Avaliação do desempenho do Trator 5075 E da John Deere

Fazia um bom tempo que desejávamos testar algum modelo de trator da John Deere para a revista Cultivar Máquinas. Muitas vezes, os leitores nos perguntavam a razão desta lacuna. Para esta edição tivemos a oportunidade de testar um modelo novo, que está entrando no mercado, como oferta no programa Mais Alimentos do Governo Federal. Sua apresentação ocorreu há aproximadamente um mês, para a rede de concessionários, e o lançamento oficial ocorrerá no próximo Show Rural da Coopavel, em Cascavel, no Paraná, durante o verão. A produção deste novo trator está em andamento, na nova fábrica de tratores da John Deere, localizada na cidade de Montenegro, no Rio Grande do Sul, e em breve estará disponível nas concessionárias da marca John Deere. Trata-se do modelo JD 5075 E, que substitui o modelo 5603, no mercado brasileiro de tratores da faixa de 70cv a 80cv. Esta nova designação tem coerência com o tamanho e a especificação dos componentes e acessórios do modelo. Neste caso a linha 5E, que se refere aos tratores pequenos da oferta da John Deere no Brasil, em que o 5 significa o tamanho do trator e o E, a especificação (que vai de D a J). Este modelo vem com uma série de inovações em relação ao modelo que substitui.

As principais novidades começam pelo novo design do capô dianteiro e dos paralamas metálicos redesenhados e ampliados. Também há alterações mecânicas, como os estabilizadores laterais dos braços inferiores do sistema hidráulico de três pontos, que agora são telescópicos, em substituição às correntes. O depósito de combustível, antes de 69 litros, agora comporta 105 litros de óleo diesel. Segundo o fabricante, este novo modelo visa atender pequenos, médios e grandes produtores rurais de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande Sul, que se preocupam com baixo consumo de combustível, maior durabilidade, baixo custo de manutenção e alto desempenho a campo. Para testá-lo, estivemos na zona rural de São Lourenço do Sul, no Rio Grande do Sul, localidade de Passo do Pinto, na propriedade do agricultor Nelgo Heller, que produz batata e milho em uma área de aproximadamente 60 hectares. O local, cercado de coxilhas bem aproveitadas faz parte de uma grande área, que pertencia a uma antiga fazenda do local, a Alto Alegre, que ainda serve de referência. Além dos dois filhos do senhor Nelgo, Janes e Jader, tivemos o apoio de toda a família, que se confessa apaixonada pela marca John Deere. A equipe foi completada pelo pessoal do Departamento de Engenharia e Marketing da John Deere e também da concessionária Lidermaq, de São Lourenço do Sul, que nos ajudaram a testar e provar o potencial deste novo modelo. Essa região localiza-se na metade sul do estado do Rio Grande do Sul, no eixo Pelotas-Rio Grande. A agricultura desta parte do estado gaúcho destaca-se pelas grandes lavouras de arroz irrigado, em função da proximidade da Laguna dos Patos, e pelas pequenas propriedades rurais, predominantemente com a utilização da mão de obra familiar que produz milho, fumo, batata e cultivos de horta, além da fruticultura, que alimenta a indústria de conservas na região, gerando renda para pequenos e médios produtores rurais.

POSTO DO OPERADOR E ERGONOMIA
A ergonomia do posto de operação e o conforto e segurança do trabalhador sempre foram características marcantes nos projetos desenvolvidos pela John Deere, e mais uma vez isso pode ser observado no trator JD 5075 E. A plataforma de operação possui amplo espaço, conforto e visibilidade. O piso plano e um revestimento com tapete de borracha antiderrapante estão bem adequados. O toldo de proteção solar preso ao arco de segurança é standard, mas o fabricante ainda não tem previsto a colocação de cabine para este modelo e espera a solicitação do mercado para oferecê-la. O assento é padrão da marca, em cor amarela e com apoios de braços em ambos os lados. Os comandos formados pelas alavancas de marchas e pelos comandos hidráulicos se apresentam ergonomicamente distribuídos, ou seja, estão situados lateralmente ao assento e são de fácil acesso às mãos. Da mesma forma, estão distribuídos de forma confortável os pedais de freio, embreagem e o acelerador de pé, o que diminui o estresse físico do operador durante a realização de longas jornadas de trabalho, algo reafirmado pelos filhos do senhor Nelgo, que já possuem outro modelo John Deere e estão de olho na possibilidade de uma nova aquisição. Em relação à segurança, este modelo possui na sua versão standard a estrutura de proteção contra capotamento (EPCC), certificada pela fábrica, item esse de grande importância, que evita em grande parte a fatalidade nos acidentes ocorridos com tratores agrícolas. Por sinal este modelo referenda uma tendência de quase todos os tratores e marcas brasileiras, que é atender integralmente a Norma Regulamentadora 31, do Ministério do Trabalho e Emprego (NR-31). Disso o mercado brasileiro pode se orgulhar, pois a indústria brasileira fez a adoção quase plena. A escada de entrada ao posto do condutor é de dois degraus, mas bem dimensionada, proporcionando facilidade no acesso. Também no aspecto ergonômico impressionam positivamente as proteções laterais, que impedem o contato com as partes móveis e quentes do motor. Outro ponto interessante que deve ser reforçado é a servicibilidade. A forma como se levanta o capô dianteiro e se expõe o motor permite uma ampla possibilidade de acesso ao radiador, ao filtro de ar ou a qualquer outro ponto do motor, sem que seja necessária a retirada de algum tipo de carenagem, o que facilita de forma bastante considerável a manutenção.

