Batata com laranja

Iniciamos no ano passado, em colaboração com a colega Carla Maria de Meo/SAI-SEBRAE-Limeira,SP e os colegas Ariovaldo Greve (CATI) e Lauro Jacinto Paes (ex-Secretario Municipal da Agricultura de Limeira), a implantação de agronegócio alternativo para citricultores/viveiristas em crise com a cultura dos citrus. A transferência da tecnologia de produção de minitubérculos livres de vírus para produção de batata-semente básica via propagação de brotos destacados de batata-semente importada tem se mostrado uma excelente opção, com resultados do primeiro ano de avaliações muito satisfatório para os 3 citricultores da região de Limeira-SP, com os quais estamos trabalhando: Sr Nilton Picin (Bairro do Tatu); Srs. André Sherrer e Gualberto Brigatto (Bairro saída Moji Mirim); e Sr e Sra Roberto Juliani (Bairro dos Pires).

São os seguintes os aspectos favoráveis que já destacam o sucesso desse projeto: 1) Todos os minitubérculos produzidos, cerca de 60 mil (variedades Atlantic, Bintje, Monalisa, Agata e Mondial), foram vendidos para produtores de batata-semente de diferentes estados: São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Goiás; 2) Já está havendo retorno extremamente positivo de bataticultores que plantaram os minitubérculos produzidos pelos citricultores; e 3) Os citricultores que estão participando desse projeto e experimentaram a nova tecnologia, estão ampliando seus telados para plantar os brotos cedidos (exatamente cedidos, doados, gratuitamente) pelos bataticultores tradicionais importadores/ produtores de batata-semente, os quais já se interessam em comprar novamente dos citricultores os minitubérculos produzidos neste ano. Os valores alcançados para os minitubérculos variaram de R$ 0.15 a R$ 0.20/unidade. Estima-se que os citricultores tiveram um faturamento de R$ 0.30 a 0.40 por broto/vasinho plantado durante o ciclo de 80 a 90 dias entre plantio e colheita, com produtividade de 2 a 3 minitubérculos/broto/vasinho. Esse faturamento foi considerado satisfatório para os citricultores principalmente nas fases críticas da citricultura em que o valor recebido por uma mudinha de citrus é cerca de R$ 2.00, após 1-2 anos do plantio.

Aspectos técnicos

É interessante esclarecer alguns aspectos técnicos do surgimento dessa técnica e da sua importância no contexto do agronegócio da produção de batata e particularmente na produção da batata-semente no Brasil. Trata-se de uma das culturas da alimentação básica nacional com maior custo de produção (cerca de US$ 3 mil/ha). O insumo batata-semente de alta sanidade (livre de viroses) onera quase 40% (em dólares/ US$ 40,00/cx de 30 kg). Entretanto, a rápida degenerescência dos lotes de batata-semente devido quase que exclusivamente à alta incidência de viroses nos campos de produção, levam a gastos com produtos químicos no controle dos insetos vetores e dependência anual de lotes básicos (importados ou nacionais), livres de vírus para renovação e aumento do estoque de batata-semente.

A dependência do insumo batata-semente importada onera a Nação em cerca de 15 a 20 milhões de dólares anualmente É um tipo de comércio exterior de “mão única” pois o Brasil é essencialmente importador, com muito pouco ou mesmo nenhuma atividade de exportação relacionada com a cultura da batata. Trata-se de evasão de divisas do País. Um ciclo de comércio que já dura quase 4 décadas e continua sendo este o sustentáculo da bataticultura moderna no Brasil.

Devido ao fato da dependência da batata-semente importada e conseqüentemente de gostos do País em moeda estrangeira, os bataticultores que importam anualmente lotes de batata-semente são obrigados por Portarias Ministeriais (datadas da década de 50) e normatizações revistas periódicamente, a executar projetos de multiplicação (aumento) do lote de batata-semente importado. Após pelo menos 3 gerações sucessivas, observando sempre as normas oficiais dos programas de produção de batata-semente, a comercialização da produção é para ser destinada ao mercado de batata-semente nacional.

