Necessidade de máquinas adaptadas para o cultivo de algodão adensado

Com a elevação dos preços dos fertilizantes, combustível e mão de obra, uma das alternativas encontrada por pesquisadores e cotonicultores, visando a redução nos custos de produção, foi o estreitamento do espaçamento entre fileiras no algodoeiro. Essa técnica, que surgiu nos Estados Unidos da América (EUA), visa diminuir o ciclo da cultura possibilitando redução nas aplicações fitossanitárias, menor interferência de plantas daninhas, maior precocidade e, consequentemente, menores custos de produção, podendo apresentar, portanto, algumas vantagens sobre o sistema de cultivo convencional.


Quando o algodão é cultivado em sistema adensado requer semeadura com espaçamento entre fileiras de 0,39 a 0,76 m, com populações que variam de 173 mil a 300 mil plantas por hectare; já no sistema de cultivo convencional os espaçamentos são superiores a 0,76 m com populações que variam de 80 mil a 120 mil plantas/ha.

Para a colheita do algodão existem dois tipos de máquinas: a colhedora de fusos rotativos (picker), que consiste em retirar da planta apenas o algodão em caroço, e a colhedora stripper, que é dotada de molinete e rosca sem fim retirando capulhos inteiros e osinvólucros.

Na redução de custos com o sistema de cultivo adensado, o principal componente é a colheita, pois uma colhedora do tipo stripperacaba sendo de duas a três vezes mais barata que uma picker, tanto para a compra como para a manutenção.

As colhedoras do tipo stripper, até 2011, eramas mais utilizada na colheita de algodão adensado, pois, tradicionalmente, as colhedoras de fusos realizavam a colheita do algodão cultivado com espaçamento entre fileiras de 0,76 m a 1,01 m não sendo, portanto, utilizadas no sistema adensado.

Na colheita da safra 2011 foi disponibilizado no mercado agrícola equipamentos para adaptação das colhedoras de fusos já existentes, para utilização na colheita de algodão em cultivo adensado, denominadas Cotton 45 (Deltamaq Indústria e Comércio), capazes de realizar a colheita de fileiras espaçadas em até 0,38 m. Estas colhedoras temcomo sistema de funcionamento o corte e o transporte das plantas de uma fileira para a fileira adjacente onde se procede a extração dos capulhos com mais qualidade na colheita e menores índices de impurezas, pois esse era o grande vilão do sistema de cultivo adensado, onde o sistema strippercolhe fibras com alto teor de impurezas, diminuindo sua qualidade e consequentemente o preço da venda.

Por apresentarem sistemas colhedores distintos, as máquinas para colheita com sistemas picker e stripper podem originar diferentes perdas na colheita e condicionar o rendimento de fibra do algodão colhido.

Uma equipe de pesquisadores realizou pesquisa de campo para avaliar a produtividade de cultivares de algodão em sistema adensado, bem como o percentual de fibra e as perdas na colheita em função dos sistemas colhedores picker e stripper.

A pesquisa foi realizada no estado de Mato Grosso, na safra de 2012, no campo de produção da Fazenda Mirandópolis, localizada a 60 km de Rondonópolis. O algodão foi produzido em sistema de cultivo adensado, semeado em janeiro de 2012 sobre sistema de semeadura direta (palhada de milheto e capim sudão), com espaçamento entre fileiras de 0,45 m e população de 250.000plantas/ha.

Como delineamento experimental no campo, foi utilizado o de blocos casualizados com esquema de parcelas subdivididas, que consistem em ter nas parcelas duas cultivares (FMT 701 e IMACD 408) e nas subparcelasos dois sistemas de colheita (pickere stripper), totalizando quatro tratamentos com cinco repetições.

A colheita mecânica foi realizada com colhedora de algodão, marca John Deere, modelo 9970, plataforma de 4,5 m de largura adaptada pela DELTAMAQ (Cotton 45) com 10 linhas de colheita com sistema picker(de fusos); e colhedora de algodão, marca Case, modelo 2555 dotada de plataforma de pente, adaptação do modelo da marca BUSA, com 6 m de largura e sistema de colheita stripper(molinete com rosca sem fim).

As colhedoras foram conduzidas pelo mesmo operador durante todo o experimento, observando a velocidade de deslocamento e rotação de trabalho uniforme para cada tipo de colhedora. Por ocasião da colheita, realizou-se a coleta manual do algodão em caroço para obtenção da produtividade máxima da cultura e o levantamento de perdas na colheita foi determinado através da coleta do algodão caído no solo antes da colheita mecanizada (perdas pré-colheita), do algodão caído no solo após a passagem da colhedora (perda no solo) e do algodãoque permanecia na planta após a passagem da colhedora (perda na planta). A área de amostragem para todas as avaliações foi de 2,7 m2, totalizando cinco repetições por tratamento.

Segundo os resultados obtidos no experimento, a produtividade coletada manualmente não apresentou diferenças significativas, resultando em 3911 kg/hapara a cultivar FMT 701 e 4108 kg/ha para a cultivar IMACD 408.

