Como combater o coró, praga que causa prejuízos às raízes das plantas

Coró é a forma larval dos insetos da família Melolonthidae (subfamílias Rutelinae, Dynastinae e Melolonthinae). São nativos do Brasil e apresentam ampla distribuição nas áreas agrícolas. Há registros de mais de mil espécies no País, das quais perto de dez são consideradas pragas. Dentre elas, estão: Diloboderus abderus, Phyllophaga capillata, Phyllophaga cuyabana, Phyllophaga tritico- phaga, Liogenys fusca, Liogenys suturalis, Demodema brevitarsis, Paranomala testacei- pennis, Cyclocephala forsteri e Plectris pexa.

Entre os técnicos e produtores é muito rara a habilidade de distinguir estas espécies das benéficas. Mesmo havendo poucas espécies com importância econômica, são responsáveis por danos significativos às culturas e por determinarem o uso de medidas químicas de controle.

No Brasil, a importância dos corós-pra- ga tende a se acentuar, com o crescimento da agricultura, que avança sobre áreas não cultivadas ou de pastagens naturais e melhoradas. Normalmente, estas áreas têm o solo pouco mobilizado e, portanto, um reservatório mais diverso de espécies. Em- bora em equilíbrio populacional, quando semeadas com culturas, as plantas destas áreas expressam sua suscetibilidade aos corós. Sob plantio direto este ambiente protege as populações de corós, que passam a exigir a adoção do controle químico. O controle químico deste grupo de pragas, não tem apresentado quase nenhuma inovação, seja nas formas de aplicação (no sulco ou tratamento de sementes), novas formulações, misturas inovadoras e/ou sinérgicas, ou mesmo de novas moléculas. Neste cenário, resta melhorar o que já é conhecido sobre taxonomia e distribuição das espécies, bioecologia e comportamento dos corós, com o objetivo de qualificar o manejo com níveis de controle adequados, atualizados e flexíveis.


Como amostrar

A amostragem do solo é a única forma segura e prática de confirmar a espécie de coró, a fase que se encontra e a sua distribuição e densidade populacional nas áreas agrícolas, além do seu potencial de dano. Há na literatura indicações do número de amostras adequado aos estudos da distri- buição destas espécies e a maior parte das recomendações indica o uso de trincheiras de aproximadamente 20cm da largura x 50cm de comprimento x 20cm a 30cm de profundidade para cada amostra. Nestas amostragens, os pontos (trincheiras) devem estar o mais distante possível, entre si, sem que se perca a precisão amostral. A eficácia do método de amostragem é indicada pela correta localização das re- boleiras de ocorrência da praga (zonas de maior densidade de corós). No futuro, com base em mapas de distribuição (densidade das espécies), elaborados com o uso da geoestatística e levando em consideração a dependência espacial e os semivariogramas, será possível fazer mapas de manejo e planejar zonas de manejo dessas pragas, pois o conhecimento sobre a distribuição espacial é parte fundamental na elaboração de programas de manejo de corós.

Níveis de dano econômico e controle

Uma vez determinada a espécie e estimadas a densidade e a distribuição populacional, o passo seguinte é a tomada de decisão, com base nos níveis de dano econômico (NDE) e níveis de controle (NC), no entanto, os trabalhos que embasam o seu cálculo e estimam o NC de corós em culturas de interesse agrícola ainda são raros. O nível de dano econômico (NDE) refere-se à densidade populacional de um inseto que causa perda econômica igual ao custo de controle. Já o nível de controle (NC) é a densidade populacional em que as medidas de controle devem ser adotadas, para evitar um aumento da população da praga que poderá alcançar o nível de dano econômico.

Quando se relaciona esses conceitos ao controle de corós-praga os resultados pu- blicados são muito restritos; Silva (1995) verificou para Diloboderus abderus o nível de controle de 5,4 larvas/m2 para trigo, em condições de plantio direto no Rio Grande do Sul. Para a mesma espécie o nível de controle é de 0,5 larva/m2 em milho, 12 larvas/m2 em linho, 10 larvas/m2 em aveia preta e 0,4 larvas/m2 em girassol (Silva; Costa, 2002). Salvadori & Pereira (2006) afirmam que densidades populacionais acima de 25 corós-pragas/m2 causam danos severos em trigo e aveia, com reduções no rendimento de grãos, superiores a 50%. Os dados destes raros trabalhos que quantificam os danos de corós em culturas graníferas permitem a realização do cálculo do NDE e a estimativa do NC.

