Cochonilha-das-raízes da mandioca: nova praga da cultura no Cerrado

A mandioca (Manihot esculenta Crantz) é uma fonte importante de
energia, e por possuir características como rusticidade e alto
potencial produtivo, mesmo com o emprego de baixos níveis tecnológicos
de cultivo, apresenta-se como base alimentar para mais de 900 milhões
de pessoas no mundo. É considerada uma das culturas mais tolerantes ao
ataque de pragas, contudo, estudos recentes têm demonstrado que a
redução na produção pode ser significativa quando as populações de
pragas são altas, e as condições ambientais desfavoráveis à cultura.

A cochonilha-das-raízes da mandioca - Protortonia navesi
Fonseca (Hemiptera: Monophlebidae) foi descrita no final da década de
1970 a partir de material coletado no Distrito Federal. Trata-se de uma
espécie autóctone ou nativa do Brasil. Atualmente essa espécie tem sido
relatada em cultivos de mandioca no Distrito Federal, e nos Estados de
Minas Gerais, Bahia e Goiás. Até o presente momento, para P. navesi,
não foram encontrados machos na natureza. A espécie se reproduz por
partenogênese telítoca, ou seja, as fêmeas, sem o concurso do macho,
dão origem somente a fêmeas. Esse inseto apresenta hemimetabolia ou
metamorfose incompleta passando por três estágios, os quais são: ovo,
ninfa e adulto.

Em condições de laboratório, o ciclo biológico de P. navesi
tem duração média de 69 dias de ovo até a emergência do adulto e 96
dias até a morte do adulto. Os ovos são elípticos de coloração
avermelhada e recobertos por uma pulverulência branca. Apresenta três
estádios (ínstares) ninfais cuja duração total é de 44 dias. As ninfas
de primeiro ínstar apresentam o corpo de coloração vermelha com a
presença de algumas cerdas longas. As ninfas de segundo e terceiro
ínstares são bastante semelhantes ao adulto, tanto na forma como na
coloração. Os adultos são ápteros, de coloração marrom-avermelhada,
apresentam corpo elíptico, suavemente convexo com diversas rugas
transversais, e medem cerca de 8 mm de comprimento e 4 mm de largura.
Vivem cerca de 27 dias e produzem em média 240 ovos.

Comportamento
- A cochonilha-das-raízes da mandioca apresenta alto potencial
reprodutivo e é capaz de se disseminar rapidamente em uma área onde foi
introduzida. No Cerrado (Distrito Federal) observa-se que após o
plantio de manivas infestadas, ocorrido, por exemplo, em
outubro/novembro, esses insetos permanecem sob o solo e passam a se
multiplicar nas raízes. Nesse local são encontradas colônias formadas
por ninfas nos seus diversos estádios de desenvolvimento. Os espécimes
da colônia mostram baixa mobilidade e se mantêm exclusivamente se
alimentando das raízes. Após a queda das folhas da mandioca, o início
da rebrota e a proximidade da estação chuvosa, as cochonilhas passam
gradativamente a colonizar também a parte aérea.

Tanto sob o
solo como na parte aérea das plantas, os espécimes, quando passam à
fase adulta, não mais se alimentam. As fêmeas adultas abandonam a
planta hospedeira e procuram se abrigar em uma fenda no solo, embaixo
de pedras, torrões de terra ou restos vegetais. Nesse local, as fêmeas
passam a produzir, em toda a superfície do corpo, pequenas fibras de
coloração branca que conferem ao inseto o aspecto de um pequeno tufo de
algodão e formam um pequeno saco onde serão depositados os ovos
(ovissaco).

Após a eclosão as ninfas passam a se locomover de
forma bastante rápida, contudo, após o encontro da planta hospedeira as
ninfas não mais se locomovem até que ocorra a muda para o segundo
ínstar. As ninfas de segundo e terceiro ínstares apresentam baixa
mobilidade, movimentando-se apenas após a ecdise para procurar um novo
sítio de alimentação na planta, geralmente próximo ao anterior.

Tendo em vista a duração do ciclo biológico de P. navesi pode-se
inferir que essa espécie é capaz de produzir cerca de 5 gerações por
ano e, com base no seu potencial reprodutivo, o aumento do tamanho da
população também pode ser bastante expressivo.

Hospedeiros - Em estudos realizados na Embrapa Cerrados além de mandioca (M. esculenta) e M. utilissima, a cochonilha P. navesi tem
sido observada em pelo menos 15 espécies de plantas daninhas que
ocorrem em áreas de cultivo de mandioca. Essas plantas daninhas e as
plantas voluntárias de mandioca (tigüeras) podem servir como
reservatórios naturais alternativos para essa praga, funcionado como
hospedeiros alternativos e mantendo a população do inseto, mesmo que em
baixos níveis, na área até um plantio de mandioca subseqüente.

