Caderno técnico Soja Parte 1: Manejo estratégico


Devido à grande diversidade de doenças na cultura da soja, os manejos são dependentes de estratégias operacionais e técnicas. Além disso, cada vez mais se faz necessário reunir diversas ferramentas para aumentar a eficiência, tornando o manejo integrado uma estratégia obrigatória para um controle efetivo e sustentável. 

Nas safras de soja anteriores, os produtores do Rio Grande do Sul se depararam com um cenário ameno de pressão de ferrugem asiática na soja, que teve uma ocorrência mais tardia, influenciada, principalmente, por condições de clima. Entretanto, na safra 2018/19, em virtude da combinação de alguns fatores, a pressão da doença foi alta, superior às safras anteriores, causando danos mais severos em lavouras de todo o Estado. A maior severidade da ferrugem asiática pode estar relacionada à manutenção de plantas voluntárias de soja no campo, no período de inverno de 2018, o que pode ter contribuído para a sobrevivência e multiplicação de inóculo de Phakopsora pachyrhizi, já nos meses de setembro e outubro. 

Além disso, a janela de semeadura da soja se estendeu por 60 dias, em virtude de altos volumes acumulados de chuva que afetaram o estabelecimento de plantas e levaram diversos produtores a ter que ressemear suas áreas. Esse longo período de semeadura dificultou o manejo no campo. Quanto ao clima, esse foi favorável, com chuvas frequentes, elevada umidade e temperaturas mínimas em média 1,0ºC maiores que as da safra 2017/18 (Figura 1).

Nesse cenário favorável às doenças, além da ferrugem asiática, foi observada no campo a ocorrência de manchas foliares (Septoria glycines e Cercospora kikuchii) e de antracnose (Colletotrichum truncatum) em todas as regiões do Estado. São doenças comumente presentes, e que, dependendo das condições de ambiente, podem apresentar maiores severidades, como, por exemplo, safras mais chuvosas. Além dessas doenças foliares, foram verificados, em muitas áreas, problemas radiculares causados por fungos de solo, predominantemente Phytophthora sojae, que podem ocorrer desde o estabelecimento da lavoura e também atacar plantas adultas, causando seca da haste e consequentemente morte de plantas em reboleiras. 

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O dano das doenças foi maior na safra 2018/19, comparadamente ao ocorrido nas safras anteriores. Isso pode ser observado na Figura 2, que apresenta a produtividade de parcelas testemunhas (sem tratamento fungicida) da cultivar M5947 Ipro, semeada na mesma área e no mesmo período nas últimas três safras. A produtividade obtida na safra 2018/19 foi 16 sc/ha menor que na 2016/17. É provável que essa redução na produtividade da soja tenha sido influenciada, dentre diversos fatores, pela maior severidade das doenças, principalmente a ferrugem. A safra 16/17 foi de baixa pressão de ferrugem asiática, enquanto na de 18/19, a ferrugem começou mais cedo e atingiu maiores níveis de severidade, explicando em parte esse resultado. Notadamente, essa maior pressão de doenças nessa última safra, em áreas comerciais, desafiou os produtores quanto ao manejo e teve influência direta na sua rentabilidade. Além disso, deixa claro que as doenças são resultado da interação planta x patógeno x ambiente e que não se pode esperar que seu comportamento seja o mesmo em todas as safras.

Em relação ao uso de fungicidas no controle da ferrugem nessa safra, percebeu-se que, em muitas áreas, o sucesso foi determinado pelo momento em que o programa foi iniciado. A Figura 3 mostra o incremento de produtividade referente ao manejo de doenças com três aplicações posicionadas a partir do estádio reprodutivo, e o incremento do programa fungicida com quatro aplicações, iniciado no vegetativo. A época de semeadura do ensaio foi em 30 de outubro, período considerado cedo para o Rio Grande do Sul. Os dados indicam que a primeira aplicação iniciada no vegetativo foi responsável por 55,5% do incremento produtivo proporcionado pelo programa fungicida. De forma geral, na safra 2018/19, na grande maioria dos programas fungicidas avaliados, a primeira aplicação foi determinante para o sucesso do controle das doenças e para a proteção do potencial produtivo da soja.

