Bloqueio ao bicudo

Os resultados da Estratégia de Bloqueio do Bicudo do Algodoeiro no Oeste Baiano (safra 2000-2001) superaram as expectativas neste primeiro ano de implantação. A efetiva redução da população da praga estava prevista para a safra 2002-03. Basicamente, os resultados positivos alcançados são decorrentes da rápida e ampla adesão dos produtores e demais profissionais envolvidos com o agronegócio do algodão na Região.

Graças à implantação da estratégia regional de bloqueio do bicudo, estima-se que o conjunto dos produtores de algodão do oeste baiano economizaram mais de US$ 2 milhões durante o último ano agrícola, somente em produtos que seriam utilizados nas pulverizações para o controle da praga.

Também ocorreram benefícios ambientais e sociais com a adoção da estratégia, difíceis de serem medidos economicamente, mas muito importantes no manejo ambiental e agro-sociológico. E como os danos da praga foram minimizados e as produtividades não foram ameaçadas, diminuíram os riscos da atividade.

A praga e o problema

Se não controlado corretamente, o inseto Anthonomus grandis pode causar perdas de até 70% da produção em função da sua alta capacidade de reprodução e elevado poder destrutivo.

Devido ao seu ataque, botões florais, flores e maçãs novas caem da planta. A praga também destrói, internamente, maçãs firmes (provocando o “carimã”). O aspecto vegetativo da lavoura atacada é bom, mas sem produção. Seus danos repercutem em redução da produção e a perda da qualidade do algodão colhido.

Este foi o inseto que mais provocou prejuízos ao algodoeiro no oeste da Bahia na safra passada (1999-2000), daí a razão da reação da coletividade do oeste baiano para detê-lo nesta safra.

Buscando alternativas para o manejo racional do complexo de pragas que atacam o algodoeiro, agrônomos e produtores da região decidiram tomar uma atitude conjunta, com o intuito de bloquear explosões populacionais do bicudo, e então assumiram a Estratégia de bloqueio como uma ação coletiva.

As táticas do bloqueio

Devido às características bioecológicas do bicudo, é de suma importância considerar ações regionais para controlá-lo. Por isso, a estratégia de bloqueio ao bicudo baseia-se em cinco pontos, que adotados em conjunto por todos os produtores participantes, fundamentalmente visa eliminar a primeira geração da praga regionalmente. São eles:

1. Aplicar inseticida altamente eficiente no final do ciclo da cultura, no momento do desfolhante/maturador;

2. Manter a entressafra livre de alimento para a praga (rigoroso controle das plantas de algodão - foto - veja no final do texto como visualizar este artigo, com fotos e tabelas, em PDF). Deixar um período mínimo e ideal de 4 meses livre de algodoeiros ou soqueiras (de agosto até dezembro). Manter um controle altamente eficiente da sementeira ou tiguera de algodão nas culturas subseqüentes. Enfim, obedecer a legislação.

3. Concentrar a época de semeadura da macro-região em até 40 dias;

4. Tratamento rigoroso nas bordaduras com inseticida (foto), as quais devem ter 40 m de largura, inclusive nas cabeceiras.

Estas aplicações nas bordaduras devem começar no primeiro sinal da praga, na situação que primeiro ocorrer:

a) aparecer o 1º bicudo nas armadilhas de feromônio (foto);

b) for encontrado o 1º bicudo na lavoura (bordadura);

c) aparecer o 1º botão floral na área;

5. Uma a duas aplicações, conforme intensidade da praga, em área total no momento da emissão dos primeiros botões florais;

Solidificando o manejo

Nas propriedades, devem ser adotadas as medidas usuais de manejo de pragas.

a) Nível de controle: 5% de botões atacados, devendo-se amostrar 250 botões preferidos por talhão de até 100 ha.

b) Usar inseticidas eficientes para o controle de bicudo, evitando-se o uso de piretróides antes dos 70 a 80 dias (inclusive bordaduras e plantas iscas, pois são produtos repelentes, e a praga pode se espalhar para o interior da área precocemente). Evite produtos que desequilibram populações de ácaro rajado.

