Campo minado

O ataque da mosca-minadora Liriomyza sp (Diptera: Agromyziidae) vem tirando o sossego dos produtores de melão. Em algumas regiões a praga já passou a ser conhecida como “mosca exterminadora”. No Nordeste, produtores chegam a cobrir as plantações com tecido não tecido (TNT) para tentar conter a invasão. Evidências apontam que o avanço do inseto está associado ao uso abusivo de inseticidas.

O principal prejuízo se refere à redução na área foliar uma vez que a praga ataca exclusivamente as folhas das culturas. Plantas atacadas não se desenvolvem adequadamente e com isso ocorre redução na produção. A mosca-minadora pode iniciar o ataque imediatamente após a emergência das plantas e causar a destruição total da folhas cotiledonares ou primeiras folhas definitivas. Se o ataque se iniciar logo após a emergência das plantas e se manter por todo o ciclo, o prejuízo pode ser elevado devido à redução drástica na produção final. Alguns produtores de melão nos estados do Ceará e Rio Grande do Norte estimam redução de até 40% nesta safra de 2003 devido ao ataque da praga. Isso pode representar perda de pelo menos mil caixas de melão por hectare, o que resulta num prejuízo de aproximadamente R$ 6.700,00 por hectare (ou US$ 2.300.00).

Na cultura de melão, o aparecimento do amarelão, doença transmitida pela mosca-branca, levou os produtores a adotar o uso freqüente de inseticidas como única medida de controle. Depois disso é que a larva-minadora passou a merecer destaque como praga séria da cultura. Isso é um indicativo de que a mosca-minadora é uma praga séria apenas nas lavouras em que as aplicações de inseticidas são realizadas com bastante freqüência. Aliás, isso já foi evidenciado em produção de hortaliças na Holanda, Estados Unidos e Brasil. Lavouras que receberam menor número de aplicações de inseticidas apresentaram menor infestação da praga. Isso ocorre porque diversos inimigos naturais como vespinhas (Opius sp.), que parasitam as larvas são responsáveis por manter baixa a infestação da mosca-minadora. Portanto, a adoção dessa estratégia exclusivamente pode não causar a redução desejada da população da praga. Além disso, seguramente, aplicações em demasia dos poucos inseticidas registrados para o controle (ex.: abamectin e cyromazine) podem acarretar o desenvolvimento de populações resistentes. Assim, o produtor deve evitar a aplicação excessiva de produtos, pois isso deverá causar mais problemas.

A estratégia mais adequada para o controle é o Manejo Integrado de Pragas (MIP). Os produtores de melão devem adotar medidas integradas de controle dentro do contexto de produção integrada para não só terem sucesso no controle das pragas, como também garantir a comercialização dos frutos com maior qualidade devido à ausência de resíduos. Atualmente, isso é uma exigência dos mercados consumidores, como por exemplo, o mercado comum europeu.

Sistema de amostragem no Manejo Integrado

No MIP, os produtores devem adotar inicialmente o sistema de amostragem para avaliação populacional da praga. Primeiramente, a área deve ser dividida em talhões de no máximo 4 ha. Em cada talhão, 20 plantas devem ser amostradas. A amostragem da mosca-minadora e folhas atacadas deve ser realizada na ponta da rama (folhas do 3º e 4º nó). Caso o produtor encontre 50 % de plantas com adulto da mosca-minadora ou 20 % de plantas com sintomas (folhas atacadas com larvas vivas), então deve adotar medida de controle, ou seja, realizar a aplicação de inseticidas registrados, procurando realizar a rotação de produtos com modo de ação distinto para evitar problemas de desenvolvimento de resistência. Apesar de haver poucos inseticidas registrados para controle da praga na cultura do melão, outros produtos poderão ter o registro aprovado para liberação, tais como flufenoxuron e spinosad.

Ainda, outras medidas que também são adotadas para evitar problemas com outras pragas e doenças podem ser utilizadas para reduzir o problema da mosca-minadora. Dentre essas medidas pode-se destacar o plantio contra o vento predominante, destruição dos restos culturais logo após a colheita, correção do pH da calda, regulagem correta do equipamento de pulverização (pressão, bicos adequados, etc.). Com a adoção dessas medidas, os produtores poderão favorecer a manutenção de inimigos naturais que normalmente causam redução da população de mosca-minadora.
Em Itaiaçaba, no Ceará, a adoção do sistema de amostragem para avaliação da infestação de mosca-branca proporcionou controle adequado tanto desta praga como da mosca-minadora. Do mesmo modo, produtores de melão em Quixere, têm realizado amostragem de pragas e adotado rotação de produtos. Com isso, não estão tendo qualquer problema sério de ataque de pragas. Isso demonstra a eficácia do MIP. Além disso, quem produz melão para exportar para a Europa deve se adequar o mais breve possível às exigências do EUREPGAP, ou seja, adotar padrões de produção integrada, nos quais o MIP é uma das peças fundamentais.

Odair Aparecido Fernandes,
FCAV/UNESP

* Este artigo foi publicado na edição número 23 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de dezembro/2003 - janeiro/2004. ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura