Bicho na raiz

A lavoura de arroz no Rio Grande do Sul sofreu nos três últimos períodos agrícolas (98/99, 99/2000 e 2000/2001) as maiores infestações de bicheira-da-raiz. Esse coleóptero é a praga de maior importância, devido ao aumento da área atacada, aos danos causados e à disseminação generalizada. Trata-se de um Coleóptero pertencente à família Curculionidae, da espécie Oryzophagus oryzae, cujas larvas causam os maiores danos. Além dessa, outras espécies de gorgulhos aquáticos foram encontradas atacando o arroz: Lissorhoptrus tibialis e Ochetina sp.

A bicheira-da-raiz tem causado prejuízos à cultura, nas regiões da Campanha, Depressão Central e Litoral Sul. Esse gorgulho aquático ataca 25% da área de arroz irrigado, reduzindo em 10% a produção. Em levantamentos realizados pelo IRGA nas safras 98/99 e 99/2000 cerca de 35 e 45% respectivamente, das áreas semeadas, foram atacadas por gorgulhos aquáticos. A região do Litoral Norte, onde a incidência era reduzida (15%), nas duas últimas safras (99/2000 e 2000/2001), ocorreu um elevado ataque às lavouras (40%).

DESCRIÇÃO DA PRAGA

Os adultos da espécie Oryzophagus oryzae são coleópteros com 3,0 a 3,5 mm de comprimento por 1,0 a 1,5 mm de largura. Possuem cor cinza escura, corpo achatado lateralmente e franjas nas tíbias do segundo par de patas. As fêmeas são maiores do que os machos. Seus ovos são de cor branca, levemente curvos, com as extremidades arredondadas. As larvas são brancas no primeiro estágio, tornando-se branco-amareladas. Nos demais são ápodas. Possuem na parte dorsal seis pares de espiráculos, para extrair o oxigênio das raízes. Após passarem por 5 estágios larvais, completam o seu crescimento, podendo atingir 9 mm de comprimento. As larvas após passam à fase de pupa, que é de cor branca. A pupa encontra-se dentro de um casulo que fica aderido às raízes jovens, o qual mede 4,0 mm de comprimento por 2,75 mm de diâmetro.

Os adultos dirigem-se para as lavouras com a elevação da temperatura, fotoperíodo e com a inundação das áreas, pela água de irrigação ou por chuvas. Até esse período eles estavam hibernando ou em diapausa, pois as condições ambientais eram desfavoráveis ao crescimento. No RS a hibernação vai até o mês de julho, sendo que em agosto os insetos adultos abandonam os sítios hibernantes. Porém nesta safra, devido o longo período com baixas temperaturas, a hibernação estendeu-se até setembro.

Em geral o período de maior entrada dos adultos na lavoura ocorre nos meses de outubro a dezembro. A partir de janeiro, não saem mais do abrigo e em geral 10% da população permanece hibernando, visando a preservação da espécie.

Os adultos, após entrar na lavoura, localizam-se de preferência nos locais onde a lâmina de água é mais profunda. Após inicia-se o acasalamento, e as fêmeas realizam a postura nas partes submersas das bainhas das folhas, sendo os ovos dispostos individualmente. O período de incubação varia de 5 a 9 dias, após eclodem as larvas que, durante o primeiro ínstar alimentam-se do tecido vegetal próximo ao local da postura. Também podem sobreviver por um período de 2 dias sem alimentar-se ou sem obter oxigênio das plantas. No segundo ínstar, migram para as raízes permanecendo a uma profundidade de 5 a 7 cm. O estado larval dura em média quatro semanas. Após este estágio as larvas passam à fase de pupa formando um casulo impermeável, confeccionado com solo e material vegetal. O estágio de pupa dura em média 10 dias. Posteriormente surge os insetos adultos, completando o ciclo.

A partir da segunda quinzena de fevereiro até o final de março, ocorre a entrada dos adultos no sítio de hibernação, com o objetivo de assegurar a sobrevivência da espécie num período adverso. Os insetos adultos hibernam na resteva, em touceiras de gramíneas nas taipas, ruas e canais. Também na vegetação nativa, em matas, bambus, eucaliptos, localizados próximos as lavouras. Os adultos ficam abrigados na região próximo ao colo das plantas. Em partes da lavoura que ocorrem alagamento constantes, não foram encontrados adultos em hibernação.

Em estudos realizados pelo IRGA, na Estação Experimental do Arroz em Cachoeirinha, verificou-se que 60% da população de adultos permanece em diapausa na vegetação existente próxima à lavoura, e 40% permanece dentro da lavoura, na resteva, taipas, ruas e canais. As coletas de insetos foram realizadas praticamente nos mesmos locais. Estas informações estão de acordo com estudos realizados em São Paulo, onde foi verificado que a maior parte de uma população de gorgulhos aquáticos, vive circunscrita a um mesmo local, completando o seu ciclo ano após ano. Também os adultos podem ser dispersos a grandes distâncias, levado pelo vento por meios de transportes, ou pela água de irrigação.

OCORRÊNCIA, SINTOMAS E DANOS

Os insetos alimentam-se do parênquima das folhas no sentido longitudinal, deixando cicatrizes brancas com 1 mm de largura. Os adultos atacam as folhas, geralmente acima da lâmina de água. No sistema pré-germinado, os insetos adultos atacam o coleóptilo e a radícula sob a água, causando redução no estande inicial.

