Manejo da cercosporiose, principal doença na cultura da beterraba

A principal doença na cultura da beterraba é a cercosporiose, causada por Cercospora beticola Sacc. É responsável pela destruição total do limbo foliar e, consequentemente, redução na produtividade. Sua ocorrência generalizada pode representar redução na produtividade de 15% a 45%. A doença encontra condições favoráveis quando há alta umidade relativa do ar (acima de 90%) e sob temperatura entre 22ºC e 26oC. Apesar do controle químico disponível, a cercosporiose normalmente inviabiliza a comercialização das plantas através de maços, em decorrência da aparência das folhas doentes e senescentes (Tivelli et al, 2011; Puiatti & Finger, 2005).

Os sintomas característicos são observados nas folhas mais velhas por serem mais suscetíveis (Weiland & Koch, 2004). Inicialmente são pontuações que evoluem e tendem a alcançar de 4mm a 5mm, de formato mais ou menos arredondado, centro claro e bordas com perímetro de coloração vermelho-púrpura (Figura 1). À medida que as lesões aumentam, se tornam com tonalidade acinzentada, porém, com a necrose, o tecido lesionado cai e a folha torna-se perfurada (Figura 2). O aumento do número de lesões e o crecimento da área induzem à senescência e à redução significativa da área foliar (Figura 3). A planta repõe as folhas a partir de reservas do tubérculo, o que pode causar a perda de rendimento e esse processo é repetido várias vezes durante o ciclo de crescimento da planta (Figura 4).

Epidemiologia

O patógeno é considerado necrotrófico, podendo sobreviver em restos culturais, sementes e/ou mudas contaminadas, plantas hospedeiras como acelga, couve-chinesa e beterraba-açucareira e plantas remanescentes. A disseminação é feita pela ação do vento, das gotículas de água e de insetos, que, ao depositarem os esporos na superfície foliar da planta - aliada às condições ambientais favoráveis de alta umidade relativa do ar (maior que 90%) e temperatura entre 22ºC e 26°C -, germinam e emitem o tubo germinativo do qual penetram somente pelos estômatos. Após penetrarem, as hifas crescem intercelularmente no mesófilo foliar, se ramificando várias vezes. Celulases e pectinases estão envolvidas no processo de colonização. Toxinas como a cercosporinia e beticolina são produzidas pelo patógeno, de modo a necrosar o tecido vegetal na vizinhança das hifas ramificadas e obter seus nutrientes. Isso ocorre, principalmente, sobre a face abaxial da folha, onde se torna o local de reprodução dos novos conidióforos e conídios. Os conídios novamente são dispersos pelo vento e pela água de chuva e/ou irrigação para iniciar novos ciclos de infecção que levam em torno de 12 dias para apresentar novos sintomas (Figura 5).

Manejo da doença

Diversas práticas de controle podem ser adotadas para o manejo da cercosporiose. Uma delas é o uso de semente certificada e tratada com fungicidas. Também se devem empregar mudas sadias, evitar o cultivo em áreas próximas que se tenha a cultura e/ou acelga.

É necessário evitar monocultura da beterraba e/ou acelga na área e fazer rotação de culturas para reduzir o inóculo na área. A adubação deve ser realizada de acordo com a necessidade da cultura, evitando o excesso de adubação nitrogenada.

É preciso seguir o espaçamento recomendado para a cultura evitando o plantio adensado. A irrigação deve ser realizada de acordo com a necessidade da cultura.

Sempre que possível cultivar em local drenado, evitando o acúmulo de água na lavoura. Quando utilizar canteiro, elevar no mínimo dez centímetros para diminuir a umidade na superfície do solo.

Recomenda-se propiciar a cobertura de solo com restos vegetais a fim de diminuir a umidade nas folhas baixeiras. Folhas retiradas na hora da colheita devem ser enterradas em local distante e não retornar à lavoura sem passar por compostagem termófila. É indicado, ainda, retirar plantas e/ou tubérculos remanescentes após a colheita para que não se tornem fonte de inóculo.

Fôlderes de algumas empresas de sementes de hortaliças descrevem que o genótipo All Green é considerado altamente resistente, enquanto que Itapuã, Stays Green e o híbrido Carbenet são tolerantes à doença. Porém, Filgueira (2007) descreve que a maioria das cultivares não apresenta nível elevado de resistência.