Uso racional de inseticidas

Levando em conta os produtos atualmente disponíveis, eficácias de controle, manejo da resistência (rotação de modos de ação de produtos, ver tabela), prevenção de desequilíbrios biológicos, tecnologias de aplicação disponíveis, seletividade a inimigos naturais e custos de produção, são sugeridos:

1) Tratamento de bordaduras: paration metílico ou fosmet a cada cinco dias. Se aí existir focos iniciais de ácaro, na 1ª aplicação destas bordaduras acrescentar à calda um acaricida a base de abamectin + óleo, fazendo a pré-mistura. Caso as plantas ainda estejam muito pequenas, usar doses reduzidas do abamectin. Nas aplicações subsequentes de bordadura utilizar abamectin + óleo a cada 15 dias, se for necessário o acaricida.

2) Tratamento da área total: endosulfan por ocasião dos primeiros botões florais, e até os 80 dias de idade da cultura quando a praga atingir nível de controle. A partir dos 80 dias passar a usar os inseticidas piretróides formulação SC ou EW, como betaciflutrina, deltametrina ou zetacipermetrina, entre outros, desde que registrados e altamente eficientes para o bicudo.

Integrando as medidas de controle

a) Plantio isca: nas áreas adjacentes aos refúgios da praga (matas, capoeiras, capinzais, proximidade de rios ou aguadas e focos) pode-se instalar o plantio-isca nos bordos da cultura para atrair os insetos que conseguiram sobreviver durante a entressafra, pulverizando-o metodicamente;

b) Variedade, espaçamento, densidade e altura de plantas: variedades que formam carga mais cedo e em período curto permitem a redução da fase crítica das plantas em relação à praga, além de possibilitar que a colheita e a destruição dos restos culturais também seja antecipada. O espaçamento, a densidade e altura de plantas devem permitir populações adequadas de algodoeiros, evitando-se o fechamento excessivo da cultura, que dificulta a boa fotossíntese e as pulverizações. O uso de regulador de crescimento é necessário nas áreas em que as plantas tenham crescimento exagerado;

c) Catação dos botões florais e maçãs caídas: visa coletar e destruir as estruturas que caíram no solo, matando larvas e pupas do bicudo. É de fácil aplicabilidade nas reboleiras, bordaduras e plantio-isca, bem como em área total nas pequenas lavouras. A operação de catação manual dos botões e/ou maçãs novas que caem da planta deve ser feita até os 80 dias após a emergência das plantas, sendo recomendável sua realização a cada 5 dias a partir do início da queda dos botões;

d) Uso do desfolhante: permite também uma única, rápida, e eficiente colheita. Ao ser usado com inseticida tem seu benefício ampliado no controle do bicudo;

Essa ação de responsabilidade para com a cotonicultura da região é um exemplo positivo, pois sua adoção não permite que tenham descrédito pelo uso incorreto das tecnologias disponíveis ou pelo simples desleixo em relação a atitudes que devessem adotadas coletivamente. A seguir encontram-se os custos comparativos da tecnologia de bloqueio versus o convencional, evidenciando os benefícios econômicos:

A adesão de todos os produtores e consultores regionalmente a estas medidas, tem reduzido significativamente o potencial de infestação da praga e por conseqüência o número de aplicações de inseticidas para a praga, na safra, com benefícios econômicos, ecológicos e sociais que se alinham com a sustentabilidade. E, para as próximas safras, todos os produtores têm sido convidados para aderir às ações regionais com vistas a um bloqueio ainda mais efetivo e vantajoso para todo agronegócio do algodão baiano.

Têm estado envolvidos com a estratégia proposta os seguintes engenheiros agrônomos consultores da região: Ezelino Carvalho, José Olinto Giongo e Sidnei Antonio Marchesan da Proplanta; Celito Eduardo Breda e Pedro Brugnera da Círculo Verde; Antonio Cássio de Oliveira Filho da Plasteca; José Cláudio de Oliveira da Jco Agronômica; além dos agrônomos autônomos João Rosin e Valmor dos Santos. Além destes profissionais, as entidades de pesquisa e representação dos produtores (Fundação Bahia, Abapa e Aiba), Secretaria Estadual da Agricultura (Seagri, Ebda e Adab), empresas fornecedoras de insumos, equipamentos e serviços têm sido fundamentais. Sem a participação dos quais não seria possível atingir este sucesso nesta safra.

Paulo E. Degrande,
UFMS;
Ezelino Carvalho,
Proplanta;
Celito E. Breda,
Círculo Verde

* Este artigo foi publicado na edição número 30 da revista Cultivar Grandes Culturas, de julho de 2001.

* Confira este artigo, com fotos e tabelas, em formato PDF. Basta clicar no link abaixo:

/arquivos/gc30_bloqueio.pdf
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