Em lavouras do Rio Grande do Sul, os produtores enfrentaram algumas dificuldades operacionais por terem lavouras em diferentes estádios de manejo e janelas de aplicação um tanto curtas, devido às condições de clima, principalmente os longos períodos de chuva. Em muitos casos houve atraso nas aplicações, devido à impossibilidade de entrar nas áreas, refletindo em intervalos de aplicação muito longos. Dados de diversos experimentos conduzidos no Instituto Phytus evidenciam que, a partir do reprodutivo, intervalos de 15 dias entre aplicações se mostram adequados para maior consistência na proteção, e o ideal é que esse intervalo não ultrapasse 18 dias, considerando uma margem por dificuldades de aplicação. 

Outro resultado bastante relevante da safra 2018/19, que reitera os obtidos em safras anteriores, é a necessidade do reforço das aplicações com fungicidas multissítios protetores ou fungicidas sistêmicos (morfolina ou triazóis). A adição de multissítios resultou em incrementos de 15% a 20% na eficácia de controle da ferrugem asiática. Ainda, em relação ao reforço com multissítios, notou-se incrementos variando de 0,4sch/ha a 10,5sc/ha na produtividade. Além dos benefícios no incremento de controle e produtividade, a adoção de multissítios tem sido fundamental como estratégia de manejo da resistência, tanto em casos já existentes como na tentativa de prevenir novos casos. Essa contribuição dos multissítios em relação à resistência é importante para todos os envolvidos na cadeia produtiva, inclusive para os produtores. Os reforços reduzem os riscos de falhas de controle, que são um risco iminente aos produtores, pois podem resultar em grandes prejuízos econômicos. Historicamente, há relatos de casos de falhas de controle em que foram notados aumentos de custos, não só pela necessidade de novas aplicações, mas essencialmente pela produção perdida para a doença. 

Frente à evolução dos problemas fitossanitários é fundamental a adoção de diversas estratégias dentro de um programa integrado de manejo. Especificamente no caso de ferrugem, é importante realizar semeaduras no início da época recomendada para cada região, utilizando cultivares mais precoces, com um bom arranjo de plantas e adequados níveis nutricionais. Em relação ao uso dos fungicidas, é essencial o posicionamento assertivo, principalmente do início das aplicações, que deve se dar de forma preventiva, preferencialmente no estágio vegetativo, possibilitando maior deposição de gotas no terço inferior da planta, e conferindo não apenas proteção contra a ferrugem, mas também a todo o complexo de doenças, incluindo oídio, manchas e antracnose. 

Somado às práticas anteriores, é importante manter ajustados os intervalos entre aplicações, diversificar e rotacionar fungicidas de diferentes mecanismos de ação, utilizar produtos de reforço, principalmente os fungicidas multissítios, e adotar uma boa tecnologia de aplicação. Fica evidente ao longo das safras, que muitas vezes pequenos ajustes são responsáveis por importantes ganhos em produção, que não apenas podem pagar os custos de controle, mas também trazer mais rentabilidade ao produtor.

Figura 1 - Comparativo da temperatura mínima média (ºC) e chuva acumulada (mm) nos meses de novembro a março, das safras 2017/18 e 2018/19


Figura 2 - Produtividade média das parcelas sem tratamento fungicida da cultivar de soja Monsoy 5847 Ipro, ao longo de três safras, sempre semeada na primeira semana do mês de dezembro, em Itaara/RS


Figura 3 - Produtividade da soja (BMX Tornado RR) semeada em 30/10/2018, em função da aplicação de fungicida iniciado na fase vegetativa e reprodutiva, comparada ao tratamento testemunha, em experimento conduzido durante a safra 2018/19 em Itaara/RS


Confira a parte 2 aqui.

Confira a parte 3 aqui.

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Mônica P. Debortoli

Phytus Group

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