Objetivamente, NDE e NC devem ser calculados com base em valores locais, não sendo predeterminados e fixos. O NDE é um valor complexo que depende da estimativa de alguns parâmetros, entre eles: o Custo da tática de controle/unidade de produção (C), o Valor da produção (V), o Dano por unidade de injúria (D) e em alguns casos a Eficiência de controle da tática aplicada (K). A questão-chave é 'x' número de corós causam quanto dano? E esse dano é significativo? Essa informação é a base para as estimativas e para a tomada de decisão (NC). Assim, o valor do NDE para as espécies-praga de corós não deve ser fixo ou estático, mas sim dinâmico, ajustando-se principalmente conforme (1) a cultura; (2) a variação no valor da produção e (3) o custo de controle. Entretanto, atualmente se utilizam os valores de NDE definidos no passado e em outra situação, sob uma realidade completamente distinta do cenário que hoje se encontram as principais culturas agrícolas.

Entre as diferenças, pode-se listar como mais importantes a variação dos valores relativos ao resultado da produção, por exemplo, da cultura da soja (valor da soja x produtividade). Também se alterou o custo dos tratamentos (inseticidas), hoje reduzidos sensivelmente. Estes dois com- ponentes isoladamente alteraram, para menos o NC, ou seja, o número de corós por unidade de área em que se deve realizar o controle. Portanto, o NC para corós-praga de culturas graníferas, recalculado, vai ter valores menores determinando medidas de controle em níveis populacionais inferiores aos atualmente consolidados.

Manejo integrado

O manejo de corós em grandes culturas deve considerar a associação de estratégias de controle, buscando o Manejo Integrado, ou seja, um MIP Corós-praga – Culturas graníferas. A base deste conceito deve partir da correta e rápida identificação das espécies-praga e não pragas. Devem ser considerados, também, a biologia, a ecologia e o comportamento das espécies, apoiando as decisões de manejo e aumentando a sua eficácia. Por sua vez, a amostragem e o monitoramento das populações de corós-praga são fundamentais, já que as larvas apresentam baixa mobilidade e, portanto, há uma previsibilidade espaço- temporal e sazonalidade na sua ocorrência, sincronizada aos cultivos.

A tomada de decisão de controle deve obedecer aos níveis recalculados para os atuais parâmetros de mercado e como se tem conhecimento, o controle químico é a forma disponível mais eficaz de controle dos corós, especialmente via o tratamento de sementes. Há no Brasil uma pequena lista de inseticidas disponíveis para o controle de corós e uma severa variação de sua eficiência para as distintas espécies de corós. Estes estudos são ainda indisponíveis, ficando somente a experiência de pesquisadores e produtores mais atentos a estas variações.

O futuro do MIP Corós-praga deve ir além e inovar, incorporando tecnologias já disponíveis e utilizadas em outras áreas da agricultura e da ciência, como: chaves virtuais de identificação de corós (disponíveis via internet), mapeamento georreferenciado de espécies e da densidade populacional, integração de geotecnologias (GPS e SIG), programas (softwares) de apoio à tomada de decisão no manejo, uso de imagens obtidas por satélites e/ou obtidas pela utilização de veículos aéreos não tripulados (Vants ou drones) para o registro dos danos de corós, “leitura" e utilização destes dados, para a criação de mapas com zonas de manejo. Também é necessário desenvolver semeadoras e equipamentos de pulverização, capazes de “ler" e de aplicar os tratamentos considerando a heterogeneidade da distribuição e a densidade dos corós. No campo do controle, propriamente dito, é necessário o desenvolvimento de produtos biológicos de controle (especialmente à base de bactérias, fungos e nematoides), indispensáveis para ampliar as formas de controle. Também é necessário o desenvolvimento de novas moléculas químicas e o aperfeiçoamento das suas formulações, que possam ser aplicadas às sementes com eficácia e segurança, além da modificação de plantas para a resistência aos corós, que é outra possibilidade entre as formas de manejo.


Este artigo foi publicado na edição 175 da revista Cultivar Grandes Culturas. Clique aqui para ler a edição.



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Jerson Vanderlei Carús Guedes; Jonas André Arnemann; Mariana Alejandra Cherman; Elder Dal Prá; Regis Felipe Stacke e Armando Falcón

Universidade Federal de Santa Maria

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