Como controlar mancha alvo em pepino

A mancha alvo (Corynespora cassiicola) é uma das principais doenças que afetam a cultura do pepino, com capacidade para reduzir a produtividade em até 60%. Para efetuar o controle é necessário atenção a aspectos como escolha do híbrido, densidade de plantas, sistema e manejo da irrigação, manejo do ambiente, estado nutricional das plantas e práticas culturais.

Agente causal da ‘mancha alvo’ ou ‘mancha de corinespora’, Corynespora cassiicola ((Berk. & Curtis) Wei, 1950) tem sido relatado em mais de 360 espécies hospedeiras ao redor do mundo. No Brasil, dentro do grupo das hortaliças e frutas, esse patógeno tem ocasionado danos expressivos à cultura do pepino (Cucumis sativus L.) com redução de até 60% da produtividade (Verzignassi et al., 2003). As altas perdas na cultura de pepino partenocárpico estão relacionadas com a baixa eficiência dos fungicidas empregados para o controle da doença, contudo, práticas como, escolha do híbrido (diferentes graus de resistência), densidade de plantas, sistema e manejo da irrigação, manejo do ambiente, estado nutricional das plantas, práticas culturais, entre outras, podem ser relacionadas com o sucesso ou insucesso no controle da doença no campo.

Lesões foliares iniciam-se como pequenas pontuações cloróticas, denominadas ‘Flecks’, que evoluem para manchas de coloração marrom a marrom-escura, com centro claro, de formato circular a irregular, com ausência ou presença de halos (cloróticos, marrom-avermelhado ou marrom-escuro) e presença de áreas com aspecto encharcado, podendo abranger 1,0mm a 20,0mm de diâmetro. Com a evolução da doença, as lesões coalescem, sendo observadas extensas áreas necrosadas e morte de tecidos e planta. Os frutos não são afetados diretamente pela doença, contudo, problemas no desenvolvimento, tais como, frutos deformados e de tamanho reduzido podem ser constatados em ataques severos.

Mancha-alvo em pepino partenocárpico. (A) lesões de iniciais “Fleks” e (B) lesões coalescentes com aspecto encharcado.
Mancha-alvo em pepino partenocárpico. (A) lesões de iniciais “Fleks” e (B) lesões coalescentes com aspecto encharcado.

A sobrevivência do patógeno pode ocorrer em restos de culturas por até dois anos, na forma saprofítica ou através de estruturas especializadas de resistência chamadas clamidósporos (Oliveira et al.; 2012). Além de restos culturais, hospedeiros alternativos, tais como, plantas daninhas (trapoeraba, assa-peixe e lantana) e culturas comerciais (soja, tomateiro, acerola, mamoeiro, entre outras), quando margeiam áreas de cultivo dessa cucurbitácea podem contribuir como inóculo inicial para o começo da doença no campo.

Em trabalhos realizados no Laboratório de Fitopatologia da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Vida et al. (2004) (Comunicação pessoal), através do teste de papel de filtro e do teste de transmissão em areia, relataram a presença do patógeno em sementes e a transmissão para plântulas de quatro híbridos de pepino partenocárpico (‘Natsubayashi’, ‘Hokushin’, ‘Tsuyataro’ e ‘Samurai’). Segundo os autores, o nível de contaminação chegou a 35% nas sementes de ‘Tsuyataro’. C. cassiicola encontra-se associado interna e externamente às sementes de pepino. Assim, a transmissão por semente deve ser considerada quando se objetiva o controle da doença.

Quanto ao manejo do ambiente de plantio, a cultura deverá ser posicionada de modo a favorecer o fluxo de ar em seu interior, otimizando a remoção do excesso de umidade e consequentemente desfavorecendo a doença. Outra forma de redução da umidade está relacionada com o espaçamento entre linhas entre plantas, e a condução da haste principal e hastes laterais. Cultivos adensados favorecem ao aumento da umidade relativa e oferta de água livre na superfície foliar, fatores que colaboram para a ocorrência da doença no campo.

