Aumento da produtividade em soja

A aplicação em conjunto do herbicida  lactofen e de cinetina pode resultar em efeito sinérgico na produtividade da soja. Entretanto seu uso precisa ser criterioso e o potencial de resposta depende da variedade utilizada. É necessário, ainda, que o ambiente de cultivo seja capaz de possibilitar a recuperação das plantas e permitir que respondam à sinalização proporcionada pelo hormônio. 

A produtividade média de soja no Brasil não ultrapassa 50 sacas por hectare. No entanto, algumas pesquisas mostram que a produtividade potencial da cultura supera as 330 sacas por hectares. Prova disso, recentemente no estado da Geórgia, nos EUA, o produtor Randy Dowdy bateu o recorde mundial de produtividade da oleaginosa, colhendo 192,23 sacas de 60 quilos por hectare. Tais resultados mostram que ainda há muito para explorar do potencial produtivo desta cultura.

Atualmente, a exploração do potencial produtivo tem sido baseada em estratégias de manejo que buscam alterar os componentes de produção da cultura, pois regulam diretamente a produtividade (Figura 1). A densidade de plantas é um fator importante para o crescimento e a produtividade de soja, embora a densidade não seja diretamente proporcional à produção de matéria seca e de sementes. Quando a densidade de plantas é elevada, a formação de ramos laterais diminui e dessa forma o número de nós decresce. No entanto, quando a população de plantas é reduzida, as plantas tendem a incrementar a formação de ramos laterais, aumentando o número de nós produtivos, o que significa que plantas de soja apresentam potencial para terem seu crescimento modulado em função do ambiente ou manejo adotado. 

Figura 1. Componentes de produção da cultura de soja.
Figura 1. Componentes de produção da cultura de soja.

As informações contidas na figura 1 realçam a hipótese de que plantas de soja apresentam alto potencial para terem seu crescimento modulado em função do ambiente ou manejo adotado, aproveitando a plasticidade das plantas. Como exemplo, variações na produtividade de soja frequentemente estão associadas com alterações no número de vagens e sementes por unidade de área. Consequentemente, práticas de manejo que alteram o número de ramificações e nós produtivos podem potencializar a produtividade da cultura por proporcionar a maior formação de pontos de formação de órgãos reprodutivos.

Com este objetivo, tem crescido nas últimas safras a utilização do hormônio citocinina e do herbicida lactofen para atender tal objetivo. Já é bastante conhecido que a auxina, juntamente com a citocinina, regula a brotação das gemas laterais. Em situações em que há a decapitação do caule (quebra da dominância apical), ocorre o brotamento das gemas laterais, favorecido pela menor produção de auxina no ápice e melhor redistribuição da citocinina nas gemas laterais.

Como no campo é difícil causar a quebra da dominância apical mecanicamente. O lactofen tem sido utilizado com este propósito. Este herbicida, quando aplicado ocasiona acúmulo de protoporfirina-IX como resultado da translocação do substrato da Protox para o citoplasma, seguido pela oxidação não enzimática ou por oxidases insensíveis ao herbicida. Na presença de luz, a protoporfirina-IX acumulada, agora compartimentalizada, está incapaz de ser utilizada e reage com o O2, formando oxigênio singleto (1O2). O 1O2 formado causa a peroxidação dos lipídios e, eventualmente, mata as células (Figura 2a).

Figura 2. Dano causado pelo lactofen no ápice de plantas de soja (a) e brotação das ramificações proporcionadas pela aplicação de lactofen (60 g [i.a.] ha-1) (b).
Figura 2. Dano causado pelo lactofen no ápice de plantas de soja (a) e brotação das ramificações proporcionadas pela aplicação de lactofen (60 g [i.a.] ha-1) (b).

O estresse oxidativo causado pelo herbicida com posterior morte das células causa danos no ápice das plantas. Devido aos danos causados, ocorre a quebra da dominância apical, que repercute na formação de ramos laterais e redução do crescimento das plantas (Figura 2b e 3). As ramificações laterais são um dos componentes que regulam a produtividade de soja, pois influi na quantidade de nós reprodutivos formados e, consequentemente de vagens potenciais.

Figura 3. Efeitos da aplicação de Lactofen na cultura de soja, cultivar NS-8490-RR.
Figura 3. Efeitos da aplicação de Lactofen na cultura de soja, cultivar NS-8490-RR.

Com base nos efeitos proporcionados pela aplicação pela citocinina e pelo lactofen, a utilização em conjunto poderia ocasionar efeitos sinérgicos nas plantas. A quebra da dominância apical proporcionado pelo lactofen associada à aplicação de citocinina poderia potencializar a brotação das gemas laterais (Figura 4). Além disso, algumas pesquisas têm mostrado que as citocininas aumentam a tolerância das plantas a estresses por interagir com as vias do ácido salicílico e abscísico, hormônios conhecidos como reguladores de estresses em plantas.

Figura 4. Modelo hipotético dos efeitos de citocinina e lactofen na brotação das gemas laterais de soja.
Figura 4. Modelo hipotético dos efeitos de citocinina e lactofen na brotação das gemas laterais de soja.

