Avaliação da qualidade da distribuição de calcário por distribuidores centrífugo e gravimétrico

O Brasil vem se consolidando como um dos principais produtores e exportadores mundiais de alimentos, garantindo o abastecimento interno e aumentando a sua participação no comércio internacional. Ao longo dos últimos 35 anos, o país desenvolveu e consolidou uma das agriculturas mais eficientes do mundo (Mapa, 2013). Conforme dados da Conab (2013), a produção brasileira de grãos, que em 1991 foi de 60 milhões de toneladas, em 2013 atingiu 195,9 milhões de toneladas, sendo que o volume de soja produzido alcançou 90 milhões de toneladas.

Grande parte dos solos brasileiros, principalmente aqueles onde ocorreram ou está ocorrendo a expansão da fronteira agrícola, como os solos sob cerrados, por exemplo, apresenta características de acidez, pH abaixo de 5,5, toxidez de alumínio e, também, baixos níveis de cálcio, magnésio e enxofre. Para tornar estes solos aptos para atingir grandes produtividades, é necessária a correção desses problemas através da aplicação de calcário e gesso.

O início do processo de calagem no Brasil se deu com a famosa Operação Tatu em 1964, no Rio Grande do Sul, coordenada por dois professores da Universidade de Wisconsin, Estados Unidos, juntamente com pesquisadores da Embrapa e UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Este processo revolucionou a agricultura e proporcionou que se elevassem consideravelmente as produtividades, sendo que, até hoje, a calagem tem grande influência para se alcançar grandes tetos produtivos e é também muito utilizada na Agricultura de Precisão.

Para realizar este processo se dispõe basicamente de dois tipos de máquinas agrícolas: os distribuidores do tipo centrífugo duplo disco, popularmente chamados de equipamentos de aplicação a lanço, os mais utilizados, e os distribuidores por gravidade.

Os produtos em pó, como o calcário e o gesso agrícola, são de granulometria muito pequena e densidade muito baixa, sendo que a qualidade da sua aplicação fica muito vulnerável à ação do vento quando são lançados, podendo facilmente causar a deriva do produto. É preciso estar atento, também, à lei da força centrífuga, onde as partículas de diferentes tamanhos e pesos tendem a ser lançadas para diferentes distâncias, sendo que as maiores e mais pesadas são jogadas mais longe e as menores e mais leves são jogadas a distâncias mais curtas, ocorrendo assim a segregação de partículas.

A reatividade do calcário no solo está diretamente ligada ao tamanho de suas partículas, sendo que partículas inferiores a 0,30mm reagem 100% no primeiro ano e partículas superiores a 0,84mm reagem apenas 20% no primeiro ano. Isto tem efeito direto na produtividade das culturas, já que apenas parte do problema estará sendo resolvida já no primeiro ano da aplicação de calcário ou gesso agrícola.

Pensando nisso, foi desenvolvida uma pesquisa para avaliar qual o melhor distribuidor para produtos em pó, analisando os equipamentos a lanço e por gravidade, comparando cada um deles em relação à segregação de partículas, se existe diferença entre tamanhos de partículas depositadas ao longo das faixas de aplicação e se isso acarreta em problemas na correção dos solos.

O experimento foi realizado na fazenda Três Irmãos, em Não-Me-Toque, Rio Grande do Sul, onde o clima da região é do tipo Subtropical Úmido, conforme a classificação de Köppen. A área está sob cultivo de plantio direto consolidado, sendo que o experimento foi realizado em uma área com cobertura de aveia-preta (Avena strigosa). O solo do local do experimento é classificado como Latossolo Vermelho distrófico segundo a classificação brasileira de solos (Embrapa, 2004).

O delineamento experimental utilizado foram faixas com 300 metros de comprimento por 12m de largura para o equipamento centrífugo duplo disco e seis metros para o distribuidor por gravidade, sendo que o mesmo realizou duas passadas, ida e volta, para completar os 12 metros, com quatro repetições para cada máquina com três bandejas, representando três diferentes medidas para cada uma das máquinas. Para a avaliação estatística foi utilizado o teste Tukey a 5%.