Disseminação - A disseminação de P. navesi
pode ocorrer principalmente por meio do plantio de manivas
contaminadas, obtidas em áreas com histórico de incidência da praga
e/ou por meio do transporte de indivíduos, principalmente ninfas de
primeiro ínstar, aderidas em implementos ou mesmo no vestuário de
pessoas que circularam em áreas contaminadas. Estudos recentes têm
demonstrado que em 100% das plantas provenientes de manivas obtidas em
área onde havia a presença da praga foi possível observar a
cochonilha-das-raízes da mandioca

Após a sua introdução na área
de cultivo a contaminação de plantas na mesma área, até então isentas,
irá ocorrer de forma rápida. Os prováveis mecanismos para que isso
ocorra podem ser o caminhamento de ninfas de primeiro ínstar de uma
planta a outra; por meio de água de chuva que arrastaria os espécimes
de um ponto para outro dentro da cultura ou mesmo por meio de formigas,
que quase sempre estão associadas a essa cochonilha, e que poderiam
transportá-las para outras plantas, a exemplo do que ocorre com outras
espécies de cochonilhas.

Danos causados pela cochonilha - Em
pesquisas, onde se realizou o plantio de mandioca a partir de manivas
obtidas de plantas, que no campo apresentavam infestação de cochonilhas
na parte aérea, observou-se diminuição do poder de germinação de até
30%. Da mesma forma, as plantas provenientes de manivas infestadas com
a colhonilha tiveram seu crescimento prejudicado, reduzindo o peso da
parte aérea e levando à morte progressiva das mesmas, onde sobreviveram
apenas 20% dessas plantas, doze meses após o plantio. Como dano
qualitativo tem se observado que a intensa sucção dos insetos pode
provocar pequenas manchas nas raízes depreciando o produto.

Manejo
- Pode-se afirmar que a utilização de manivas de boa procedência e
isentas da praga é a melhor estratégia para se evitar que esses insetos
sejam introduzidos em uma determinada área. Não foram desenvolvidos,
ainda, métodos eficazes para a redução da população a níveis aceitáveis
em áreas já infestadas. O uso de inseticidas de contato ou sistêmicos
aplicados na parte aérea não produzem bons resultados, uma vez que as
plantas são reinfestadas por espécimes vindos das raízes. A presença de
inimigos naturais tem sido observada em áreas infestadas por P. navesi.
Larvas de predadores como crisopídeos (Neuroptera: Chrysopidae) e
sirfídeos (Diptera: Syrphidae) já foram verificadas. Dentre os inimigos
naturais, uma espécie de coccinelídeo ou joaninha (Coleoptera:
Coccinellidae) do gênero Exoplectra parece desempenhar papel importante
controlando as cochonilhas que estão na parte aérea da planta entre os
meses de novembro e dezembro. O manejo de plantas daninhas e das
plantas voluntárias depois da colheita da mandioca também pode ser um
meio importante para se evitar a sobrevivência de P. navesi e a
reinfestação da cultura.

Considerações finais - A cultura da
mandioca, apesar de sua rusticidade e tolerância a fatores bióticos
adversos, pode apresentar produtividade muito baixa em função da
ausência de um manejo fitotécnico adequado. Relatos da ocorrência da
cochonilha-das-raízes, P. navesi,
em plantios de mandioca no Distrito Federal e nos Estados de Minas
Gerais, Goiás e Bahia são bastante recentes, contudo, os danos
quantitativos e qualitativos têm sido verificados por meio de dados de
pesquisa. Como toda praga-de-solo, essa espécie, uma vez introduzida na
área de cultivo, apresenta poucas alternativas viáveis de controle, já
que o solo funciona como uma barreira, impedindo e/ou dificultando o
contato entre os agentes de controle e a praga alvo. Além das
dificuldades de controle, o fato de P. navesi
se disseminar por meio de manivas, apresentar um ciclo biológico curto
e alto potencial reprodutivo (capaz de produzir até 5 gerações por
ano), ficar sob o solo boa parte do ano (muitas vezes sendo detectada
pelo produtor somente meses após o plantio), sinaliza para necessidade
de prevenção de sua disseminação na cultura da mandioca no Brasil.
Tendo em vista o exposto, faz-se necessário que pesquisadores, técnicos
e produtores atentem para a importância de se conhecer a praga e de
observarem que o plantio de manivas isentas da cochonilha é o meio mais
eficaz de prevenção.

Charles Martins de Oliveira, Josefino de Freitas Fialho, Eduardo Alano Vieira, Marília Santos Silva
Pesquisadores da Embrapa Cerrados, km 18 BR 020, Rod. Brasília /Fortaleza. Planaltina-DF ver mais artigos
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