Atacado por nematóides

Nematóide das galhas radiculares: Duas espécies do gênero Meloidogyne parasitam o algodoeiro, Meloidogyne incognita e M. acronea. A primeira tem distribuição mundial, enquanto a outra ocorre apenas em algumas regiões do sul da África. Além disso, M. incognita apresenta um elevado número de hospedeiros, entre plantas cultivadas e perenes, e será a única espécie de Meloidogyne que merecerá nossa atenção neste texto. Nem todas as populações desse nematóide reproduzem-se em algodoeiro; das quatro raças de M. incognita, apenas as raças 3 e 4 são seus parasitos. A raça 3 é a mais comum nos algodoais dos estados de São Paulo, Paraná e Goiás. Não há provas de que uma raça seja mais daninha que a outra ao algodoeiro. As raças 3 e 4 são menos freqüentes que as outras, mas o monocultivo do algodoeiro acaba por selecioná-las.

A distribuição do nematóide das galhas em uma área normalmente é muito irregular. Em função disso, temos, numa cultura infestada com Meloidogyne incognita, reboleiras de plantas pequenas e pouco vigorosas, freqüentemente murchas, formadas nas manchas de solo onde a população do nematóide é maior. Um sintoma nas folhas conhecido como “carijó” é muito comum. As folhas medianas do algodoeiro apresentam um amarelecimento, às vezes avermelhamento, da região internerval. O quadro pode evoluir para necrose e desfolha. Como outros nematóides ou agentes também podem levar à formação de reboleiras, devemos confirmar a presença de Meloidogyne coletando raízes de plantas da reboleira e procurar por galhas radiculares, o sintoma mais típico da presença desse nematóide. As galhas induzidas por Meloidogyne são engrossamentos radiculares que geralmente são formadas em torno do corpo do nematóide, resultante do aumento do tamanho das células do córtex e também, em algumas vezes, do aumento do seu número. Nosso diagnóstico será melhor ainda se coletarmos também raízes de plantas de fora da reboleira. Se Meloidogyne for o responsável pela formação da reboleira, é de se esperar que tenhamos mais galhas nas raízes das plantas da reboleira que nas raízes das plantas de fora.

O nematóide das galhas prejudica o funcionamento do sistema radicular das plantas hospedeiras que, absorvendo menos água e nutrientes, apresentam uma parte aérea pequena, sem vigor e exibindo murchamento anormal. As perdas de produção normalmente são acentuadas, mas dificilmente a planta morre. Infelizmente, porém, é comum a ocorrência simultânea de M. incognita e do fungo Fusarium oxysporum f. vasinfectum, causador da murcha ou fusariose do algodoeiro. A murcha do algodoeiro é uma das principais doenças dessa planta, e em cultivares de algodoeiro susceptíveis ao fungo, seus sintomas (principalmente murcha) são agravados. O principal método de controle da murcha é o uso de cultivares resistentes, mas a resistência pode ser quebrada pelos ação do nematóide das galhas. Assim, solos contaminados com F. oxysporum f. vasinfectum somente podem ser cultivados com cultivares resistentes ao fungo se o nematóide das galhas não estiver presente. Caso contrário, a cultivar deve apresentar também resistência a M. incognita. O nematóide das galhas ainda aumenta a incidência de tombamento causado por Rhizoctonia solani.

Em relação ao controle do nematóide das galhas, recomenda-se sempre que possível fazer um levantamento nematológico, a fim de conhecer o nível de infestação, antes de se adotar qualquer medida. Agindo dessa maneira, será possível concentrar os esforços de controle nas áreas onde a infestação é maior e provavelmente as perdas de produção são mais significativas. Os principais métodos de controle são:

Escolha do local de plantio

Se possível, evitar áreas muito infestadas. Se isso não for possível, evitar as áreas com solos arenosos, distróficos e/ou pobres em matéria orgânica, e também as áreas sujeitas a secas acentuadas, pois esses fatores aumentam os danos causados pelo nematóide.

Rotação de cultura

Em áreas infestadas com M. incognita, sugere-se a rotação com amendoim (Arachis hypogeae), crotalárias (exceto Crotalaria juncea) ou mucunas. Há também algumas cultivares e alguns híbridos de milhos resistentes. As seguintes cultivares de soja são resistentes a M. incognita: BR-8, Cobb, IAC-8 e Tropical. Infelizmente a maioria das plantas cultivadas é boa hospedeira desse nematóide.

Cultivares resistentes e tolerantes

Quando dizemos que uma cultivar é resistente a determinado nematóide, queremos dizer que essa cultivar é imprópria para a multiplicação do nematóide e que, em função disso, sofre poucos danos na sua presença. Há várias fontes conhecidas de resistência ao nematóide das galhas, mas as cultivares comerciais apresentam níveis baixos ou moderados de resistência. A maioria das cultivares oriundas dos E.U.A., preferidos pelos cotonicultores brasileiros pela qualidade da sua fibra, apresenta baixos níveis de resistência a M. incognita e ao complexo nematóide-fusário. Dentre as cultivares atualmente utilizadas, IAC-20 e IAC-22 figuram entre as que possuem melhores níveis de resistência ao nematóide das galhas. As cultivares CNPA ITA-90, CNPA ITA-96 e BRS-Antares são consideradas tolerantes, ou seja, apesar de serem favoráveis à multiplicação do nematóide, sofrem danos apenas moderados. O algodoeiro mocó, resultante da hibridação natural entre G. hirsutum e G. barbadense cv. Sea-Island apresenta elevada resistência ao nematóide das galhas.

