lagartas são ativas durante a noite, e, durante o dia, se refugiam no solo, junto à planta de batata.

A infestação de lagarta rosca está influenciada por diversos fatores, tais como a textura do solo (ocorre especialmente em solos soltos e arenosos); a umidade do solo (solos de boa drenagem e capacidade de se manterem arejados); temperatura do solo (em períodos secos e de intensa insolação, pode haver mortalidade e/ou redução de dano); hospedeiros alternativos antecedentes e precedentes à batata que podem favorecer a incidência e quantidade de lagarta rosca.

8) ÁCARO BRANCO Polyphagotarsonemus latus (Banks)

A fêmea adulta possui o corpo oval e convexo no dorso, mede cerca de 0,25 mm de comprimento por 0,15 mm de largura. A cor do corpo é muito variável, de branca-amarelecida, marrom-amarela a verde-clara ou escura.

O macho adulto apresenta as mesmas cores da fêmea e tem uma característica marcante no corpo, uma reentrância lateral (Figura 10).

As fêmeas depositam os ovos nos brotos terminais e na face ventral das folhas jovens, preferencialmente junto à nervura central da folha, formando colônias.

Os machos têm o comportamento de transportarem as fêmeas para outras partes da planta, o que ajuda a alastrar a infestação.

Há consenso que a infestação do ácaro branco em batata seja decorrência do desequilíbrio causado pelo uso constante e intenso de inseticidas na parte aérea da planta, como por exemplo, para controlar a mosca minadora.

A infestação do ácaro branco ocorre principalmente durante períodos secos e em lavouras com desenvolvimento avançado (após a amontoa). Embora a infestação sempre se inicie em manchas (reboleiras), pode-se alastrar rapidamente por áreas maiores ou toda a lavoura.

As plantas infestadas pelo ácaro tornam-se de cor verde-escura, sem brilho e de aspecto coriáceo, parecendo queimadas. Em seqüência a essa série de sintomas, as plantas morrem, podendo não formar tubérculos ou ficarem esses muitos pequenos.

9) PULGA Epitrix spp.

Considerados, até recentemente, como de menor importância, os prejuízos causados por insetos estavam restritos à bataticultura orgânica. Recentemente, registros de danos mais expressivos em lavouras convencionais demonstram o seu potencial como praga da batata. Considera-se a Epitrix fasciatus como a espécie mais freqüente, mas provavelmente outras espécies deste gênero (e mesmo de gêneros afins) estejam presentes nas lavouras de batata, causando danos em folíolos e tubérculos.

Os adultos são besouros com cerca de dois mm de comprimento, corpo ovalado, coloração castanha escura a preta, brilhantes (Figura 11). Ativos durante o dia, dispersam-se, especialmente nas horas mais quentes do dia. Vivem de 50 a 90 dias. Polífagos, atacam o fumo, batata, feijão e milho, entre outros hospedeiros. Alimentam-se das folhas, perfurando-as, abrindo orifícios arredondados, com um a três mm de diâmetro. Em plantas jovens pode haver o desfolhamento total, uma vez que o ataque da praga é geralmente massivo, como os já ocorridos em lavouras de batata no Rio Grande do Sul, em que foram observados, em média, 70 adultos da pulga por planta.

Períodos secos e quentes, durante a primavera, parece favorecerem a incidência da pulga.

Infestações no período entre o início da brotação até antes da amontoa são as potencialmente mais prejudiciais, podendo causar dano econômico à cultura. Após esta fase, não haveria mais um nível de desfolha que viesse a comprometer a produção.

As fêmeas penetram o solo através de fendas ou rachaduras, ovopositando logo abaixo da superfície, nas proximidades das plantas. Os ovos têm cerca de 0,5 mm, cor branca, aspecto brilhante e são depositados em grupos.

Após uma a duas semanas eclodem as larvas. De coloração branca, são cilíndricas, com a cabeça castanha. Ao eclodirem medem cerca de 0,5 mm e em seu máximo desenvolvimento atingem cerca de 3,5 mm.

A fase larval transcorre no solo. Durante este período, as larvas alimentam-se de raízes, estolões e tubérculos. Solos arenosos e bem drenados podem favorecer as atividades da larvas, com conseqüente aumento de danos.