Plântula de pepino partenocárpico com a presença de sintomas da mancha alvo.
Plântula de pepino partenocárpico com a presença de sintomas da mancha alvo.

Na adubação, fertilizantes nitrogenados em excesso favorecem o desenvolvimento de tecidos mais tenros e aumento do ciclo da cultura, o quê pode predispor a cultura ao ataque de C. cassiicola. Além disso, o excesso desse elemento implicará no crescimento extra dos órgãos aéreos, caule, ramos laterais, pecíolos e folhas, o que promoverá menor circulação de ar no interior da cultura, aumento da umidade relativa e temperatura e, por conseguinte, crescimento da severidade da doença.

O controle dessa doença no campo inicia-se com o manejo do ambiente. A doença é favorecida por temperaturas elevadas e alta umidade relativa, presença de água livre na superfície foliar provocada por longos períodos de chuvas ou condições de irrigação inadequadas, associadas a más condições de ventilação/aeração na área de cultivo. A disseminação do patógeno, após início da epidemia, ocorre pela dispersão dos esporos (conídios) produzidos nos sítios de infecção através de ventos e respingos de água. Essa doença tende a ser mais severa em áreas de cultivo protegido (estufas).

No campo, a escolha do híbrido/variedade a ser cultivado, em áreas onde a doença é recorrente, pode representar importante ferramenta para o controle, uma vez que apresentam diferentes graus de resistência/suscetibilidade. Oliveira et al. (2006) e Terramoto et al. (2011) identificaram entre híbridos de pepino partenocárpicos, que o híbrido ‘Tsuyataro’ apresentou maior suscetibilidade, ao passo que, o ‘Natsubayashi’, ‘Taisho’, ‘Nikkey’ e ‘Yoshinari’  mostraram menor suscetibilidade à C. cassiicola.

Uma forma de prevenção de infecções nos primeiros estádios de desenvolvimento da cultura é o tratamento de sementes (uma vez que o patógeno sobrevive e é transportado por sementes) bem como, o tratamento de plântulas ainda em bandejas, com fungicidas sistêmicos, o que contribui para que o potencial de inóculo veiculado por sementes seja satisfatoriamente reduzido, contribuindo assim, para uniformidade do estande e para o atraso do início dos ciclos epidêmicos da doença.

Folha com lesão marrom de formato aircular, característica da mancha alvo.
Folha com lesão marrom de formato aircular, característica da mancha alvo.

Os restos culturais constituem outra forma de sobrevivência do patógeno, e o tecido vegetal sintomático fonte de inóculo secundário da doença. A destruição dos restos vegetais ao final do ciclo de cultura, bem como a remoção do tecido vegetal sintomático senescente durante o ciclo de cultivo, contribuem significativamente para a redução do inóculo inicial no ciclo seguinte da cultura e dos ciclos secundários da doença respectivamente. 

Quanto ao controle químico da Mancha-alvo em pepino partenocárpico, resultados de pesquisa recente indicaram a baixa eficiência de fungicidas no tratamento curativo desta doença. Os resultados expressivos têm sido observados em tratamentos protetivos. Oliveira (2008), avaliando a eficiência de diferentes grupos de fungicidas para o controle da doença no híbrido Tsuyataro, observou que a mistura piraclostrobina + epoxiconazole (sem registro junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para a cultura) e a azoxistrobina promoveram maior redução da doença, quando aplicados preventivamente. Semelhantemente, Teramoto et al. (2011) identificaram a azoxistrobina como tratamento mais eficiente para o controle da doença em Tsuyataro e Nikkey. Ambos os autores, relataram a baixa eficiência do tiofanato-metílico no controle da doença, sugerindo resistência do patógeno ao princípio ativo, tal como verificado em estudos realizados no Japão em 2004.  


Ricardo Oliveira, João Vida, Dauri Tessmann, UEM; Jefferson Fernandes do Nascimento, UFRR; Paulo F. Maraus e José U. T. Brandão Filho, UEM


Artigo publicado na edição 80 da Cultivar Hortaliças e Frutas


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