Croqui do experimento: 300 metros x 12 metros

FAIXA 3

FAIXA 1

FAIXA 2

FAIXA 4

Após a coleta do material a campo, feita pelos dois equipamentos, as amostras foram avaliadas em laboratório seguindo os mais relevantes tamanhos de peneiras, determinando, assim, o percentual de reatividade do calcário ao longo das faixas.

A granulometria, segundo a legislação brasileira (ABNT), deve seguir as seguintes características: 95% do material deve passar na peneira 10 (2mm), 70% deve passar na peneira 20 (0,84mm) e 50% passar na peneira 50 (0,30mm). Através das frações granulométricas, pode-se estimar a reatividade do material corretivo, em função das peneiras usadas, conforme tabela a seguir.

Tabela 1 - Reatividade do calcário de acordo com sua granulometria

Fração granulométrica

Peneira ABNT

Reatividade (%)

> 2,00mm

Retida no 10

0

0,84 - 2,00mm

Passa no 10, retida no 20

20

0,30 - 0,84mm

Passa no 20, retida no 50

60

£ 0,84mm

Passa no 50

100

Fonte: Comissão de Fertilidade do Solo-MG, 1999.

A variabilidade se acentua conforme se aumenta o tamanho da faixa de aplicação, sendo que na primeira bandeja, posicionada um metro distante do centro do equipamento, há uma maior quantidade de partículas reagentes 100% em relação à última bandeja, que representa o final da faixa, ou seja, a 12 metros.

Tabela 2 - Análise da faixa de aplicação

PENEIRA

0,3MM

0,21MM

0,15MM

0,12MM

FUNDO

COLETADO

REAGENTE 1º ANO

%

Amostra

H - 1

0,5g

0,75g

1g

1,5g

25g

33g

28,75g

88,1

H - 4

0,75g

0,5g

2,5g

1,75g

20,5g

33g

26g

78,8

H - 6

1,25g

1g

0,75g

1g

16,75g

33g

20,75g

64,30

H1 = 1m de comprimento na faixa de aplicação; H4 = 4m de comprimento na faixa de aplicação; H6 = 6m de comprimento na faixa de aplicação.

Na média das quatro repetições houve uma diferença entre a bandeja 1 (1m do equipamento) e a bandeja 6 (transpasse 12m) de 23,75% na quantidade de partículas menores que 0,30mm (reagentes 100% no primeiro ano). A bandeja 1 obteve 88,1% das partículas reagentes 100% no primeiro ano e a bandeja 6 obteve 64,35%.

Segundo Tukey a 5%, houve diferença estatística na quantidade de partículas reagentes 100% no primeiro ano da bandeja número 1 (faixa atrás da máquina) para a bandeja número 6 (faixa de transpasse) no distribuidor centrífugo. Já para o caso do distribuidor gravimétrico não houve diferença estatística com relação à segregação das mesmas partículas.

Tabela 3 - Faixa do meio

Repetições

Repetições

Hércules 1

21,5 a

Bruttus1

33 b

Hércules 2

21,0 a

Bruttus2

33 b

Hércules 3

29,5 a

Bruttus3

33 b

Hércules 4

29,5 a

Bruttus4

33 b

Média

29,25 a

33 b

Tabela 4 - Faixa da ponta

Repetições

Repetições

Hércules 1

21,5 a

Bruttus1

33 b

Hércules 2

21,0 a

Bruttus2

33 b

Hércules 3

22,5 a

Bruttus3

33 b

Hércules 4

20,0 a

Bruttus4

33 b

Média

21,25 a

33 b

*Hércules e Bruttus são nomes comerciais de distribuidores a lanço e a gravidade

No momento em que houver diferença de reação do calcário ao longo da faixa, será perdida acurácia e, ao invés de se buscar o equilíbrio dos solos, estarão se criando ou aumentando manchas de fertilidade, indo ao contrário do que se busca em Agricultura de Precisão, que é obter maior acerto possível e maximizar os resultados com maiores produtividades. Portanto, o Bruttus (distribuidor por gravidade) é o equipamento ideal para aplicação de corretivos em pó, garantindo uma maior uniformidade e precisão na aplicação dos corretivos, bem como o aproveitamento dos mesmos já no primeiro ano de aplicação, o que resulta em ganhos de produtividade, objetivo da correção dos solos.


Este artigo foi publicado na edição 145 da revista Cultivar Máquinas. Clique aqui para ler a edição.

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