MOTOR
O trator JD 5075 E é equipado com motor John Deere Powertech modelo 3029T série 350, fabricado na Índia, de três cilindros (na versão substituída eram quatro os cilindros), com 2,9 litros de volume, turboalimentado, que desenvolve 75cv de potência máxima, a um regime constante de rotações que vai de 2.000rpm a 2.400rpm, proporcionando torque máximo de 265Nm a 1.600rpm, o que resulta em uma reserva de torque aproximada de 20,66%, considerada alta para um modelo com injeção mecânica. O sistema de injeção de combustível deste modelo consta de uma bomba injetora rotativa DP100, com sangria automática, o que garante menor perda de tempo nas manutenções.

TRANSMISSÃO
A embreagem deste trator é dupla, com acionamento independente da tomada de potência. A tomada de potência (540) permite trabalhar com 540rpm a 2.400rpm no motor e na posição econômica (540E) a 540rpm a 1.750rpm, permitindo ao operador escolher a melhor opção, em função do trabalho a ser realizado. Nas tarefas que não necessitem tanta potência do motor, como no caso das pulverizações, podem ser realizadas em rotações mais baixas do motor, tendo como consequência um menor consumo de combustível. A potência produzida no motor é transmitida às rodas através da caixa de velocidade, neste caso, denominada Partyal Syncro, com três marchas e três grupos, conferindo nove velocidades à frente e três à ré, totalmente sincronizadas dentro de cada grupo. Inclusive a marcha à ré é sincronizada, algo incomum para um modelo de pequeno porte e com caixa mecânica. Este arranjo de marchas garante um escalonamento evolutivo e constante de velocidade, sem falhas, permitindo que se trabalhe com velocidades que vão da faixa de 2,19km/h a 27,48km/h, tendo-se como referência os pneus que estávamos testando e a velocidade do motor de 2.400rpm. Este modelo, na versão standard vem de fábrica com tração dianteira auxiliar (TDA), da marca ZF.

Como é normal nos tratores maiores da John Deere, este modelo vem equipado com posição de parking na própria alavanca de câmbio. Isto significa que não há alavanca de freio de estacionamento, que é feito na própria alavanca de marchas, quando colocada em uma posição específica. Na versão standard, este trator vem com os pneus traseiros na medida 18,4-30 R1 e dianteiros 12,4-24. São oferecidas, ainda, seis opções de rodados (casais), o que garante ajustar o trator a qualquer condição de trabalho, desde terrenos com baixa sustentação, comum nas lavouras de arroz irrigado, a terrenos de alta sustentação e trafegabilidade e com potencialidade para a tração. Pode-se adquirir o modelo 5075 E com rodado e eixo dianteiro para tração simples, mas o mercado brasileiro prefere e aceita melhor as versões TDA.

A lastragem é feita na parte dianteira com dois contrapesos metálicos dianteiros de 50kg, mais o suporte de 46kg e, nas rodas traseiras, com um peso de 38,5kg em cada uma, além de permitir a utilização de lastro hidráulico em ambos os rodados, podendo atingir 4.500kg de peso total. Para facilitar a lastragem com os pesos, cada um deles tem um encaixe que facilita a colocação, diminuindo o esforço, pois o operador não necessita segurar o peso enquanto outro o fixa com parafusos. É um detalhe, mas que demonstra qualidade e melhora o conforto e a segurança. A bitola mínima e máxima, na versão standard, é de 1.345mm a 1.958mm no eixo dianteiro e 1.508mm a 1.829mm no eixo traseiro.