Nos tubérculos, escavam uma rede de estreitas galerias, sob a pele, que acabam por romper-se e escurecer. Nos pontos aonde estas galerias cruzam-se formam-se rachaduras mais ou menos profundas, dando ao tubérculo um aspecto rugoso, depreciando-o comercialmente. O ataque precoce nos estolões representa um sério dano, pois impede a formação dos tubérculos.

O desenvolvimento larval completa-se em quatro a seis semanas. As larvas empupam no solo e, entre uma semana a dez dias emergem os adultos, fechando um ciclo de vida de aproximadamente 50 dias. Assim, em batata, dentro de uma mesma safra, normalmente não se desenvolve mais do que uma geração completa.

10) BICHO ARAME Heteroderes spp.

Embora considerada praga de menor capacidade de dispersão e, portanto, de ocorrência mais restrita, tem ocasionado severos danos às lavouras de batata.

Os adultos têm hábitos noturnos, permanecendo durante o dia ocultos entre os folíolos de batata ou abrigados na vegetação vizinha ou em fendas no solo. Medem cerca de 15 a 20 mm de comprimento, têm o corpo alongado e achatado, coloração escura e a habilidade de retornarem à posição normal quando colocados de costas (Figura 12). Alimentam-se de líquidos adocicados e de matéria orgânica em decomposição.

Os ovos são colocados, normalmente em grupos, em cavidades e fendas no solo, sob restos vegetais ou junto às raízes de pastagens. As fêmeas ovopositam preferencialmente em áreas que não foram lavradas por longos períodos, tais como aquelas em pousio ou pastagens.

As larvas têm corpo alongado e achatado, coloração amarelada a castanha-alaranjada, aspecto brilhante e segmentos distintos e bastante quitinizados, rígidos.

São polífagas, alimentando-se de restos de cultura, sementes, raízes e tubérculos, atacando inúmeras espécies, tais como a batata-doce, cenoura, beterraba, restos de culturas, bem como plantas expontâneas.

O ciclo de vida é longo. As larvas levam cerca de seis a oito meses para se desenvolverem completamente.

As larvas danificam raízes e tubérculos da batata , causando, nos tubérculos, furos arredondados e profundos. Desenvolve-se melhor em solos com umidade alta. Em solos secos, as larvas procuram mais o tubérculo, causando maior dano. Assim, em períodos de seca, o dano do bicho arame pode ser maior.

A temperatura do solo é outro fator importante, pois influi na distribuição vertical das larvas no solo. Quanto mais quente, mais profundas estarão as larvas, atacando os tubérculos que estiverem nestas posições.

O ataque de bicho arame não é uniforme na lavoura, mas ocorre em manchas, onde houver condições mais propícias para o desenvolvimento, entre as quais a umidade elevada. As larvas têm o hábito gregário.

A movimentação das larvas no solo depende essencialmente da umidade. Assim, os danos tendem a ser maiores em solos demasiadamente secos, em safras em que ocorrem estiagens, uma vez que nestas condições os tubérculos seriam a fonte de alimento mais adequada para as larvas.

O período larval é longo, estendendo-se por cerca de seis meses a um ano, quando as larvas, ao final de seu desenvolvimento, atingem cerca de 25 a 30 mm de comprimento.

11) CORÓ Dyscinetus spp.; Euetheola humilis (Burmeister)

Assim, normalmente, as populações de larvas já estão estabelecidas nas áreas destinadas ao plantio da batata, podendo retardar o desenvolvimento da lavoura ou prejudicarem a brotação, ao atacarem o sistema radicular e hastes de plantas novas e/ou os tubérculos-semente.


Os adultos são cascudos de corpo ovalado, cor variando de marrom-escura a preta. Há diferenças no tamanho, tonalidade de cor e aspecto geral entre o macho e a fêmea, podendo confundir e dar a idéia de serem diferentes espécies. As larvas são de cor branca-creme, com muitos pêlos no corpo, formato arredondado e se posicionam à semelhança de U, tendo no final do corpo um "tipo de saco de terra" (Figura 13). As larvas vivem no solo em profundidades variáveis, chegando-se a encontrá-las a cerca de um metro da superfície.

