Combinação enxerto/portaenxerto em pêssego

Ao produzir frutas de caroço, como pessegueiro, é importante estar atento a aspectos como a melhor combinação enxerto/portaenxerto e aos efeitos de solo e clima presentes em cada região de cultivo.

A produção brasileira de frutas de caroço apresenta diferentes características de acordo com a região. No Rio Grande do Sul predomina o cultivo de fru­tas para indústria e dupla finalidade, e nas demais regiões, tem destaque o plantio de pêssegos, ameixas e nectarinas para mesa. As principais ações de pesquisa com frutas de caroço envolvem criação e adaptação de cultivares que sejam resistentes a doenças e produzam frutas de qualidade ao gosto do consumidor.

Os portaenxertos influenciam o grau de sensibilidade ao ambiente, ou seja, grau de adaptação climática da cultivar copa, assim como às diferentes respostas fisiológicas frente a condições adversas como elevadas temperaturas durante a floração, déficit hídrico, irregularidade nas temperaturas hibernais, afetando desse modo a formação dos gametas sexuais, variando o padrão produtivo das cultivares nos anos de cultivo.

Desta forma é importante que os produtores adquiram informações sobre os atributos e as limitações de portaenxertos específicos e os efeitos de solo e clima de cada região. Para isso são necessários estudos do desempenho dos portaenxertos para cada região edafoclimática determinada, pois com estas avaliações é possível identificar a melhor combinação enxerto/portaenxerto ideal para obter frutas de qualidade. Visto que o portaenxerto pode influenciar no tamanho e na produção das plantas enxertadas, assim como na qualidade.  

O presente trabalho foi realizado para avaliar os componentes do rendimento e qualidade dos pessegueiros ‘Chimarrita’ e ‘Maciel’ sobre diferentes portaenxerto em três locais de cultivo e identificar a dissimilaridade entre estes portaenxertos para os componentes da qualidade apontando as variáveis com maior importância relativa.

O experimento foi conduzido em três campos experimentais: Embrapa Uva e Vinho, localizada no município de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul (local 1); Estação Experimental Agronômica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, EEA/UFRGS (local 2), em Eldorado do Sul (RS); e Centro Agropecuário da Palma,CAP/UFPel (local 3), pertencente à Universidade Federal de Pelotas, no município de Capão do Leão/RS.

As cultivares copa utilizadas foram: Chimarrita (polpa branca, consumo in natura) e Maciel (polpa amarela, duplo propósito) sobre os portaenxertos: 'Aldrighi' (Prunus persica Batsch L.), 'Capdeboscq' (Prunus persica Batsch L.), ‘Flordaguard’ [Prunus persica L. Batsch X Prunus davidiana (Carr.)], ‘Nemaguard’ [Prunus persica L. Batsch X Prunus davidiana (Carr.)], ‘Okinawa’ (Prunus persica Batsch L.) e Umezeiro (Prunus mume Sieb & Zucc), formando combinações enxerto/portaenxerto.

O sistema de condução foi em “V” e o espaçamento entre linhas de 5 m e entre plantas 1,5 m.

A produção de pêssegos não foi influenciada pelo portaenxerto no local 1. No local 2 (EEA UFRGS), para os componentes do rendimento a análise de variância não foi significativa em relação aos pessegueiros ‘Chimarrita’ e ‘Maciel’. Na combinação ‘Chimarrita’ sobre Umezeiro os componentes do rendimento somente foram avaliados em 2011. Nos anos anteriores não foi possível obter frutas para avaliação. Pode-se inferir que este portaenxerto no local 2 (EEA UFRGS) não seja aconselhável r devido à instabilidade de produção.

Isso possivelmente está associado a dois fatores somados: a sensibilidade do Umezeiro a áreas de replantio aliado ao baixo vigor da cultivar Chimarrita, visto que, o portaenxerto Umezeiro já imprime baixo vigor, seja pelo fato de ser ananizante ou por proporcionar no ponto de enxertia intumescimento que gera um certo grau de incompatibilidade.

No local 3 (CAP UFPel), a análise de variância foi significativa somente para número de frutas por plantas para a cultivar de pessegueiro Chimarrita e eficiência produtiva baseada em  quilo de frutas por m3 de copa para cultivar de pessegueiro Maciel.  O número de frutas não diferiu significativamente entre os portaenxertos. O portaenxerto Umezeiro induziu maior eficiência produtiva ( quilo de frutas por m3 de copa) ao pessegueiro ‘Maciel’, se comparada aos demais. ‘Capdeboscq’ e ‘Okinawa’ estavam em um grupo intermediário e ‘Adrighi’, ‘Flordaguard’ e ‘Nemaguard’ proporcionaram menor eficiência produtiva baseada em volume de copa.

Este fato deve ter ocorrido possivelmente porque apesar do portaenxerto Umezeiro induzir menor vigor, pelo fato de ser ananizante ou por ter certo grau de incompatibilidade (devido a formação de intumescimento no ponto de enxertia), tem um melhor aproveitamento da copa que proporciona à cultivar Maciel. Pois mesmo sendo menor produz mais frutas por m3. Obviamente a própria cultivar Maciel também contribui para tal fato, por ser mais vigorosa que Chimarrita.

