Como evitar o impacto da ferrugem asiática na produtividade

Responsável por perdas médias de até 35% e que podem superar 90% em situações críticas, a ferrugem asiática desafia os produtores de soja e ameaça fortemente o potencial produtivo a cada safra. A  chegada recente de fungicidas à base de carboxamidas trouxe um alento ao sojicultor, tanto pela eficiência no controle de doenças como no manejo de resistência. Como a tendência é de que nos próximos sete a 10 anos não surjam novos modos de ação, preservar as ferramentas existentes e trabalhar integradamente todas as estratégias de manejo é essencial.

Até o final do ano 2000, de modo geral, as doenças foliares na cultura da soja na região dos cerrados, pouco representavam em termos de severidade e de perdas de produtividade. As doenças de final de ciclo (DFCs), onde, com algumas imprecisões na diagnose eram englobados fungos como Cercopora kikuchii, Septoria glycines, Colletotrichum truncatum e Corynespora cassiicola, representavam algo em torno de 2 sacas por hectare a 4 sacas por hectare de perdas e dependendo do contexto em que ocorriam eram consideradas as mais importantes daquela época.

Com a introdução de cultivares mais suscetíveis à mancha alvo (muitas vezes aliadas aos materiais resistentes a nematoide-do-cisto da soja) e da maior presença da antracnose (mais intensa em algumas regiões), passou-se a exigir diagnoses e manejos mais precisos a fim de obter os resultados esperados. 

A chegada da ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi) no Mato Grosso na safra 2002/2003 também alterou completamente a forma de diagnosticar e manejar as doenças em função das perdas que rapidamente foram vistas no campo e nunca tinham sido observadas antes nesta magnitude. Passou-se a registrar danos e perdas muito mais severas e utilizar estratégias de manejo muito mais rigorosas para minimizar as perdas causadas por esta doença.

O quadro abaixo mostra o potencial de perda e a média das principais doenças na cultura da soja, mostrando que o mau manejo pode trazer perdas altamente significativas.

Conhecer particularidades das diferentes regiões, épocas de semeadura, ciclo das cultivares, altitudes, correntes de vento, precipitação, molhamento foliar e fontes de inóculo passou a ser muito importante, explicando a dinâmica das epidemias e as diferentes respostas às estratégias de manejo da ferrugem asiática ao longo dos anos. As regiões mais altas do Mato Grosso, como a região Sudoeste onde está a Chapada do Parecis, a região Sul, que envolve a Serra da Petrovina e a região Leste, que abrange principalmente Campo Verde e Primavera do Leste são as que historicamente mais sofreram ao longo destes anos com a ferrugem da soja, em função do contexto anteriormente relatado. Isso não significa que nas outras regiões não exista a ocorrência da doença, entretanto historicamente, as regiões citadas tem exigido mais atenção.

O manejo químico assumiu grande importância naquele momento e, o que antes manejava-se com uma aplicação de benzimidazóis ou estrobilurinas isoladas, exigia agora duas a quatro aplicações por safra de triazóis ou misturas de triazóis e estrobilurinas a fim de realizar um controle satisfatório.

Poucos anos passados, em função da pressão de seleção causada pelo uso repetido dos mesmos modos de ação, a insensibilidade dos fungos aos fungicidas foi ficando evidente, mostrando que produtos extremamente eficientes em um determinado momento, já não eram tão efetivos após alguns anos de exposição.

Entre 2006/2007 e 2007/2008, observou-se em ensaios de campo e em áreas comerciais a queda abrupta de eficiência dos fungicidas triazóis, extremamente eficientes até aquele momento, que eram a grande sustentação do manejo da ferrugem da soja em função do modo de ação e do seu caráter curativo. Passou-se então a recomendar e utilizar nas safras seguintes somente misturas de triazóis e estrobilurinas e o controle voltou a patamares aceitáveis.

Por volta de 2009/2010, a performance dos fungicidas benzimidazóis, produtos amplamente utilizados no controle de mancha alvo, antracnose e DFCs, também tinham perdido a eficiência para Corynespora no Mato Grosso, conforme verificado em ensaios internos  (Carlin, et al. 2011).

No final de 2014, outro evento foi registrado, com a confirmação da mutação F129L, conferindo redução na eficiência dos fungicidas na ferrugem da soja para o grupo das estrobilurinas, afetando todas as misturas.

Infelizmente, a seleção direcional parece ser um processo contínuo. As grandes extensões de soja, aliadas ao uso repetido dos mesmos produtos ou dos mesmos modos de ação, com todo um cenário climático favorável à doença, continuam a reduzir a eficácia destes defensivos, que, na nossa opinião, é diretamente proporcional à exposição destes produtos no campo, além das características intrínsecas de cada ativo.

Em ensaios conduzidos na safra 2013/2014, para semeaduras de início de dezembro, foi ultrapassada a perda de 90% de produtividade por ferrugem da soja (3,5 sacas por hectare na testemunha contra 43,5 sacas por hectare nos melhores tratamentos), confirmando o potencial de perda extremamente alto e já citado na literatura (Yorinori, 2004).

A chegada recente de fungicidas contendo novos ativos à base de carboxamidas trouxe um alento ao sojicultor, pois este grupo de fungicidas específicos tem alta eficiência nas principais doenças da cultura da soja (dentro do propósito de cada produto) e podem representar uma grande contribuição neste manejo. Estes ativos, com novo modo de ação, assumem papel fundamental no controle da ferrugem da soja e no manejo da resistência, por serem uma opção de rotação. Por atuarem a nível de mitocôndria, na respiração do fungo, expressam sua melhor eficiência quando aplicados preventivamente, sem a presença do fungo na área. Atualmente, programas de fungicidas à base de carboxamidas e misturas de estrobilurinas + triazóis tem sido a base do manejo da ferrugem asiática.

A fim de reduzir a velocidade da seleção direcional de fungos e de dar longevidade aos fungicidas de sítio específico, fungicidas protetores e multissítios tem sido avaliados nos últimos anos, com ações interessantes quando associados à fungicidas específicos, mostrando respostas interessantes em complemento de performance de controle da ferrugem da soja, ação anti-resistência, além de efeito em outras doenças como Corynespora, Cercospora e outras.

Manejar doenças em soja de modo racional e viável no contexto atual tem se tornado complexo, pois a ferrugem asiática levou o patamar de perdas a níveis muito altos e além disso, dependendo do ambiente, diversas outras doenças ‘secundárias’ também tem trazido perdas cada vez mais significativas. Não é raro visualizar no campo situações de altas severidades de Cercospora kikuchii, Corynespora cassiicola, Septoria glycines, Colletotrichum truncatum, além de bacterioses, assumirem papel cada vez mais importante, em função de sensibilidade de materiais, fontes de inóculo cada vez maiores em função do nosso modelo agrícola de monocultura e práticas de manejo que muitas vezes não focam no equilíbrio do sistema.

Como não haverá novos modos de ação nos próximos 7 a 10 anos, preservar as ferramentas existentes e trabalhar integradamente todas as estratégias de manejo é essencial para a sustentabilidade e a rentabilidade do negócio soja no Mato Grosso e no restante do Brasil.

Ensaio cooperativo, Agrodinâmica – safra 2015/2016.
Ensaio cooperativo, Agrodinâmica – safra 2015/2016.


Valtemir José Carlin, Agrodinâmica 


Artigo publicado na edição 211 da Cultivar Grandes Culturas.

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