Manejo do mofo cinzento na cultura da videira

Em todas as áreas vitivinícolas do mundo, as pragas e doenças constituem-se em um dos maiores obstáculos à expansão do cultivo da videira, pois afetam tanto a quantidade como a qualidade do produto final (Kuhn & Nickel, 1998). Na Serra gaúcha, a podridão cinzenta é uma doença que se destaca pelos problemas causados e por levar a perdas na qualidade dos frutos no campo e no vinho (Garrido & Sônego, 2004; Sônego et al, 2005).

A podridão cinzenta, podridão de botrytis ou mofo cinzento, é causada por Botryotinia fuckeliana (de Bary) Whetzel, forma conidial de Botrytis cinerea Pers.Fr. O fungo possui mais de 200 hospedeiros conhecidos, o que contribui para a sua disseminação, e está presente em praticamente todos os vinhedos do mundo, acarreta danos tanto na produtividade como na qualidade da uva (Sônego et al, 2005). Sobrevive no solo, em restos culturais, na casca dos ramos e também em frutos mumificados da safra anterior. Na primavera, os esporos são produzidos e infectam folhas e cachos novos antes da floração. Este fungo desenvolve-se bem em altos valores de umidade relativa, acima de 90%, e temperatura entre 18ºC e 23ºC (Jackson, 2000; Magalhães et al, 2008; Sônego et al, 2005). A infecção dos cachos pode ocorrer através das partes das flores que são suscetíveis, com o patógeno permanecendo latente até o amadurecimento das bagas, quando então aparece a podridão cinzenta. A caliptra (conjunto de pétalas da flor da videira) e o receptáculo das flores são os locais predominantes de infecção de B. cinerea (Elmer & Michailides, 2004; Viret et al, 2004).

Os danos ocasionados por este patógeno são decorrentes da necrose peduncular que ocorre no início da formação do cacho e da própria podridão cinzenta nas bagas maduras ao final do ciclo.

O controle desta doença, na maioria das vezes, é baseado na utilização de fungicidas químicos recomendados para a cultura. Porém, é necessário destacar que outras medidas devem ser utilizadas, como: evitar o uso de porta-enxertos e excesso de adubação que proporcione muito vigor nas plantas; realizar alternância de grupos químicos; evitar a utilização de fungicidas derivados do ácido ditiocarbâmico; realizar retirada de folhas e ramos que cubram excessivamente os cachos e proporcionem condições favoráveis à doença; remover restos culturais infectados; realizar tratamento químico durante o inverno (por exemplo, com calda sulfocálcica) para redução de fontes de inóculo; e evitar cultivares com cacho muito compacto (Sônego et al, 2005). Na Figura 2B é possível verificar como a compactação dos cachos pode proporcionar uma condição favorável à ocorrência da doença. Em trabalho realizado na Nova Zelândia, os autores observaram que as fontes de inóculo de B. cinerea podem estar em diversas partes da planta, como ráquis, gavinhas, pecíolos e ramos, que são deixadas no campo após a poda como resto de cultura ou na copa da planta – sendo a ráquis a parte da planta com maior quantidade de inóculo de B. cinerea, tanto quando na copa como no resto de cultura. Ainda foi possível observar que a maior quantidade de inóculo estava presente durante o florescimento e no resto de cultura presente na linha de plantio. Isto mostra a importância do cuidado com as medidas de prevenção na época da floração, em virtude de ser uma potencial forma de entrada do patógeno na planta (Jaspers et al, 2012).

Trabalhos vêm sendo realizados por pesquisadores no mundo inteiro na esperança de se aumentar as opções de estratégias para o manejo da podridão cinzenta em uva, sem que seja necessário utilizar obrigatoriamente fungicidas químicos. O uso de quitosana em videira pode induzir na planta o aumento da produção de substâncias de resistência ao B. cinerea, conhecidas como fitoalexinas – resveratrol e viniferina, por exemplo – proporcionando uma redução da doença em folhas de videira (Aziz et al, 2006). Outros autores observaram efeito direto da quitosana sobre o B. cinerea paralisando o crescimento do fungo (sem causar a sua morte, no entanto) e indireto com o aumento da atividade de enzimas responsáveis por deixar a parede celular das plantas mais fortes – peroxidase e fenilalanina amônia-liase (Camili et al, 2007; Reglinski et al, 2010). A ação de agentes de biocontrole como Trichoderma harzianum e Bacillus subtilis no controle da podridão cinzenta já foi também observada, inclusive possibilitando a redução de uso de fungicidas químicos para metade da dose (Esterio et al, 2000; Harman et al, 1996). Diversos outros relatos do efeito de quitosana, Trichoderma spp. e B. subtilis também são citados por Elmer & Reglinski (2006).