Os adultos não comem folhas, raízes ou tubérculos da batata. As fêmeas fazem a postura no solo. As larvas se alimentam das partes subterrâneas da batata (raízes e estolões). Quando bem desenvolvidas, podem atacar com grande voracidade os tubérculos.

Ainda não se conhecem as condições que favorecem a infestação de Coró. Se for encontrada grande quantidade de larvas durante o preparo do solo, é aconselhável tomar-se medidas de controle preventivo, como gradear mais uma ou duas vezes e/ou usar inseticidas de solo.

12) VAQUINHA

Diabrotica speciosa (Germar) é importante praga na maioria das regiões produtoras de batata do sul do Brasil, danificando tanto a parte aérea quanto os tubérculos.

Os adultos são besouros com corpo oval, cor verde, com seis manchas amarelas nas asas, três em cada lado (Figura 14).

De hábitos diurnos, são particularmente abundantes nas estações quentes e chuvosas, as populações aumentando a partir de agosto e decrescendo após maio nas condições do sul do Brasil. Chegam às lavouras de batata em sucessivas migrações, a partir de áreas de milho, feijão, soja, fruteiras etc.

As populações mantém-se ativas durante todo o ano, sendo mais ou menos abundantes em função, principalmente, da disponibilidade de alimento e da temperatura e umidade. Assim, há várias gerações anuais, usualmente de seis a oito, desenvolvendo-se em um ou múltiplos hospedeiros.

A vaquinha é extremamente polífaga, ataca mais de 30 espécies, incluindo feijão, milho, abóbora, melancia, melão, pepino, tomate, frutíferas, entre outras. Possui atividade durante todo o ano, sendo que a quantidade dependerá da presença do hospedeiro e da temperatura.

O ciclo de vida é longo e depende do hospedeiro onde se desenvolve. Em batata, é de cerca de 40 dias na primavera e de 50 no outono. Várias gerações se desenvolvem anualmente, quer em um só hospedeiro como em múltiplos.

Os adultos atacam somente a folhagem, consumindo os folíolos. Ainda não se conhece o dano econômico que isto possa causar em cultivares de batata. Sabe-se, entretanto, que quando o ataque de adultos da vaquinha acontece no inicio do ciclo de desenvolvimento da batata a perda provável é pequena, quando acontece no meio do ciclo, pode haver redução na produção e, quando acontece na fase final do ciclo, não há influência alguma na produção.

As larvas são de corpo alongado, cor branca-creme, com pêlos, cabeça preta e têm uma placa preta na extremidade posterior. As larvas atacam e causam dano nos estolões e tubérculos da batata. Quando o ataque se dá na ponta do estolão, não há formação do tubérculo. Algumas cultivares, como a cultivar Macaca, emitem uma maior quantidade de estolões, que podem compensar a formação de tubérculos na planta.

Assim, nas lavouras de batata, o ciclo varia, usualmente, entre 40 a 50 dias, sendo, em condições normais, mais curto durante a safra primavera (verificam-se até duas gerações na safra) e mais longo durante a safra plantada ao final do verão ou no outono.

Há influência de culturas antecedentes ao plantio de batata, na incidência da praga. O alho, a cebola e o milho diminuíram a incidência, quando comparadas ao feijão, soja, batata e pousio.

CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE CONTROLE DAS PRAGAS DE SOLO

O controle de pragas de solo, tradicionalmente, baseia-se no emprego de inseticidas aplicados nos sulcos de plantio e/ou por ocasião da amontoa e posteriores pulverizações foliares, visando controlar tanto as larvas que se encontram no solo quando da instalação da lavoura, tais como corós e bicho-arame, como aquelas que chegam após o plantio, entre as quais, vaquinhas, pulgas e burrinhos.

Inseticidas dos grupos dos fosforados, dos carbamatos, dos piretróides e do fenil-pirazol estão registrados para o uso nas lavouras de batata, propiciando a rotação de ativos com diferentes modos de ação, evitando-se ou retardando-se o surgimento de populações resistentes a um ou mais produtos. Carbamatos e fosforados estão relacionados com a inibição da acetilcolinesterase, enquanto piretróides com o bloqueio dos canais de sódio e o fenil pirazol com o bloqueio dos canais de cloro.