A alta eficiência produtiva e o baixo vigor são vantagens importantes para sistema de produção em alta densidade. Este fato chama a atenção para a cultivar de pessegueiro Maciel enxertada sobre Umezeiro no local 3, porém ainda existe o fato da incompatibilidade a um certo grau constatada pela observação visual do intumescimento do ponto de enxertia.

Acredita-se que estas divergências tenham ocorrido em vista de que no presente experimento foram utilizadas as médias de três anos diminuindo um pouco a influência do ambiente de cada ano, além do fato de cada unidade experimental que compõe as repetições causar grande variação neste aspecto pelas diferenças nos rendimentos tornando o coeficiente de variação elevado. Os referidos autores citados trabalharam com os dados de cada ano individualmente estando mais suscetível a variações ambientais que propriamente dos portaenxertos.

As variáveis de componentes da qualidade das frutas são provenientes da média dos três anos de avaliação (2009, 2010 e 2011), com exceção do portaenxerto Umezeiro no local 2 (EEA UFRGS), para a cultivar Chimarrita que são apenas de 2011, pelo fato de em 2009 e 2010 não se ter conseguido frutas para as avaliações.

Para o local 1 (Embrapa Uva e Vinho), a análise de variância não foi significativa para a coloração, somente para acidez titulável das frutas dos pessegueiros ‘Chimarrita’ e ‘Maciel’. Para as frutas do pessegueiro ‘Chimarrita’ não houve diferença estatística significativa entre os portaenxertos para a acidez titulável. Os portaenxertos ‘Flordaguard’, ‘Nemaguard’ e ‘Okinawa’ induziram maior acidez titulável para os pêssegos da cultivar Maciel se comparados aos demais portaenxertos.

Para os locais 2 (EEA UFRGS) e 3 (CAP UFPel), a análise de variância foi significativa para mais de uma variável componente da qualidade das frutas, por este motivo foi possível realizar análise multivariada e observar a dissimilaridade entre os portaenxertos.

O fato do portaenxerto Umezeiro ter proporcionado características diferentes dos demais à cultivar Chimarrita pode ser explicado pela sua característica de vigor reduzido, por ser ananizante ou apresentar certo grau de incompatibilidade. Com o menor crescimento vegetativo as frutas ficam mais expostas à luz, sendo que para sua proteção desenvolvem a coloração vermelha com maior intensidade. O processo de amadurecimento também acelera.

No local 3 (CAP UFPel) também foi possível observar a formação de três grupos de portaenxertos: grupo I (‘Capdeboscq’, ‘Flordaguard’, ‘Nemaguard’ e ‘Okinawa’), grupo II (‘Aldrigui’) e grupo III (Umezeiro). As variáveis utilizadas para a referida análise foram acidez titulável, Ratio SS/AT e firmeza de polpa (N). As duas variáveis canônicas expressaram 95,84% da variabilidade dos dados Observou-se maior importância relativa das variáveis Ratio SS/AT e firmeza de polpa (N), totalizando 72,20% da responsabilidade pela divergência entre os portaenxertos.

No local 3 (CAP UFPel), o portaenxerto Umezeiro induziu maior Ratio SS/AT e juntamente com os portaenxertos ‘Capdeboscq’, ‘Flordaguard’, ‘Nemaguard’ e ‘Okinawa’ menor firmeza de polpa (N) à cultivar Maciel.  Neste sentido o portaenxerto Umezeiro proporcionou uma característica interessante à cultivar de pessegueiro Maciel para o local 3 (CAP UFPel). Isso pode ser explicado por dois fatores: o portaenxerto Umezeiro imprime menor vigor, proporcionado maior exposição das frutas à luz adiantando o processo de maturação, ou ainda, pelo fato dos dados serem provenientes de três anos de cultivo, sendo que em 2010 e 2011, no período de maturação, observou-se pouca precipitação pluviométrica concentrando mais os sólidos solúveis, e aumentando o Ratio SS/AT, visto que são diretamente proporcionais.

Para obter sucesso no pêssego é necessário estar atento ao material genético e às especificidades de cada região.
Para obter sucesso no pêssego é necessário estar atento ao material genético e às especificidades de cada região.

Conclusões

Os componentes do rendimento foram pouco influenciados pelos portaenxertos depois de três anos de cultivo, existindo apenas variações de acordo com a região de cultivo avaliada;

Os componentes da qualidade foram mais afetados pelos portaenxertos nas regiões de EEA/UFRGS (local 2) e CAP/UFPel (local 3);

O portaenxerto Umezeiro não é recomendado para o local 2 (EEA UFRGS), combinado com pessegueiro ‘Chimarrita’, devido a falta de produção em 2009 e 2010, porém é recomendado para o local 3 (CAP UFPel) combinado com o pessegueiro ‘Maciel’ devido à eficiência produtiva e a Ratio SS/AT maior;

Os pota-enxertos ‘Aldrighi’, ‘Capdeboscq’, ‘Flordaguard’, ‘Nemaguard’ e ‘Okinawa’ podem ser recomendados para os pessegueiros ‘Chimarrita’ e ‘Maciel’ nos três locais de cultivo (Embrapa Uva e Vinho, E.E.A UFRGS e CAP UFPel).


Simone Padilha Galarça, José Carlos Fachinello, Débora Leitzke Betemps, Nicácia Portella Machado, Luciane Both Haas, Marcos Ernani Prezotto, Universidade Federal de Pelotas; Andressa Comiotto, IFSul


Artigo publicado na edição 79 da Cultivar Hortaliças e Frutas 

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