Categorias da semente

Em função da sanidade da produção, uma das categorias é aplicada à batata-semente nacional: Básica, Registrada ou Certificada. Apesar de o número de gerações da batata-semente importada poder não passar da primeira em função da incidência de viroses durante o ciclo no Brasil, as primeiras produções originadas do lote de batata-semente importado têm como destino o mercado de batata-semente e não o de consumo ou processamento. Assim sendo, quanto maior o aumento na taxa de multiplicação do lote inicial da batata-semente importada, maior o lucro do bataticultor que a importou. Os produtores que praticam como rotina a desbrota dos brotos da batata-semente importada o fazem para que os tubérculos (batata-semente) emitam novos brotos e de tamanho homogêneo. A razão desse procedimento é justamente a de aumentar o número de hastes de cada planta no campo.

Com maior número de hastes a planta produz maior número de tubérculos por cova. Entretanto, descartar (jogar no lixo) os milhares e milhares de brotos da batata-semente de alta sanidade é o mesmo que desperdiçar dinheiro e desprezar uma tecnologia relativamente simples e que está ao alcance do próprio produtor. Então surge aí a estratégia econômica que temos demonstrado desde 1985 aos bataticultores (Souza-Dias & Costa, 1985. Summa Phytopathologica 11:52-54), que é a de ao invés de continuarem desbrotando e jogando no lixo os brotos destacados de batata-semente básica (alta sanidade), passem a plantar esses brotos em telados anti afídeos (pulgões), sob condições protegidas de insetos vetores de viroses.

A partir de meados de 90, alguns bataticultores da região de Itapetininga-SP e de Guarapuava-SP, produtores de batata-semente ou de consumo, passaram a experimentar e obtiveram êxito na técnica de produção de minitubérculos dentro de telados a partir do plantio dos brotos destacados de batata-semente importada, de alta sanidade (Souza-Dias et al, 1998, Summa Phytopat. 24(1):73). Um dos produtores que se destacou nessa técnica foi o Sr.João Luis Markzuke (Itapetininga-SP), que já vem fazendo sua própria produção de minitubérculos há quase 5 anos consecutivos, a partir de brotos descartados e gratuitamente cedidos pelos importadores de batata-semente da região.

A produção de minitubérculos que o Sr Markzuke obtém dos brotos dentro de telados, ciclo de Junho a Agosto (sistema de fertil-irrigação em areia) é armazenada em câmara fria e plantada em campo nos meses de Maio-Junho, para aumento da produção de batata-semente (média de 20 tubérculos por planta/cova). Da mesma forma que os lotes de batata-semente importada, os tubérculos produzidos em campo a partir dos minitubérculos originados dos brotos são utilizados/comercializados como batata-semente para mais 2 ou 3 aumentos em campo antes de serem vendidos para consumo. Diferentes variedade, tais como Bintje, Jaette Bintje, Agata, Monalisa, etc já foram multiplicadas nesse sistema, sempre com grande êxito. Segundo o próprio produtor, a economia que se obtêm nesse insumo batata-semente de alta sanidade (categoria semelhante à importada ou básica nacional, livre de vírus) chega a ser de 70%.

Transferência de tecnologia

O projeto que estamos desde o ano passado desenvolvendo com os citricultores/viveiristas da região de Limeira-SP é basicamente uma transferência da tecnologia demonstrada e utilizada pelos bataticultores em suas regiões batateiras. Porém, há uma condição vantajosa e de fundamental importância sob o aspecto fitossanitário para os citricultores que é a do isolamento natural que os pomares de citrus oferecem a esse sistema de produção de batata-semente. Cabe ressaltar porém, que além desse isolamento natural, há ainda a proteção física que é a do telado anti-afídeo.

Outro fator que sustenta a condição favorável de isolamento e ausência de viroses da batata na região citrícola de Limeira é o fato de que essa região nunca em sua história agri-cultural registrou qualquer plantação comercial de batata. Portanto, não há praticamente o risco da presença de plantas voluntárias ou hospedeiras de viroses da batata em meio aos pomares de citrus daquela região. As plantações de batata mais próximas estão na região de Monte Mor, próximo a Campinas, portanto em um distância de mais de 50 km de isolamento.