Sistema hidráulico
O sistema hidráulico é composto por duas bombas hidráulicas, sendo uma para o sistema de direção e outra para o levante hidráulico e controle remoto, que por sinal é duplo na versão standard. Possui capacidade de levante de 2.670kgf, devido ao aumento da pressão da bomba hidráulica, que atinge 200bar conferindo uma vazão de 43 litros por minuto, o que permite trabalhar com equipamentos de acionamento hidráulico com maior rapidez. Esse modelo possui duas alavancas de comando do sistema de levante hidráulico, sendo uma com quatro posições para trabalhar com implementos sobre a superfície do solo e outra de seis posições para implementos de subsuperfície especialmente aqueles de preparo do solo. Chamou-nos a atenção a existência de duas saídas VCRs standard, item esse não muito comum na maior parte dos tratores dessa categoria, pois tem como objetivo a utilização de carregadores frontais, com alta velocidade de operação, equipamento comumente utilizado na realização das atividades diárias, em pequenas e médias propriedades rurais. Os estabilizadores laterais dos braços do levante hidráulico sofreram alterações que permitem ajuste com maior facilidade, durante o acoplamento de implementos usados no sistema de engate aos três pontos. Estes possuem em uma das extremidades uma rosca sem-fim e na outra extremidade um sistema telescópico cuja trava se dá por meio de um pino de posição, fazendo com que não ocorra engripamentos, fato este comum em estabilizadores que utilizam roscas sem-fim em ambas as extremidades.

TESTES
Para verificar o desempenho do novo modelo a campo, foram utilizados três equipamentos: um escarificador Köhler de cinco hastes, uma grade niveladora de 28 discos e uma semeadora de plantio direto com três linhas da marca Vence Tudo modelo PA5000. Esses equipamentos estão dentre os mais utilizados nas pequenas e médias propriedades e bem dimensionados para este modelo. Iniciamos pelo escarificador e embora o solo fosse bastante macio, compensamos realizando esforço, em profundidade. Trabalhamos em profundidade média de 30cm e vimos que em 2a marcha no grupo B, o melhor desempenho foi na rotação de 2.000rpm. Testamos igualmente a 2.400rpm e 2.000rpm e vimos que apenas 200rpm caíam na rotação até a estabilização, com torque suficiente para tracionar o equipamento com níveis de patinamento bem adequados. Com a grade niveladora, trabalhando sobre o solo escarificado pudemos ampliar a velocidade de deslocamento, trabalhando em 3a marcha no grupo B a 2.400rpm, sem dificuldades, a uma profundidade variável entre dez e 15 centímetros. Para finalizar, colocamos acoplada ao trator a semeadora que, em 2a velocidade do grupo B se mostrou pequena para a potência e o torque do motor, considerando-se a condição e a textura do solo. Não havia patinamento aparente. Talvez em plantio direto e com solo mais duro, esta configuração de conjunto mecanizado seja mais adequada, mas nesta condição testada havia sobra de trator. O desempenho do trator, durante a realização dos testes, foi realmente muito bom. Mesmo assim alguns pontos se sobressaíram, entre os quais podemos destacar a facilidade nas manobras e a retomada do motor, durante as sobrecargas, devido a sua boa reserva de torque. Também não podemos deixar de mencionar a facilidade e a rapidez no acoplamento dos implementos e nas regulagens, devido ao seu novo sistema de estabilizadores laterais, que melhorou muito em relação à versão anterior. Com todos esses pontos positivos acreditamos que esse novo trator, bastante versátil venha proporcionar uma boa satisfação ao usuário, durante a realização das atividades diárias, principalmente com baixo consumo de combustível, característica que os agricultores mais levam em conta quando decidem adquirir um trator.

Portanto, o programa Mais Alimentos pode contar agora com mais um novo modelo, tornando-se mais uma opção ao agricultor, que busca, além do conforto, um trator com alto desempenho, que possa justificar o investimento realizado.

Este artigo foi publicado na edição número 101 da Revista Cultivar Máquinas, de Outubro de 2010.
Reprodução proibida. Contate-nos para autorização.

José Fernando Schlosser
Alexandre Russini e
Andre Luis Casali,

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