Nematicidas

Tendo em vista os danos ambientais que acarreta, seu uso deve ser restrito às situações em que não for possível utilizar nenhum dos métodos acima. Em geral, o emprego de nematicidas é economicamente viável apenas quando o nematóide está em populações muito altas. Os produtos já registrados no Brasil são o aldicarb e o carbofuram.

Nematóide reniforme

O nematóide reniforme (Rotylenchulus reniformis) é uma espécie de clima tropical e tem um grande número de hospedeiras, entre plantas cultivadas e invasoras. Há informações de que a reprodução do nematóide reniforme é favorecida em solos com pH 4,8-5,2. No Brasil, ele é um importante parasita do maracujazeiro, podendo causar danos também à soja e ao coentro. Em algodoais, sua distribuição no campo normalmente é mais uniforme que a de Meloidogyne incognita. Tem causados danos crescentes à cultura do algodão, em função do aumento de sua ocorrência. Tais danos são importantes principalmente em áreas com solos argilosos e em que se pratica a monocultura do algodão, como o norte do Paraná e na região de Leme, SP. A importância do nematóide reniforme nos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul ainda é desconhecida.

As plantas de algodão, quando infestadas pelo nematóide reniforme, são menores e apresentam as folhas medianas com clorose internerval, podendo evoluir para necrose internerval. O sintoma foliar é semelhante ao causado por Meloidogyne incognita, e também é conhecido como “carijó”. As raízes das plantas infestadas por R. reniformis são pouco desenvolvidas, com reduzido número de raízes secundárias, e podem apresentar solo aderente. Os principais métodos de controle , além da escolha do local de plantio, são:

Rotação de cultura

É uma técnica ainda pouco utilizada para o controle do nematóide reniforme. A seguintes plantas são boas opções para rotação: arroz (Oryza sativa), milho (Zea mays), sorgo (Sorghum bicolor), milheto (Pennisetum glaucum), cana-de-açúcar (Saccharum spp.), trigo (Triticum aestivum), capim Rodes (Chloris gayana), feijão-mungo (Phaseoulus aureus), mostarda (Brassica nigra), amendoim (Arachis hypogeae) e algumas espécies de crotalárias (Crotalaria breviflora, C. lanceolata e C. mucronata). A destruição dos restos culturas do algodoeiro seguido do plantio de uma cobertura vegetal como o milheto é muito recomendável, pois diminui a população do nematóide reniforme, evita sua reprodução em ervas daninhas e impede sua disseminação pelo vento ou por enxurradas. Por outro lado, algumas plantas devem ser evitadas, como soja e fumo, por serem boas hospedeiras do nematóide reniforme.

Cultivares resistentes e cultivares tolerantes. Apesar de serem conhecidos alguns materiais com altos níveis de resistência ao nematóide reniforme (ex.: Gossypium arboreum ’Nanking CB 1402’ e G. barbadense ’Texas 110’), os cultivares de algodoeiro atualmente disponíveis apresentam baixos níveis de resistência.
Nematicidas. Vide os comentários feitos no item sobre o controle dos nematóides das galhas.

Nematóides das lesões radiculares

No Brasil, Pratylenchus brachyurus é a espécie desse grupo mais disseminada em áreas cultivadas com algodoeiro. Embora reproduza-se satisfatoriamente em algodoeiro, sua importância para essa malvácea é discutível. Há relatos de danos causados por P. brachyurus em algodoais nos E.U.A. e no Brasil, mas a maioria dos testes em casa-de-vegetação têm mostrado que tais danos somente ocorrem sob altas populações do nematóide. Em testes realizados no Brasil, as cultivares IAC-20 e IAC-22 comportaram-se como tolerantes a P. brachyurus, ou seja, permitiram a reprodução do nematóide mas não sofreram danos significativos. Por outro lado, a cultivar Acala-90, de origem norte-americana comportou-se como susceptível, permitindo a reprodução do nematóide e sofrendo reduções significativas de crescimento. Isso indica que há variação na reação das diferentes cultivares de algodoeiro a esse nematóide, e mostra que o agricultor deve estar alerta para possíveis danos causados pelo nematóide das lesões à cultura do algodão. Não se conhece a importância desse nematóide na cultura do algodão nos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, mas em princípio deve-se evitar o plantio em áreas muito infestadas, tomando-se cuidado com cultivares norte-americanas, pois aparentemente são mais susceptíveis, e com o plantio sobre antigas pastagens, pois as gramíneas geralmente são boas hospedeiras de P. brachyurus.

Outros nematóides

Existem espécies muito daninhas ao algodoeiro, como Belonolaimus longicaudatus e Hoplolaimus columbus, que não ocorrem no Brasil. É importante a adoção de medidas sanitárias que evitem sua introdução no nosso território.

Mario Massayuki Inomoto,
Esalq-USP

* Este artigo foi publicado na edição número 30 da revista Cultivar Grandes Culturas, de julho de 2001. ver mais artigos
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