Atualmente no Laboratório de Fitossanidade do IFRS/Campus Bento Gonçalves vem sendo desenvolvidos trabalhos na busca de adequação de tecnologias já pesquisadas em outros locais do Brasil e do mundo. Na safra 2011/2012 foram realizados testes com quitosana (substância bioativa, 1,5L/ha, volume de calda 300L/ha, produto comercial na concentração de 3%), fosfito de potássio 40-20 (fertilizante foliar, 0,6L/ha, volume de calda 300L/ha), Trichoderma sp. (fungo biocontrolador, 2L/ha, volume de calda 300L/ha, produto comercial com concentração de 108 UFC/ml) e Bacillus amyloliquefaciens (bactéria biocontroladora, dose 2L/ha, volume de calda 300L/ha, concentração de 3,99 x 107 células/ml). Estas alternativas foram testadas em plantas das cultivares Chardonnay e Tempranillo, conduzidas em sistema de espaldeira. As aplicações foram feitas em substituição aos tratamentos químicos recomendados (testemunha), nas épocas de pré-floração, floração e maturação dos cachos. Como testemunha, na área com Chardonnay foram realizadas seis aplicações utilizando os fungicidas pirimetanil (concentração 300g i.a./L) e mancozebe (concentração 800g i.a./kg)e na área com Tempranillo foram realizadas quatro aplicações utilizando os fungicidas tiofanato metílico (concentração 700g i.a./kg), mancozebe (concentração 800g i.a./kg) e pirimetanil (concentração 300g i.a./L), conforme recomendações dos fabricantes.

Na área com a cultivar Chardonnay pode-se observar que os tratamentos com quitosana, Trichoderma sp. e fosfito proporcionaram maior produtividade por cacho do que o tratamento com B. amyloliquefaciens e a testemunha, não diferindo entre si, com destaque para o melhor desempenho da parcela tratada com quitosana (Tabela 1). Em relação à incidência da podridão cinzenta (porcentagem de plantas doentes ou partes de plantas doentes em um grupo) e severidade da doença (porcentagem da área ou do volume de tecido coberto por sintomas da doença) percebe-se que os tratamentos avaliados foram tão eficazes no controle da podridão cinzenta quanto os fungicidas químicos aplicados na parcela testemunha, com exceção da parcela tratada com fosfito, em que se observou o pior desempenho em ambos os aspectos. Já na área com a cultivar Tempranillo (Tabela 2) houve uma maior ocorrência de podridão cinzenta de maneira geral em todos os tratamentos. Contudo, diferente da área com Chardonnay, os tratamentos com B. amyloliquefaciens com Trichoderma sp. apresentaram menor incidência de mofo cinzento que a testemunha tratada com fungicidas químicos, sendo que na avaliação da severidade o tratamento com B. amyloliquefaciens mostrou um desempenho melhor do que a testemunha.

É importante salientar que até o momento os resultados obtidos são parciais e de apenas uma safra, porém, com base nos resultados obtidos, considera-se que os produtos alternativos à base de Trichoderma sp., quitosana e Bacillus amyloliquefaciens têm potencial para controle de podridão cinzenta em campo, pois apresentaram eficiência igual ou superior ao controle químico utilizado. Mais estudos devem ser realizados em outras safras com condições climáticas diferentes e para verificar qual é o efeito destas alternativas na qualidade dos vinhos elaborados. De maneira nenhuma está se recomendada a utilização destes produtos para o controle de B. cinerea em videira.

Apenas para informação e não como recomendação para produtores, é interessante sabermos que no Brasil já existem produtos biológicos à base de Bacillus subtilis e Bacillus spumilus registrados para controle de B. cinerea em morango e maçã (Agrofit, 2012).


Figura 1 - Sintoma de B. cinerea em folha de cultivar Cabernet Sauvignon. Bento Gonçlaves (RS) 2012


Figura 2 - Sintoma de B. cinerea na fase inicial de formação do cacho em cultivar Moscato. (A) Sintoma em lado completo do cacho e (B) sintoma apenas na ponta inferior do cacho. Bento Gonçalves (RS), 2012


Figura 3 - Sinais de B. cinerea em (A) cacho de uva da cultivar Itália na fase final de amadurecimento e (B) cacho de uva da cultivar Cabernet Sauvignon com o aparecimento da doença no local de maior compactação de bagas. Bento Gonçalves (RS), 2012.

Tabela 1 - Avaliação de produtividade por cacho, incidência e severidade de podridão cinzenta em uva da cultivar Chardonnay. Bento Gonçalves (RS), 2012

Tratamento

Produtividade (Kg/cacho)

Incidência

Severidade

Quitosana

0,382 a*

29,18 b*

7,65 b*

Trichoderma sp.

0,304 ab

40,95 ab

11,44 ab

Fosfito 40-20

0,333 ab

56,58 a

16,92 a

Bacillus amyloliquefaciens

0,259 b

38,6 ab

10,7 ab

Testemunha

0,274 b

27,61 b

7,47 b

CV (%)

22,93

40,13

41,66

*Médias seguidas de mesma letra na coluna não diferem entre si estatisticamente ao nível de 5% de significância pelo teste Duncan.

Tabela 2 - Avaliação de incidência e severidade de podridão cinzenta em uva da cultivar Tempranillo. Bento Gonçalves (RS), 2012

Tratamento

Incidência

Severidade

Quitosana

95,53 a*

28,79 ab*

Trichoderma sp.

82,35 b

23,04 bc

Fosfito 40-20

92,48 ab

31,81 a

Bacillus amyloliquefaciens

65,58 c

17,86 c

Testemunha

96,25 a

27,90 ab

CV (%)

9,24

18,59

*Médias seguidas de mesma letra na coluna não diferem entre si estatisticamente ao nível de 5% de significância pelo teste Duncan.

Clique aqui para ler o artigo na exemplar 81 da Revista Cultivar Hortaliças e Frutas.




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