Como controlar manchas foliares em trigo

- Foto: Marcelo Madalosso/Clube Phytus

Entre as principais doenças fúngicas que atacam a parte aérea da cultura do trigo está o complexo de manchas foliares capazes de acarretar em perdas de até 80% da produtividade. Além de prejudicar a produção de grãos, sua incidência também provoca danos à  qualidade fisiológica das sementes. O emprego de fungicidas de modo racional e criterioso é uma das ferramentas para enfrentar este desafio.

O trigo (Triticum aestivum L.) é a cultura de inverno de maior expressão econômica no Sul do Brasil. Devido às condições climáticas adversas, aliadas à suscetibilidade das cultivares, pode ter seu rendimento prejudicado pelo ataque de doenças causadas por fungos. Entre as principais doenças fúngicas que atacam a parte aérea da cultura, pode-se destacar o complexo de manchas foliares, considerado o mais danoso, podendo acarretar em perdas que vão de 20% até 80% da produtividade. Além de redução da produtividade esse complexo de manchas causa redução da qualidade fisiológica e sanitária das sementes produzidas. Os principais fungos envolvidos com o complexo de manchas foliares na cultura são Drechslera tritici-repentis causador da mancha amarela, Bipolaris sorokiniana causador da mancha marrom, e mais esporadicamente Stagonospora nodorum  responsável pela mancha da gluma (Figura 1).

Figura 1. Sintomas da mancha marrom (A) e da mancha-amarela (B) em folhas de trigo.
Figura 1. Sintomas da mancha marrom (A) e da mancha-amarela (B) em folhas de trigo.

As condições de clima e invernos com temperaturas médias mais elevadas estão entre os principais fatores que contribuem para o surgimento e evolução desse complexo de doenças na cultura. Nas últimas safras os produtores de trigo do estado do Rio Grande do Sul vem enfrentando condições de clima extremamente favoráveis a evolução das doenças, prejudicando a rentabilidade da cultura. A safra 2014 proporcionou grandes prejuízos, pelo excesso de chuvas com temperaturas mais elevadas, onde ocorreram altas taxas de incidência com rápida evolução da severidade de manchas, acarretando além de uma redução de produtividade uma baixa qualidade fisiológica e sanitária de sementes produzidas.

A produtividade e a qualidade fisiológica das sementes de trigo estão relacionadas à área foliar verde ou sadia durante o enchimento de grãos. A ocorrência de doenças na cultura possui tendência de afetar a qualidade das sementes produzidas, pois a ação de fungos parasitas afeta o desenvolvimento normal das sementes, reduzindo seu peso e capacidade de produzir plantas com bom potencial produtivo. A ocorrência de doenças pode aumentar a incidência de fungos necrotróficos associados à semente, pois estes utilizam as sementes como hospedeiro, tornando-a fonte de inóculo das manchas foliares para a próxima safra.

Para reduzir as infestações das manchas foliares na lavoura e reduzir os prejuízos que causam é fundamental a adoção do manejo integrado, que se inicia com a escolha de cultivares que possuem resistência genética às principais doenças que atacam a cultura do trigo. Posteriormente deve-se realizar o tratamento de sementes com fungicidas. Esta medida é uma forma segura de proteger os primeiros estágios da planta, onde é definido o potencial produtivo da lavoura. Por fim o monitoramento constante desde o plantio com o objetivo de detectar os primeiros sinais da doença, para que se possa implementar um controle químico com fungicidas na parte aérea de forma racional e econômica.

Os cultivares mais produtivos tendem a ser mais suscetíveis a doenças. No tocante aos necrotróficos, especialmente as manchas foliares, nenhum cultivar dentre os mais semeados no Rio Grande do Sul possui resistência genética a esses fungos. Apenas apresentam diferentes taxas de evolução dessas doenças. Assim, torna-se fundamental a adoção de outros recursos como o uso do controle químico, através das aplicações de fungicidas na parte aérea, cuja aplicação deve ocorrer após o aparecimento dos primeiros sintomas, para minimizar os danos causados pelas doenças na produtividade e possivelmente na qualidade das sementes produzidas. Para o controle das manchas foliares recomenda-se o uso de misturas pré-fabricadas de fungicidas com mecanismos de ação triazóis + estrobilurinas nas doses recomendadas. Tais formulações devem possuir registro junto ao Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) para uso na cultura do trigo.

Estudos demostram que a interação entre os mecanismos de ação triazóis + estrobilurinas pode contribuir para o aumento da produtividade e a qualidade das sementes produzidas. As estrobilurinas proporcionam uma desaceleração da senescência foliar e sua ação fungica é capaz de impedir a germinação dos esporos dos fungos. Os triazóis matam os fungos na planta durante o processo de colonização, funcionando efetivamente no periodo entre o inicio da infecção até o aparecimento dos sintomas.  

Neste contexto na safra de inverno do ano de 2014 foi realizado um estudo para avaliar a relação da incidência de manchas foliares na cultura do trigo com a qualidade fisiológica das sementes produzidas. A cultivar de trigo utilizado no estudo foi Jadeíte 11 com três tratamentos: testemunha, sem aplicação de fungicida, com aplicação de Azoxistrobina + Ciproconazol + Propiconazol e outro com a aplicação de Azoxistrobina + Difenoconazol. Foram realizadas três aplicações, sendo a primeira após o surgimento dos primeiros sintomas das manchas foliares, e as demais respeitando um intervalo de 21 dias. A avaliação da severidade de manchas foi realizada sete dias após a aplicação.

Na figura 2 estão representados os valores para os testes de germinação, primeira contagem (PC) e envelhecimento acelerado (EA) em função dos tratamentos utilizados. A aplicação de fungicidas manteve a germinação acima de 80%, valor mínimo para aprovação do lote de sementes. Tal resultado ressalta a importância do uso de fungicidas para controle de doenças da parte aérea. Nas avaliações da primeira contagem e envelhecimento acelerado o resultado foi semelhante onde o uso de fungicida resultou em sementes de melhor qualidade. 

Figura 2. Resultados para os testes de germinação (%), primeira contagem % (PC) e envelhecimento acelerado % (EA) para a cultivar Jadeíte 11.
Figura 2. Resultados para os testes de germinação (%), primeira contagem % (PC) e envelhecimento acelerado % (EA) para a cultivar Jadeíte 11.

Esses resultados podem ser atribuídos a correlação negativa da severidade de manchas foliares na folha bandeira com a qualidade de sementes produzidas (Tabela 1), pois quanto maior a severidade de manchas foliares na folha bandeira menores são os resultados para os testes de germinação, primeira contagem (PC) e envelhecimento acelerado (EA).

A manutenção da sanidade da parte aérea do trigo, principalmente da folha bandeira, é importante para aumentar a produção e a qualidade fisiológica das sementes produzidas. A folha bandeira é a última a entrar em senescência e também é responsável por contribuir com a maior parte dos fotoassimilados para o enchimento de grãos, considerando que a severidade de doenças tem grande impacto na fotossíntese bem como em outros importantes processos metabólicos que ocorrem nas plantas.

A incidência de manchas foliares causou redução da qualidade fisiológica das sementes produzidas, demonstrando a importância do controle não só para produção de grãos como também para a qualidade fisiológica das sementes produzidas.

Francine Zaiosc Simmi, Lucas Navarini, Marcos Paulo Ludwig, IFRS


Artigo publicado na edição 204 da Cultivar Grandes Culturas.

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