Uma vez que se tem buscado ativos com baixa mobilidade no solo, a distribuição do produto nos sulcos de plantio, principalmente quando se empregam inseticidas granulados, deve merecer especial atenção de modo que a proteção aos tubérculos seja completa. Se a opção for pulverizar os sulcos de plantio, melhores resultados são obtidos com o uso de bicos leque, que distribuem o inseticida tanto no fundo quanto nas laterais dos sulcos.

A eficiência dos inseticidas granulados depende, entre outros, da umidade do solo e de suas características físicas e químicas, da dose a ser empregada e do método de distribuição, da polaridade da molécula, da densidade populacional da praga que se deseja controlar e da idade das plantas.

A aplicação de líquidos por ocasião da amontoa deve ser realizada antes que as plantas cresçam a ponto das folhas superiores encobrirem as inferiores, reduzindo a quantidade de calda que efetivamente chega ao alvo desejado.

Além dos fatores inerentes às características dos produtos, há a influência da tecnologia de aplicação (volume de calda, bicos, pressão etc) sobre a eficiência final do tratamento.

Vê-se, portanto, que devido às particularidades da própria cultura da batata e dos hábitos dos insetos de solo, as chances de sucesso no controle de pragas subterrâneas com inseticidas dependem de um amplo conjunto de fatores.

O preparo do solo expõe larvas, lagartas e pupas a inimigos naturais e a condições climáticas adversas, sendo importante tática dentro do controle cultural. Plantar sementes sadias que darão origem a plantas com maior capacidade de suporte ao ataque de pragas e doenças, potencialmente mais produtivas, com maior número de hastes e de tubérculos, reduzindo-se o percentual de dano causado pelas larvas e lagartas.

Preparar adequadamente o solo, sob condições adequadas de umidade, evita a formação de torrões que servirão de abrigos a adultos de vaquinhas e outras pragas.

Plantar na profundidade adequada à época. Plantios muito profundos retardam a emergência dos brotos, prolongando o ciclo da cultura e, conseqüentemente, o tempo em que as plantas permanecem suscetíveis ao ataque das pragas. Por outro lado, plantios muito rasos facilitam o acesso de adultos e larvas de diabrotica, pulga e lagarta-rosca aos tubérculos.

Realizar uma amontoa adequada. A amontoa é importante barreira física, dificultando o acesso de adultos, larvas e lagartas aos tubérculos e deve ser realizada de modo a evitar-se a formação de fendas e gretas. Com o crescimento das plantas, o engrossamento das hastes e desenvolvimento dos tubérculos mais superficiais, abrem-se fendas e rachaduras nos camalhões, principalmente junto ao colo das plantas, por onde os insetos podem alcançar os tubérculos mais profundos. Maior importância ainda tem a amontoa, quando considera-se que há variedades que têm por característica emitir estolões superficiais; estas são geralmente mais suscetíveis ao ataque de pragas do que as variedades que lançam estolões mais profundos.

Em solos úmidos, há uma adesão maior das partículas, com conseqüente redução de fendas e gretas. Assim, a irrigação por aspersão, diminuindo as rachaduras no solo, dificulta o acesso de adultos, larvas e lagartas aos tubérculos. Eliminar outros hospedeiros da traça das proximidades das lavouras, principalmente outras espécies de solanáceas.

Restos de cultura, tubérculos não colhidos ou descartados durante a colheita e plantas voluntárias (socas) são fontes de alimento e abrigo para diversas pragas, que mantêm suas populações nas áreas de plantio, entre uma safra e outra.

Ao redor das lavouras há espécies de plantas que podem fornecer abrigo e alimento às pragas. Mas, que também servem de refúgio e sítios de alimentação e acasalamento a inimigos naturais. Recomenda-se, assim, que plantas invasoras ou competidoras não sejam completamente eliminadas, mas que ao redor das lavouras sejam mantidas áreas limpas.

Luiz Antonio Salles
Embrapa Clima Temperado - Pelotas, RS

* Este artigo foi publicado na edição número 15 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de agosto/setembro de 2002.

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