Além disso, nos testes preliminares que estamos conduzindo com pulgões coletados em plantas cítricas, particularmente a espécie Toxoptera citricidus (pulgão preto da laranjeira), não tem sido possível fazê-los se alimentar em plantas de batata. Nas inúmeras vezes em que se tentou fazer a transferência de pulgões encontrados nas plantações de laranja ao redor dos telados onde os minitubérculos estão sendo produzidos a partir de brotos nunca houve transmissão alguma de virose para plantas de batata das diferentes variedades testadas.

O teste de imunodiagnose (ELISA) realizado nas amostras de minitubérculos produzidos pelos 3 citricultores viveiristas de Limeira, no ano passado, confirmaram a ausência quase total das principais viroses da batata-semente: PLRV e PVY. Mesmo a variedade Atlantic que tem alta suscetibilidade ao vírus Y e que se apresentava em cerca de 4% dos brotos plantados, terminou o ciclo com média de 2.5 % nos minitubérculos produzidos. Essa redução na porcentagem do PVY se deveu exclusivamente à possibilidade que existe na eliminação precoce e eficiente das plantas sintomáticas durante o ciclo no telado. Em contraste, sob condições de campo, portanto fora do telado, a tentativa de eliminação de plantas suspeitas ou reconhecidamente infectadas pelo PVY nem sempre apresenta a mesma eficiência. Pois ocorre que em campo, até que a planta expresse sintomas e seja reconhecida para então ser erradicada da plantação, passa muito tempo exposta à visitação de pulgões vetores. Esses pulgões são capazes de em questão de poucos minutos, durante as picadas nas folhas das plantas infectadas, transmitirem o PVY para outras plantas vizinhas. Essa rápida transmissão ocorre porque a relação que os insetos vetores (pulgões) têm com o PVY é do tipo denominado “estiletar”, sendo portanto transmitida logo na picada de prova dos pulgões nas plantas de batata. Por isso, a ocorrência dessa forma rápida de transmissão se dá mesmo que as plantas estejam sob o efeito de aplicação de inseticidas sistêmicos, extremamente eficientes no controle dos afídeos (pulgões).

Com todo esse conhecimento acerca da epidemiologia de viroses da batata e necessidade de se produzir a batata-semente sadia, livre de vírus, volta-se a atenção para o projeto de transferência da tecnologia de produção de batata-semente via propagação de brotos na região citrícola de Limeira.

Orientação ao produtor

Apesar de sua aparente simplicidade na execução, esse trabalho, de produção de minitubérculos de batata-semente livre de vírus, exige uma alta conscientização e orientação dos produtores (citricultores) para com os problemas de viroses da batata-semente. Pensando assim e com os sinais já demonstrados de expansão desses trabalhos de produção de minitubérculos por citricultores/viveiristas consideramos que é hora para uma reunião e visita técnica nos telados dos atuais e futuros citricultores/produtores de minitubérculos de batata-semente livres de vírus. Qualquer descuido ou falta de informação com relação aos fatores relacionados com as viroses da batata-semente, pode colocar em risco e mesmo desmoronar essa conquista que vem sendo feita em torno desse novo e promissor agronegócio alternativo para os citricultores/viveiristas da região de Limeira.

No momento torna-se importante a visita de bataticultores tradiconais na produção de batata-semente aos trabalhos que estão sendo conduzidos na região de Limeira a fim de ouvir as opiniões, críticas e sugestões a esse projeto. Caso seja considerado viável, seria questionada a possibilidade ou interesse de produtores da batata-semente terceirizarem parte do trabalho de produção de minitubérculos, que alguns deles já praticam em regiões batateiras sob ambiente protegido (telado), para os citricultores/viveiristas situados em áreas isoladas da bataticultura, como é o caso da região de citrus e cana de Limeira (cerca de 150 km de Itapetininga).

Os citricultores/viveiristas de Limeira têm se mostrado interessados, caprichosos e conscientes da importância de alta sanidade (livre de vírus) que os minitubérculos de batata-semente têm que apresentar na colheita. E essa sanidade tem que ser finalmente comprovada por testes virológicos e de pré-cultura.

O sucesso comercial desse projeto o qual está se apresentando como um potencial novo agronegócio durante os meses de inverno, poderá, entretanto, ser alcançado se os citiricultores/viveiristas de Limeira virem a encontrar produtores de batata-semente interessados no serviço deles; na infraestrutura de telados que eles dispõem; e nas condições naturais de isolamento fitossanitário proporcionado pelas culturas predominantes: citricultura e cana-de-açúcar, num raio de 50 km de qualquer plantio de batata. Não seria lógico e sem sustentação imaginar que pulgões daquela região estejam contaminados com viroses da batata.

Não é interesse dos citricultores/viveiristas de Limeira se tornarem produtores ou competidores no mercado de minitubérculos de batata-semente. Pelo contrário, visam sim serem terceirizados por bataticultores (produtores de batata-semente) que procuram alternativas de baixo custo na produção de minitubérculos de batata-semente livre de vírus. Com isso, poderão se manter na atividade principal deles que é a citricultura A técnica de plantio de brotos de batata-semente livre de vírus é uma das alternativas e que já tem demonstrado bons resultados na multiplicação em campo.

Encontro nos EUA

Vale aproveitar este espaço para comunicar que no referido encontro ocorrido nos dias 21 a 27 de Abril 2001, na cidade de St. Augustine, Florida (EUA), os resultados dos trabalhos de produção de minitubérculos desenvolvidos por citricultores/viveiristas de Limeira foram apresentados pelo signatário a uma platéia de quase 350 congressistas, composta de cientistas, professores, extensionistas, estudantes e lideranças da bataticultura Norte Americana e de várias outras nacionalidades. Ficou claro após a apresentação desse trabalho, que os exportadores de batata-semente para o Brasil compreendem a real possibilidade de o país vir a reduzir a dependência da batata-semente importada. Uma pergunta levantada após a apresentação questionou sobre a possibilidade de vir a ser estabelecido entre exportador e importador um limite contratual quanto à taxa de multiplicação permitida para a batata-semente adquirida pelo produtor Brasileiro. Em resposta foi dito que esse tipo de proteção de mercado poderia ser repensado não nesses termos, mas com vistas à nova alternativa de comércio exterior que surge: A de o Brasil importar brotos de batata-semente livres de vírus.

A sugestão da exportação de brotos de batata-semente livres de vírus faria cair de imediato os custos atualmente relacionados com batata-semente importada. Os brotos importados destinariam à produção de minitubérculos em telados por produtores brasileiros conveniados. Isso geraria utilização de mão-de-obra brasileira, gerando e mantendo empregos aqui no nosso País.

Os minitubérculos poderiam inclusive ser produzidos como franquia e sob o direito de comercialização do próprio grupo estrangeiro, exportador dos brotos. Essa nova estratégia tem a vantagem de possibilitar aos potenciais compradores (bataticultores Brasileiros) visitas freqüentes aos telados onde estão sendo produzidos os minitubérculos. Haveria portanto ganhos em vários aspectos, tais como: confiabilidade dos compradores; facilidade de acesso ao insumo batata-semente básica e expansão qualitativa da bataticultura brasileira.

A independência do Brasil para com a batata-semente importada não é um sonho. Há vários caminhos em direção para torná-lo realidade. Atualmente, essa independência tem sido conseguida por alguns produtores que produzem seus próprios lotes de batata-semente básica através de plantio de plântulas oriundas de laboratórios de cultura de tecidos ou mesmo brotos destacados de seus próprios lotes de batata-semente livre de vírus por indexação.

Acredito que técnicas alternativas para produção de batata-semente básica, livre de vírus, as quais buscam redução de custos de produção, como esta da utilização dos brotos destacados e descartados (jogados no lixo) da batata-semente importada, poderão incrementar de forma significativa o sistema de produção e a oferta de batata-semente, com menores custos e riscos de introdução de pragas exóticas no Brasil.

José A. Caram de Souza-Dias
IAC

* Este artigo foi publicado na edição número 9 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de agosto-setembro de 2001. ver mais artigos
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