Trabalhos realizados pelos autores em Patos de Minas, Minas Gerais, buscaram entender o efeito da aplicação de citocinina e lactofen em duas cultivares de soja. Foram utilizadas as variedades cultivadas de soja NA-5909-RG (grupo de maturação 6.7) e NS-7114-RR (grupo de maturação 7.1) submetidas à aplicação no estádio V4 de cinetina (CK) (50 mg/ ha), lactofen (LC) (60 g [i.a.] ha) e cinetina + lactofen, comparadas às plantas sem aplicação (Controle).

Os resultados apresentados na Figura 6 mostram que aplicação de lactofen proporcionou incremento no dano foliar nas duas variedades cultivadas, sendo o maior efeito na NS-7114-RR, enquanto que a cinetina reduziu o dano na NA-5909-RG e incrementou na NS-7114-RR. A associação de lactofen com cinetina reduziu o dano foliar nas duas variedades comparado a aplicação isolada de lactofen, o que reforça o potencial da citocinina em reduzir o nível de estresse celular devido à ativação do metabolismo antiestresse.

Figura 5. Danos foliares e peroxidação lipídica (nmol [TBARS] g-1 MF]) de plantas de soja submetidas a aplicação de lactofen (LC) e cinetina (CK).
Figura 5. Danos foliares e peroxidação lipídica (nmol [TBARS] g-1 MF]) de plantas de soja submetidas a aplicação de lactofen (LC) e cinetina (CK).

O dano celular, além de comprometer a produção de energia pelas plantas, repercute em gasto energético para reparação das estruturas degradadas. Portanto, a aplicação de produtos como o lactofen deve ser bem planejada, pois o alto nível de estresse gerado pode reduzir a produtividade, caso estas plantas não tenham condições ambientais suficientes para garantir a saída do estresse. Exemplo disso, em outros ensaios desenvolvidos pela equipe do Núcleo de Pesquisa em Fisiologia e Estresse de Plantas (NUFEP) em Patos de Minas-MG, quando a aplicação de lactofen antecedeu longos períodos de estiagem houve redução na produtividade de soja.

Nos resultados apresentados na Tabela 1, embora a aplicação de lactofen tenha incrementado o número de nós e de vagens por planta na variedade cultivada NA-5909-RG, não foi observado aumento na produtividade. Esta variedade cultivada, por ser de grupo de maturação menor comparado à NS-7114-RR foi mais precoce, com menor duração da fase reprodutiva, o que limitou a recuperação do estresse causado pelo lactofen. Na variedade cultivada NS-7114-RR, mesmo com o estresse causado pela aplicação de lactofen, houve incremento de 5,4% no número de vagens e 9,1 sacas/ha. Estes resultados realçam a ideia de que o posicionamento deve ser planejado, pois depende também da variedade cultivada. Embora não existam informações científicas concretas sobre tal fato, acredita-se que variedades de ciclo precoce são mais sensíveis a estresses e, consequentemente, menos responsivas a estas práticas de manejo.

A aplicação de citocinina isolada proporcionou aumento no número de vagens nas duas variedades cultivadas, o que causou incremento de 4,7 sacas na variedade cultivada NA-5909-RG e 11,9 sacas na NS-7114-RR, em relação ao Controle (Tabela 1). Novamente, a variedade com maior grupo de maturação foi mais responsiva. Estes resultados estão ligados ao fato de que os hormônios desempenham funções de sinalização nas plantas. Para que as plantas respondam à sinalização proporcionada pelo hormônio é necessário que as condições de cultivo proporcionem esta resposta. Cultivares de ciclo curto, como o caso da NA-5909-RG, apresentam menor duração da fase reprodutiva e são mais sensíveis às condições ambientais, o que reduz o potencial de resposta. Estas informações significam que para que haja elevada resposta da aplicação de hormônios em plantas é necessário que antes da aplicação, outros aspectos como adaptação da variedade ao ambiente de cultivo, correção de solo, nutrição de plantas, irrigação, sanidade de folhas seja muito bem trabalhados.

A associação entre lactofen e cinetina não alterou o número de nós e vagens na NA-5909-RG, embora tenha incrementado 8,8 sacas/ha na produtividade em relação ao Controle. Na NS-7114-RR, o aumento no número de nós e vagens proporcionou aumento de 14,7 sacas/ha em relação ao Controle (Tabela 1). Estes resultados mostram que o lactofen e a cinetina proporcionaram efeito sinérgico na produtividade da cultura, no entanto, o potencial de resposta é modulado pela variedade cultivada utilizada.  Portanto, estes sistemas de manejo podem contribuir para a potencialização da produtividade de soja. No entanto é necessário que o ambiente de cultivo seja capaz de possibilitar a recuperação das plantas e permitir que estas respondam a sinalização proporcionada pelo hormônio. Além disso, ainda é necessário entender mais sobre como as diversas variedades cultivadas de soja disponíveis no mercado respondem a este tipo de manejo.


Luís Henrique Soares, Evandro Binotto Fagan, Marina Rodrigues dos Reis, Isabella Sabrina Pereira, Unipam


Artigo publicado na edição 211 da Cultivar Grandes Culturas.

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