Tabela 1. Produtividade média de algodão em caroço antes da colheita mecanizada.

Cultivar

Produtividade

(kg ha-1)

Produtividade

(@.ha-1)

FMT 701

3911,2

260,7

IMACD 408

4108,8

273,9

Dentre as características buscadas no melhoramento do algodão está o percentual de fibra, por ser um dos componentes para produção de pluma. Observa-se que o sistema de colheita stripper reduziu consideravelmente o percentual de fibra de ambas as cultivares e, consequentemente, refletiu em reduções no rendimento de pluma. Essa redução do percentual de fibra do sistema stripper possivelmente é resultante da ação dos mecanismos, sendo bastante agressivo quando comparado ao sistema picker (de fusos rotativos).

Tabela 2. Resultados médios de percentagem de fibra (%) em função das cultivares e dos sistemas de colheita

Percentagem de Fibra (%)

Sistemas de colheita

Cultivar

FMT 701

IMACD 408

Picker

40,5aB

42,6aA

Stripper

32,8bA

32,1bA

Médias seguidas de mesma letra maiúscula na linha não diferem entre si pelo teste de Tukey (p≤0,05); Médias seguidas de mesma letra minúscula na coluna não diferem entre si pelo teste de Tukey (p≤0,05).

Antes de iniciar a colheita mecanizada avaliaram-se as perdas pré-colheita, constatando-se que a mesma foi desprezível, não sendo, portanto, considerada nas avaliações do presente experimento.Observou-se que todas as perdas não diferiram entre as cultivares, entretanto, para os sistemas de colheita, a maior perda total foi observada no sistema de colheita picker(13,5%). As perdas na planta não diferiram em nenhum dos tratamentos.

Tabela 3. Resultados médios para perdas no solo, perdas na planta e perdas totais para os sistemas de colheita pickere stripper.

Tratamentos

PS

(kg ha-1)

PP

(kg ha-1)

PT

(kg ha-1)

Cultivar

FMT 701

367,3 a

83,2 a

450,5 a

IMACD 408

379,5 a

101,4 a

480,9 a

Sistema de Colheita

Picker

478,68 a

84,8 a

563,5 a

Stripper

268, 09 b

99,8 a

367,9 b


Os resultados encontrados no experimento estão acima dos observadas na literatura, onde, nas condições de cerrado, como é o caso da área em questão, as perdas totais situam-se entre 9,4%. No geral, autores referem-se ao nível de 10% como sendo o máximo aceitável de perdas na colheita do algodão, estando a faixa ideal situada entre 6% e 8%. Os elevados índices de perdas do sistema de colheita picker (13,5%) podem ser explicados devido à adaptação das facas rotativas na plataforma picker para colher dez linhas; esse fato veio a ocasionar maior volume de algodão em caroço passando em cada unidade colhedora, fazendo com que os fusos rotativos e os desfibradores não apresentassem total eficiência em processar todo o algodão dos tambores de colheita para os dutos de ar, o que consequentemente pode ter ocasionado o aumento dos índices de perdas no solo. Aliado a isso, pode-se sugerir a reavaliação da velocidade de trabalho utilizada (média de 5,1 km/h), poiscom o aumento do número de fileiras colhidas numa mesma passada, velocidades menores poderiam resultar em menores perdas.

O percentual de 9,5% para perdas totais no sistema de colheita stripper, possivelmente, originou-se em decorrência da altura de plantas do experimento, que resultou em média de 0,91 m, pois para a colheita stripper, é ideal que as plantas não ultrapassem os 0,70 ou 0,80 m para não atrapalhar a colheita stripper.

Com o novo modelo de colheita pickerpara algodão adensado, supera-se o inconveniente de pior qualidade da fibra das colhedoras stripper, mas perde-se a vantagem do custo de colheita reduzido, que é o principal componente de mitigação do custo de produção no sistema adensado. Apesar desse sistema alcançar produtividade igual ou superior e custo de produção inferior ao sistema convencional, o algodão adensado colhido com stripper tem sido “freado" no seu desenvolvimento devido ao maior custo com limpeza no descaroçamento e menor preço na venda da fibra.

Por fim, fatores de manejo cultural, regulagem das colhedoras, velocidade de operação das máquinas bem como o treinamento dos operadores podem interferir de forma eficiente na redução das perdas na colheita. Nesse contexto, a escolha correta do sistema de colheita e regulagem adequada dessas máquinas associada a cultivares produtivas com menor índice de perdas (boa retenção de pluma) e maior percentual de fibra pode significar maior margem de lucro no cultivo do algodão adensado para os cotonicultores.

Este artigo foi publicado na edição 145 da revista Cultivar Máquinas. Clique aqui para ler a edição.

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Francielle Morelli Ferreira; Antonio Renan Berchol da Silva; Diego Augusto Fiorese; Elizabeth Haruna Kazama

UNEMAT; FAMEVZ – UFMT; UFMT; Unesp

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