CGB - Continua o problema

A Campilobacteriose Genital Bovina (CGB) é considerada uma doença venérea, causada por uma bactéria Gram negativa denominada Campylobacter fetus subsp. Venerealis, cujo habitat natural é o trato reprodutivo dos bovinos. Embora tenha sido relegada a um segundo plano no rol de doenças da reprodução consideradas de maior impacto econômico, a falta de um diagnóstico sistemático e controle dessa doença nas últimas décadas, tem mantido-a como uma das mais freqüentes em rebanhos que apresentam problemas reprodutivos persistentes. Este trabalho tem por objetivo informar sobre o panorama atual da situação da Campilobacteriose Genital Bovina no país, fornecendo subsídios para o seu diagnóstico e controle.

Epidemiologia e Sinais

A CGB entrou no cenário da pecuária nacional em1956 (Dápice, 1956) e, mais recentemente, outros trabalhos realizados têm indicado que, no rebanho nacional, a taxa de ocorrência de touros infectados está variando de 23,9% a 56%. (Genovez et al.,1989; Lage et al.,1997; Jesus et al.1999 e Pellegrin, 2001).

Os touros são os portadores inaparentes do C. fetus subsp. venerealis, mantendo-o nas criptas (dobras) da mucosa prepucial e transmitindo-o durante a monta, para até 100% das fêmeas cobertas. Não se tem registro de recuperação espontânea dos touros.

Os fatores de risco considerados mais importantes para ocorrer a entrada/manutenção da doença no rebanho são: o uso da monta natural, utilização de grande percentual de touros velhos no rebanho, falta de controle sanitário dos touros, aquisição de touros já adultos (Stoessel, 1982), touros de repasse associado à inseminação artificial e manejo reprodutivo que utiliza monta o ano inteiro.

Os sinais da presença da CGB freqüentemente passam despercebidos. Pode-se suspeitar da sua presença no rebanho quando há alta taxa de retorno ao cio, um alongamento do intervalo entre partos, reflexo do grande número de vacas e, principalmente novilhas, que falham em conceber ou concebem tardiamente no período de monta. Nas novilhas, este sinal, muito sugestivo, pode ser percebido em mais de 75% dos animais, sendo que nestes a taxa de prenhez pode chegar a 20% da taxa comumente observada em rebanhos sadios. O produtor percebe também que os ciclos ficam mais prolongados, variando entre 24 e 40 dias (Newsan, 1960; Dekeiser, 1986). Quando uma novilha se infecta, a bactéria pode manter-se na mucosa vaginal por um período que varia de 6 meses a 2 anos. Entretanto, esta pode tornar-se fértil novamente, cerca de três a seis meses após cobertura caso não seja novamente infectada (Dekeiser, 1986). Apesar de alguns autores relatarem também a ocorrência de abortos em torno do 5o mês de gestação (Dekeiser, 1984), isto é menos freqüente.

Métodos de Diagnóstico

Os métodos de rotina disponíveis no Brasil atualmente são o isolamento, a imunofluorescência direta, que podem ser utilizados para o diagnóstico individual, a muco-aglutinação e, experimentalmente o Elisa IgA (Pellegrin, 2001), que pode auxiliar também na triagem de rebanhos e, também, o ensaio da polimerase em cadeia (PCR) que ainda necessita mais estudos para sua aplicação. Para o diagnóstico de fêmeas portadoras podem ser utilizados o isolamento e a muco-aglutinação e, para a detecção de touros portadores no rebanho, também o isolamento e a imunofluorescência direta. O isolamento é o único que tem 100% de especificidade, significando que animais positivos neste método são realmente considerados positivos. A imunofluorescência direta é um método de grandes vantagens porque pode ser efetuado em menor espaço de tempo, não tendo o seu resultado comprometido pela presença de contaminantes (o que compromete o isolamento), e o material pode ser acondicionado sob refrigeração durante um período de tempo maior até o seu envio ao laboratório.

Uma boa coleta do material é fundamental para o sucesso do diagnóstico. Para a imunofluorescência, o lavado prepucial pode ser coletado com uma técnica adaptada por Leite (1995) e para coletar muco vaginal, a técnica do tampão intra-vaginal, descrito por Fernandes & Gomes (1992). De todos os aspectos a serem considerados no diagnóstico da Campilobacteriose Genital Bovina devemos enfatizar a necessidade de repouso sexual dos touros, no mínimo de 15 dias, antes de cada coleta, devendo ser realizados três exames para que um animal seja considerado realmente negativo (Lage & Leite, 2000).

Controle da doença

O controle fundamenta-se em três aspectos principais: o fato de a transmissão ser venérea, dos touros serem portadores permanentes e das fêmeas infectadas poderem obter imunidade após um período entre 3 e 6 meses. Baseados nisso, devemos considerar primordialmente as seguintes ações:
• prevenir a transmissão do C.fetus subsp.venerealis e
• eliminar a infecção do rebanho e evitar uma nova introdução do agente no rebanho.

Inseminação Artificial

A adoção da Inseminação Artificial (IA) em uma propriedade é excelente estratégia para diminuir os casos de Campilobacteriose e até mesmo erradicar a doença. Entretanto, apesar do avanço considerável da utilização da IA no país, o seu uso ainda é bastante restrito. Assim, outras estratégias de controle da doença em sistemas de gado de corte extensivo devem ser consideradas, como a adoção de períodos de estação de monta e a utilização de touros com diagnóstico negativo para o C. fetus. Trabalhos mais recentes, entretanto, têm demonstrado que essa prática somente não é suficiente para o controle da doença, uma vez que algumas fêmeas portadoras podem manter a infecção por vários meses (Dekeiser, 1982; Cipolla, 1994).

Provavelmente, o mais factível para o controle da CGB seja uma combinação de práticas sanitárias, envolvendo uso de vacinas específicas, descarte mais freqüente de touros velhos e reposição com touros jovens, comprovadamente negativos e estabelecimento de uma estação de monta. O controle sanitário dos touros é uma medida que tem se mostrado, porém, inviável economicamente quando a propriedade possui grande número de touros, pelo elevado custo dos testes. O descarte e reposição mais freqüente dos touros poderia trazer outros benefícios adicionais ao produtor como o ganho genético representado pela introdução de um animal melhorador, com melhor libido e elevada capacidade de serviço e a diminuição gradativa dos riscos de transmissão da CGB, Tricomonose Bovina e outras doenças sexualmente transmissíveis (Leite, 1977).

A imunoprofilaxia

Ela é eficiente no controle da doença, minimizando a repetição de cio e o aborto nos rebanhos com diagnóstico positivo para a CGB, devendo ser utilizada 30 a 45 dias antes da estação de monta, com revacinação anual, em todas as fêmeas em reprodução. Em touros ela ainda não é recomendada, sendo um risco muito grande a sua utilização como forma de controle da doença (Fóscolo, 2001).

Vários são os esquemas curativos de tratamento recomendados para fêmeas e touros infectados pelo C.fetus venerealis (Stoessel, 1971; Lein, 1968). Entretanto, é de consenso que o tratamento não deve ser efetuado indiscriminadamente em todo rebanho, devendo ser destinado somente a touros de alto valor zootécnico.

Aiesca Oliveira Pellegrin
Embrapa Pantanal

* Este artigo foi publicado na edição número 01 da revista Cultivar Bovinos, de outubro de 2003. ver mais artigos
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