Os maiores danos são causados pelas larvas que ao cortarem as raízes em todas as direções provocam um desequilíbrio entre a parte aérea e o sistema radicular, além de diminuir o aproveitamento de nutrientes pela planta. As larvas podem cortar inteiramente as raízes, destruindo até 80% das mesmas. As plantas danificadas apresentam estatura reduzida, folhas amareladas com as pontas secas além de serem facilmente arrancadas. Quando esses sintomas são observados o sistema radicular encontra-se bastante danificado e os maiores prejuízos já ocorreram.

Ocorrem em geral duas gerações larvais durante o ciclo da cultura. A primeira infestação acontece nos meses de novembro a janeiro, dependendo da época de semeadura. O pico de maior incidência de larvas ocorre dos 25 aos 40 dias, após a irrigação. Na segunda infestação, as plantas apresentam um porte maior, porém o sistema radicular está bastante danificado. Como as larvas preferem atacar as raízes novas, estas que servem para absorção de nutrientes são cortadas.

Em relação ao sistema radicular, muitas vezes arrancamos as plantas e após a retirada do solo, observa-se que as raízes parecem pouco danificadas. Porém abrindo as mesmas, verifica-se que a parte central está totalmente cortada. Nas duas últimas safras, foram encontradas, larvas na soca, até o mês de maio, obtendo-se mais de 10 larvas em algumas amostras, demonstrando que este gorgulho aquático existente dentro da lavoura continua se reproduzindo.

Os sintomas provocados pela bicheira-da-raiz são diferentes dos causados pela toxidez de ferro, pois no primeiro caso as plantas apresentem uma coloração amarelada nas folhas superiores, e na toxidez de ferro ocorre um alaranjado em toda a planta. Quando for encontrado em média 2 a 3 larvas por amostra, pode ocorrer prejuízos. Pois a cada larva encontrada, é esperada uma redução média de 1,3%.

ADULTOS E LARVAS

Como os adultos entram na lavoura pelos canais de irrigação é importante observar, após três dias, adultos sobre as folhas, tanto machos como fêmeas e geralmente em cópula. A partir do quinto dia, as fêmeas descem para realizarem a postura. As maiores quantidades de lesões causadas pelos adultos aparecem após uma semana da irrigação, período em que a fêmea já realizou as posturas.

Para determinar o número de larvas, a partir de 10 dias após a irrigação, deve-se avaliar as partes da lavoura onde a lâmina de água é mais profunda, no mínimo em 10 pontos. As amostras são coletadas pelo emprego de um cano plástico com 10 cm de diâmetro por 15 a 20 cm de altura. Após arrancar as plantas, agitar as mesmas num balde com água, então as larvas serão liberadas, e será feita a contagem.

No sistema pré-germinado, devido ao adulto encontrar-se na lavoura antes da semeadura, a incidência de larvas vai ocorrer a partir de 10 dias após a irrigação. Já no sistema convencional, cultivo mínimo ou direto, as larvas podem ocorrer 15 dias após a irrigação. Também nas plantas daninhas conhecidas como aguapé, Sagittaria montevidensis, ocorre o gorgulho aquático Hypselus ater.

O adulto é maior que o da espécie O. oryzae, apresentando uma coloração preta. No sistema de cultivo pré-germinado, no período de preparo do solo com água, pela ação do vento é comum encontrar bulbos concentrados nas bordas dos quadros, contendo larvas do H. ater. Esta espécie não causa danos as plantas de arroz.

CONTROLE DA PRAGA

Os adultos entram em hibernação para fugir das condições adversas, portanto a destruição dos refúgios vai dar condições desfavoráveis aos insetos, reduzindo a população.

Após a colheita nas partes da lavoura que permanecem com água pode continuar o ciclo dos adultos existentes, portanto a drenagem dos quadros vai eliminar a possibilidade de novos adultos para a próxima safra.

Aplainar o solo é outra medida importante. Com uma lâmina de água superficial, a população de adultos vai espalhar-se por toda a área, podendo ocorrer uma baixa densidade de larvas por área, não causando danos.

A rotação com outras culturas como soja, e sorgo, evita o aumento populacional do inseto, pois em geral os insetos que atacam o arroz não ocorrem nestas culturas.

Embora alguns agricultores façam drenagem da área atacada, essa prática traz mais desvantagens do que benefícios, pois a planta além de sofrer com o ataque das larvas, vai sofrer com a falta de água e a competição com plantas daninhas. Também a retirada da água é mais demorada nas partes baixas da lavoura, onde ocorre maior concentração do inseto além da ocorrência de chuvas que favorece a sobrevivência das larvas. Pode-se também aplicar inseticidas nas taipas, ruas e canais. Essa alternativa de controle é viável se for determinado que esses locais são os principais pontos de hibernação do inseto. Caso contrário, o produto aplicado, além de não eliminar os adultos, vai afetar os inimigos naturais.

Para o controle químico deste inseto existem produtos registrados, com alta eficiência.

• No tratamento das sementes: Standak 250 FS, Cruiser 700 WS;

• No controle de adultos: Klap 200 SC;

• Para o controle das larvas: Furadan 100 G; Ralzer 50 G; Laser 100 G.

Jaime Vargas de Oliveira,
IRGA

* Este artigo foi publicado na edição número 27 da revista Cultivar Grandes Culturas, de abril de 2001. ver mais artigos
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