Bom investimento

Historicamente, a batata-doce teve origem na América Tropical, sendo levada para a Europa pelos portugueses e espanhóis, difundindo-se posteriormente para os demais continentes, sendo cultivada em todas as zonas tropicais e temperadas.

Ocupa o sétimo lugar em importância de produção no mundo e, segundo documentos da FAO, o quarto lugar nos trópicos. No Brasil, a área ocupada com batata-doce é superior a 78 mil hectares, e se trata de uma cultura de grande repercussão sócio-econômica para a Região Sul, que é responsável por 54% da safra nacional. No Rio Grande do Sul algumas regiões destacam-se no cultivo da batata-doce: Pelotas, Capão do Leão, Morro Redondo, Turuçu, São Lourenço do Sul, Canguçu, Tapes, Guaíba, Cristal, Barra do Ribeiro, São Borja e Quaraí, constituindo-se no principal produtor, com 22 mil ha plantados, obtendo produção de 200 mil toneladas, embora seu rendimento médio (9,6 t/ha) seja considerado muito baixo, comparativamente com Santa Catarina (14,7 t/ha) e Paraná (14,8 t/ha).

Problema de viroses

A batata-doce pode ser utilizada, tanto para o comércio como para a produção de alimentos de subsistência, principalmente por produtores de base familiar, através da produção de raízes comerciais e alimentação de animais, utilizando resíduos da parte aérea da planta e descartes de raízes, entretanto, vários fatores são limitantes de produção. Deve-se considerar que, sob a alegação de ser um cultivo rústico, pouco exigente, são raros os investimentos e o uso de tecnologia, podendo ser destacado o desconhecimento sobre cultivares e a infecção por viroses.

Como principais vírus que ocorrem na batata-doce, podem ser citados o mosqueado plumoso da batata-doce (SPFMV) que é transmitido por afídeos e causa sintomas de clareamento de nervuras e manchas cloróticas das folhas; o mosqueado suave da batata-doce (SPMMV), transmitido pela mosca branca (Bemisia tabaci) ocasiona sintomas de mosaico e nanismo; o latente da batata-doce (SPLV) que ocorre em forma latente na maioria das cultivares, podendo ocasionar clorose e clareamento de nervuras e o da mancha clorótica da batata-doce (SPCFV), que também é transmitido por afídeos e determina sintomas de clorose, mosaico internerval, deformações nas folhas e nanismo.

Acredita-se que, praticamente, todas as cultivares plantadas no Sul do Brasil estejam infectadas por um ou mais vírus, entretanto, ainda não são conhecidos os vírus que ocorrem e os danos por eles ocasionados. Para que cada germoplasma mostre seu potencial produtivo, faz-se necessário a limpeza de patógenos, através do processo de cultura de tecidos. Esta técnica está baseada no fato de que qualquer célula vegetal contém toda a informação necessária para regenerar uma planta completa, através de processos de diferenciação. Testes de competição, utilizando plantas livres de vírus e plantas comuns, mostraram ganhos de até 126%, em relação ao número de raízes e peso de raízes comerciais, respectivamente.

Uma das atividades desenvolvidas na Embrapa Clima Temperado tem por objetivo a seleção de cultivares recomendadas para plantio, devido às suas características agronômicas. De forma geral, as cultivares de polpa branca são predominantes, devido às preferências de mercado, entretanto, as que apresentam polpa amarela, são ricas em pró-vitamina A e têm boa aceitação na indústria.

Paralelamente, estão sendo produzidas plantas matrizes, isentas de viroses, das principais cultivares selecionadas. Ao mesmo tempo, são desenvolvidas tecnologias que permitam ao produtor utilizar mudas com alta sanidade a custos acessíveis.

O programa que, atualmente, está em execução na Embrapa Clima Temperado envolve atividades que têm por objetivo a produção de mudas com alta sanidade, anualmente fornecidas a produtores de batata-doce que recebem orientação no sentido de estabelecerem, em suas propriedades, matrizeiros que possibilitem a multiplicação do material inicial adquirido, mantendo suas características fitossanitárias e reduzindo gastos na compra do material básico inicial.

A tecnologia para implantação do matrizeiro envolve a aquisição do material de origem diretamente na Embrapa Clima Temperado, obtido a partir de matrizes propagadas nas condições de laboratório, isentas de enfermidades e com confiabilidade em relação às características genéticas. As plantas iniciais, com hastes contendo de 6 a 8 folhas, devem ser mantidas em vasos ou canteiros sob condições de estufa plástica, para evitar danos causados pelo frio. Quando as plantas apresentarem ramas vigorosas, com 60 cm de comprimento, deve ser iniciado o corte delas à altura de quatro a seis folhas, partindo-se da base para não prejudicar a planta matriz. O material é seccionado de forma que apresente uma folha acompanhada de uma gema e um pequeno fragmento de caule com 1 cm de comprimento, sendo colocado para enraizar em frascos, com capacidade de 200 ml, contendo apenas água potável, sob temperatura ambiente entre 25 e 35°. Posteriormente, as mudas devem ser plantadas em canteiros, sob condições controladas quando destinam-se ao plantio dentro da propriedade ou, em pequenos vasos plásticos, quando o destino visa a comercialização ou o transporte a longas distâncias.