O uso da calda viçosa tem apresentado controle da doença com aumento da qualidade dos tubérculos (Tivelli et al, 2011). No entanto, o emprego do controle químico com fungicidas tem sido o principal meio de combate à doença. Atualmente encontram-se registrados 20 produtos no Sistema Agrofit, 2014, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), como protetores à base de hidróxido de cobre (3), mancozeb (3), mancozeb + hidróxido de cobre (1), os sistêmicos à base Kasugamicina (1), tebuconazol (8), difeconazol (1) azoxistrobina (2) que também está disponível em mistura com difeconazol (1). No Brasil, ainda não há relato sobre resistência do patógeno a fungicidas, mas já foi constatada resistência a triazóis, mancozeb e estrobilurinas na beterraba-açucareira na Europa, Estados Unidos e Turquia (Colak Tumbek et al, 2011; Hanson et al, 2012; Karaoglanidis et al, 2000; Karaoglanidis & Thanassoulopoulos, 2002; Secor G.A et al, 2010). Fato que reforça a necessidade de rotação de princípios ativos para evitar a ocorrência de resistência do patógeno no País.

A produção de beterraba

A beterraba (Beta vulgaris L.) é pertencente à família Chenopodiacea pela NRSC/USDA (2014) e por Amarantaceae pela APG (2014). Esta olerícola é originária das regiões europeias e norte-africanas de clima temperado, tendo seu plantio mais garantido em locais de clima frio. É uma planta tipicamente bienal, exigindo um período de frio intenso para passar à etapa reprodutiva do ciclo, quando ocorre a emissão do pendão floral, com produção de sementes (Filgueira, 2007). Ainda, segundo Filgueira (2007), na maioria das regiões produtoras das regiões Sudeste e Sul do Brasil, o plantio ocorre principalmente durante o outono-inverno, especialmente naquelas regiões de baixa altitude, enquanto que em regiões de altitude elevada, é possível plantar ao longo do ano, inclusive durante o verão. Sendo assim, as temperaturas mais adequadas para o desenvolvimento dessa planta estão dentro da faixa de 10ºC a 20°C (Puiatti & Finger, 2005). O calor é um fator limitante para a maioria das cultivares. Assim, quando plantada sob temperatura e pluviosidade elevadas, ocorre a destruição prematura das folhas pela cercosporiose e os tubérculos apresentam má coloração interna, com anéis claros (distúrbio fisiológico). Em tais condições adversas, o sabor também é afetado, tornando-se menos doce (Ferreira & Tivelli, 1989).

Em vários países da Europa, América do Norte e da Ásia seu cultivo é altamente rentável e se destina à produção de açúcar e forragem (Filgueira, 2007). No Brasil, é consumida principalmente in natura, cozida ou na forma de sucos, assim como também, observa-se um aumento na demanda dessa hortaliça, em indústrias de conservas e alimentos infantis (Tivelli et al, 2011).

A produção nacional de beterraba é uma das mais significativas dentro do contexto nacional do mercado agrícola de hortaliças. Apesar de não haver um levantamento sistemático pelo IBGE, existem no Brasil cerca de dez mil hectares desta hortaliça, produzidos em mais de cem mil propriedades. A região Sudeste é responsável por 45% da produção nacional, o que representa cerca de 250 mil toneladas/ano, gerando renda para mais de 500 mil pessoas por ano (Tivelli et al, 2011). No ano de 2012, dados divulgados pela Central de Abastecimento do Estado de Santa Catarina (Ceasa/SC) demonstraram que foram comercializadas mais de 4.583 toneladas de beterraba de mesa. Santa Catarina produz cerca de 65% da beterraba que consome e o restante é importado de outros estados, com destaque para o Rio Grande do Sul, de onde vieram 17,5% do total comercializado (SÍNTESE, 2012).

FIGURA 1 – Sintoma inicial da cercosporiose apresentando manchas circulares com centro claro e bordas vermelho-púrpura

FIGURA 2 – Sintoma da cercosporiose com e sem perfurações do centro do tecido lesionado

FIGURA 3 – Sintoma severo da cercosporiose com coalescência das manchas e senescência da folha

FIGURA 4 – Desenvolvimento de folhas novas decorrente da senescência foliar causada pela doença

FIGURA 5 – Ciclo esquemático da cercosporiose da beterraba

Confira o artigo na edição 84 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas.

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Leandro Luiz Marcuzzo, Tatiana da Silva Duarte, Patrícia Cristina Hilleshein

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