Caderno Técnico Agosto Parte 1: Foco no vegetativo

Várias doenças afetam a soja no Brasil, causando prejuízos ao rendimento e à qualidade de grãos. A ferrugem asiática é a mais importante, e responde por mais de 80% da demanda em aplicações de fungicida na cultura. O complexo de manchas foliares e a antracnose compõem o segundo grupo em importância, seguidas pelo mofo-branco e pelo oídio. Essa ordem de relevância varia conforme a região considerada, época de semeadura e condições ambientais de cada safra.


As manchas foliares e a antracnose (Figura 1) são causadas por fungos necrotróficos, os quais, na entressafra, permanecem nas sementes e nos restos culturais na lavoura. Por este motivo, são as primeiras doenças presentes na cultura, logo na fase vegetativa, assim que se esgota a proteção pelo tratamento de sementes. Quanto mais jovens as plantas, maior a sua suscetibilidade a estes fungos, que também podem infectar e colonizar as plantas sem produzir sintomas em todas elas. Em termos práticos, na fase vegetativa da cultura da soja, há muito mais infecções presentes em relação àquelas que a quantificação por sintomas pode determinar.

Figura 1 - Principais doenças causadas por fungos necrotróficos já presentes na fase vegetativa da cultura da soja
Figura 1 - Principais doenças causadas por fungos necrotróficos já presentes na fase vegetativa da cultura da soja.

A importância, a necessidade, o benefício e, consequentemente, a decisão de aplicar fungicidas na fase vegetativa da cultura da soja dependem de vários fatores. O cultivo contínuo de soja nas mesmas áreas assegura a presença das manchas foliares e da antracnose todos os anos. O que varia é a sua intensidade, proporcional à temperatura e à frequência de chuvas na fase inicial da cultura. Nas regiões com temperaturas mais amenas, pode haver menor pressão inicial destas doenças, porém o oídio e, também, a ferrugem (assintomática) se fazem presentes, como ocorre no Sul do Brasil, em vários locais. Portanto, sempre há presença de doenças a serem controladas na fase vegetativa da soja. O que muda são a prevalência de umas sobre as outras e a sua intensidade. Por isso, o benefício da aplicação de fungicidas é também variável.

A viabilidade da aplicação de fungicidas na fase vegetativa da soja tem sido estudada em alguns cenários de cultivo da soja. Em nossos experimentos, o objetivo tem sido avaliar a contribuição do tratamento em dois momentos específicos: pré-fechamento das entre linhas (assegurar a deposição do fungicida no terço inferior da planta) e alguns dias antes, na carona de aplicação de herbicida.

Nos últimos 12 anos de pesquisa, a maior parte deles ainda como professor e pesquisador junto à Universidade de Passo Fundo, comparando experimentos com e sem aplicação no vegetativo (pré-fechamento das entre linhas), observamos que a diferença média foi de 360kg/ha. Na safra de soja 2018-19, com maior presença de doenças, inclusive a ferrugem, em cultivos estabelecidos em novembro, essa diferença atingiu até 654kg/ha. A falta da aplicação no pré-fechamento reduziu o controle das manchas foliares de 63,4% para 31,7%, e da ferrugem de 69,6% para 40,8%.

Nesta mesma safra 2018/19, dois experimentos foram conduzidos em Passo Fundo, Rio Grande do Sul, com cultivar de soja de grupo de maturação 5.9, com número variável de aplicações de fungicida. Era objetivo avaliar a contribuição de aplicações iniciais e finais no rendimento de grãos da cultura. Os resultados constam na Tabela 1, com algumas fotos na Figura 2. Nos tratamentos T2 a T6 foram utilizados diferentes fungicidas, entre T7 e T11 um único produto. Nota-se grande variação na produtividade com a subtração das aplicações na fase vegetativa (30 dias e 40 dias).

Figura 2 - Parcelas de soja com número variável de aplicações de fungicida. Passo Fundo, RS, 2018-19
Figura 2 - Parcelas de soja com número variável de aplicações de fungicida. Passo Fundo, RS, 2018-19.

Variações na contribuição das aplicações de fungicida são absolutamente normais, por isso devem ser avaliadas regionalmente, e em diferentes safras. Em 2017-18, em cultivos na primeira metade da janela de semeadura, os tratamentos realizados no estádio V5 proporcionaram diferenças de 222kg/ha. No outro extremo, na safra 2018-19, em semeaduras na segunda metade da janela de plantio, a contribuição chegou a 948kg/ha. A realização desta aplicação passa a ser uma alternativa, por várias razões: controla infecções recém-instaladas e previne a ocorrência de outras, se realizada com fungicidas compatíveis com herbicidas permite sua utilização conjunta e flexibiliza o operacional da próxima aplicação.

A escolha dos fungicidas que serão aplicados depende das doenças a serem controladas. Em áreas de monocultura de soja, o foco principal são os fungos necrotróficos causadores das manchas foliares e da antracnose. Dependendo da região e da época de semeadura, também o oídio e a ferrugem-asiática. A contribuição dos fungicidas benzimidazóis é, atualmente, muito pequena, em função da resistência já desenvolvida por vários fungos. Triazóis como o difenoconazol têm sido bastante úteis. Em experimento conduzido na safra 2018-19, em Passo Fundo, com cultivar de soja superprecoce, uma aplicação de difenoconazol + propiconazol aos 30 dias proporcionou diferenças de 378kg/ha a 576kg/ha.

Semeaduras mais tardias, sujeitas à presença da ferrugem-asiática, requerem combinações mais robustas, como mesclas de triazóis, triazóis + multissítios, ou triazóis + estrobilurinas, como exemplificado na Tabela 2. Neste experimento, apenas a primeira aplicação variou, enquanto as demais foram realizadas com o mesmo tratamento, em cada época de aplicação, em toda a área. Houve diferenças de 78kg/ha a 948kg/ha conforme o fungicida utilizado, com maior contribuição das misturas de triazóis + estrobilurinas, ou triazóis + multissítios, por conta do melhor controle da ferrugem-asiática.

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O próximo momento importante na aplicação é aquele do pré-fechamento das entre linhas, que objetiva o controle de manchas foliares, antracnose, oídio e ferrugem. Este já requer a utilização de opções mais completas, incluindo reforços, que podem ser com triazóis ou multissítios (mancozebe, clorotalonil ou cúpricos). A escolha dos fungicidas e dos reforços irá depender das doenças predominantes na lavoura, em função da época de semeadura e da condição ambiental. A Tabela 3 apresenta o resultado médio de dois experimentos semelhantes, conduzidos em dois locais (Passo Fundo, Rio Grande do Sul, e Cotripal Condor-Rio Grande do Sul) e duas cultivares. A aplicação em V7 reduziu a severidade das doenças de final de ciclo de 13,5% para 4,9% a 7,2%. Sobre a ferrugem, a redução foi de 46,7% para 28,4% a 38,2%. O reflexo na produtividade de grãos variou de 306kg/ha a 525kg/ha.

Como comentado anteriormente, a contribuição de aplicações de fungicida na fase vegetativa da soja varia conforme o histórico de cada lavoura, em função da região, da época de semeadura, da condição de ambiente e da prevalência de doenças. Por isso, as indicações de manejo devem ser regionalizadas e ajustadas às condições de cada cultivo de soja.

Caderno Técnico Agosto Parte 2: Mais que essencial


Carlos A. Forcelini 

Doutor em Fitopatologia

Rafael Roehrig

Mestre em Fitopatologia

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