Durante toda a fase vegetativa da cultura, deve ser mantido rigoroso controle de afídeos (pulgões), principalmente devido à facilidade com que esses insetos proliferam em locais abrigados e na ausência de inimigos naturais, constituindo-se no principal meio de transmissão de viroses.

Normalmente, o índice de enraizamento das estacas de folha única é de 100%, e o desenvolvimento médio das raízes é de 3 centímetros, no período de 6 dias, nas cultivares Americana e Morada Inta e, de 8 dias, na cultivar Abóbora. O pegamento das mudas, sob condições de campo, é de 98%, ocorrendo murchamento das folhas nas primeiras horas após o plantio. O início do surgimento da brotação, ao nível do solo, ocorre 7 dias após o plantio. Nas cultivares. Abóbora e Americana, plantas com tamanho médio de 20 centímetros, podem ser obtidas 28 dias após o plantio.

A multiplicação vegetativa das mudas matrizes produzidas in vitro tem a vantagem de ser menos trabalhosa do que a multiplicação em laboratório e de ser um processo rápido e de baixo custo. O processo recomendado permite que cada uma das folhas da planta matriz adquirida origine uma nova planta, idêntica à anterior e com alto nível de sanidade. Para o produtor, essa metodologia torna mais acessível a aquisição de mudas provenientes de plantas cultivadas em laboratório, reduzindo custos na aquisição do material básico e, inclusive, interferindo em gastos relacionados ao transporte de mudas entre locais distantes.

Principais cultivares

As principais cultivares que estão sendo trabalhadas, devido às suas características agronômicas e aceitação no mercado consumidor são:

• Da Costa: Apresenta rama normal, hábito rasteiro, casca e polpa brancas, raízes de tamanho médio a grande, número regular de raízes por planta, boa produtividade.

• Americana: Possui ramas normais, vigorosa, hábito rasteiro, casca e polpa brancas, consistência pastosa, número regular de raízes por planta, produtividade alta.

• Morada Inta: Desenvolvida na Argentina (INTA), e introduzida no Sul do Brasil pela Embrapa Clima Temperado. Apresenta rama curta, hábito semi-ereto, casca roxa e polpa amarela, consistência pastosa, raízes comestíveis de tamanho médio a pequeno e em grande número por planta, boa produtividade.

• Abóbora: Introduzida no Rio Grande do Sul pelas indústrias do município de Pelotas. Apresenta rama normal, hábito rasteiro, casca ligeiramente arroxeada e polpa amarela, consistência pastosa. Raízes comestíveis de tamanho médio a grande, produtividade alta.

Recomendações técnicas

Nas condições de campo, a melhor época para plantio das mudas, corresponde aos meses de outubro, novembro e dezembro. Como norma geral, a tbatata-doce se desenvolve em qualquer tipo de solo. Entretanto, são considerados ideais os solos mais leves, areno-argilosos, soltos, bem estruturados, com média ou alta fertilidade, bem drenados e com boa aeração. Os espaçamentos mais utilizados para produção de raízes são de 0,80 a 1,00 m entre leiras e 0,25 a 0,50 m entre plantas. Durante o plantio, as mudas devem ser retiradas dos vasos, onde ocorreu o desenvolvimento inicial, fazendo-se a poda das raízes enoveladas que se formaram na base. Caso contrário, ocorrerá menor formação de raízes e raízes mais alongadas.

A escolha cuidadosa do local de plantio, o arranquio e queima de plantas doentes e a rotação de culturas, por dois ou três anos, sãomedidas de prevenção para manter a sanidade das plantas. Como norma geral, todas as plantas que se apresentarem fora do padrão da culativar, com deformações, crescimento reduzido, manchas ou pontuações estranhas, devem ser erradicadas. O controle da reinfecção por viroses é feito através do controle de insetos vetores (pulgão, mosca-branca), isolamento de lavouras, assepsia de ferramentas e equipamentos utilizados nos tratos culturais. Tem-se recomendado a amostragem da lavoura e realização de tetes para diagnose de viroses, com o objetivo de avaliar a ocorrência de reinfecções.

Luis Antônio Suita de Castro
Embrapa Clima Temperado

* Este artigo foi publicado na edição número 10 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de outubro/novembro de 2001. ver mais artigos
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