Como manejar alface em sistema de cultivo hidropônico

No Brasil, o cultivo comercial de hortaliças e plantas ornamentais, com o uso da técnica de hidroponia, é de introdução recente e vem se expandindo rapidamente nas proximidades dos grandes centros urbanos, onde as terras agricultáveis são escassas e caras e há grande demanda por produtos hortícolas. Existem muitas variações dentro das técnicas de hidroponia, cada uma com suas peculiaridades. Uma delas é a hidroponia vertical em substrato.

Trata-se de uma técnica conhecida na Europa desde a década de 1970. Esse sistema aproveita vantagens da hidroponia convencional e adiciona outras, especialmente a referente ao melhor aproveitamento da área de estufas.

Um substrato agrícola deve apresentar características físicas e químicas que proporcionem bom crescimento do sistema radicular. Com o objetivo de avaliar qual o melhor material a ser utilizado em sistema de hidroponia vertical foi conduzido um experimento com a cultivar de alface Cinderela, que é do tipo solta-crespa, possui folhas grandes e coloração verde-claro e não forma cabeça.

Foram avaliados cinco substratos: casca de arroz carbonizada, areia janaúba, vermiculita, substrato comercial para a produção de mudas de hortaliça e casca de arroz in natura + substrato comercial.

Todo o cultivo da alface Cinderela foi dividido em três fases: semeadura, berçário e a fase definitiva de produção, que consistiu na utilização dos tubos na vertical. Durante as etapas de berçário e fase definitiva utilizou-se uma solução nutritiva comercial disponível no mercado, específica para a alface.

A semeadura foi feita em espuma fenólica sobre bancada de madeira, sendo irrigada com água duas vezes ao dia até o início do processo de germinação. Sete dias após a semeadura, as células da espuma fenólica foram destacadas e colocadas no berçário, para garantir um bom desenvolvimento inicial do sistema radicular da planta.

Foi montado um berçário (Figura 1), com duas telhas de amianto de 1m de comprimento por 0,5m de largura, com canaletas de 3cm de profundidade por 6cm de largura, em uma bancada com 10% de inclinação coberta por um plástico leitoso e abastecido por um reservatório de 20 litros. Nessa etapa, a bomba era acionada por intervalos de 15 minutos intercalados por intervalos de 15 minutos desligada.

Na primeira semana no berçário as plântulas foram irrigadas com a solução nutritiva, com a metade da concentração recomendada pelo fabricante da solução. Essa prática é importante para não matar as mudas recém-formadas. Somente a partir de 14 dias de semeadura é que começou a ser utilizada a concentração recomendada da solução no sistema. As plantas ficaram 14 dias no berçário e foram transplantadas para a fase definitiva, com os tubos na vertical, após a emergência da quinta folha, que ocorreu aos 21 dias após a semeadura. Não foi utilizado nenhum tipo de reposição, por isso semanalmente a solução nutritiva foi trocada nessa fase.

Diariamente, foi feito o acompanhamento do pH, da temperatura da solução e da condutividade, tanto no berçário quanto no leito definitivo de cultivo. O pH foi mantido em uma faixa de 6 – 6,8. Quando ficava alcalino, acima de 6,8, era corrigido com uma solução de ácido fosfórico (1M). A condutividade média foi mantida entre 2ms/cm e 2,8ms/cm. No berçário foram feitas correções de pH diariamente, devido à alcalinidade da água, já no leito definitivo não foi necessário nenhum tipo de correção.

Para a fase definitiva de produção foi montada uma estrutura à base de canos de PVC de 150mm, arames e caibros de eucalipto. Foram utilizados 20 tubos de 1,20m de comprimento, distribuídos em duas fileiras de dez tubos (Figura 2). Os caibros foram dispostos em forma de duas traves espaçadas, a 1m uma da outra, onde ficaram pendurados os tubos. A parte inferior de cada tubo foi aquecida e amassada, com o auxílio de luvas de couro, deixando-se apenas uma saída para o escoamento da solução. No final de cada tubo, foi colocada uma camada de 10cm de brita para a retenção do substrato. O espaçamento entre os tubos foi de 0,4m por 1m entre as fileiras. Para o acondicionamento das plantas foram feitos furos de 4cm de diâmetro em duas fileiras opostas e alternadas, comportando sete plantas cada tubo.

Os tubos eram abastecidos por um reservatório de 300 litros e a solução nutritiva foi fornecida por meio de gotejadores, com uma vazão de, aproximadamente, 4,6 litros de solução por hora, situados na parte superior de cada tubo. O acionamento da irrigação foi controlado por um temporizador, programado para acionar a bomba por 15 minutos a cada intervalo de 95 minutos. E nessa fase, também, por não ser utilizada nenhuma solução de reposição, a solução nutritiva foi trocada semanalmente. Foi empregada uma bomba Submersa Sarlo Better Sb2000, com uma vazão máxima de 1.950L/h e altura manométrica máxima de 2,10mca.

A colheita foi realizada 45 dias após a semeadura (Figura 3). Foram avaliadas as seguintes características: massa fresca da parte aérea (MFPA), massa seca da parte aérea (MSPA), número total de folhas (NTF) e comprimento médio das folhas (CMF).

A massa fresca foi obtida logo após a colheita, sendo que a planta foi cortada rente ao tubo de PVC. Na determinação da MSPA, o material colhido foi levado à estufa com circulação forçada de ar para secagem a 60°C, até peso estável. Na determinação do NTF foram consideradas folhas a partir de 8cm de comprimento. As folhas foram medidas com uma régua, sendo destacadas do caule e consideradas todas com mais de 8cm. Para as características avaliadas, foram tomadas três plantas de cada parcela, sendo desconsideradas as plantas da borda.

Observou-se que não houve diferença significativa entre os tratamentos em nenhuma das características avaliadas. A média de todos os tratamentos da MFPA foi de 96,06g, valor superior para o cultivo em solo utilizando a alface Cinderela. O mesmo também foi observado para as outras características NTF, MSPA, TMF e CMF.

Mesmo não havendo diferença na produtividade, a areia foi o substrato que demonstrou maior potencial para ser utilizado em sistema de hidroponia vertical com substratos para a cultura da alface. Mas, os resultados sugerem que são necessários mais estudos para testar mais ciclos de cultivos e o reaproveitamento dos substratos.

Clique aqui para ler o artigo na edição 76 da Cultivar Hortaliças e Frutas.

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Julian Rodrigues Silva, Pedro Henrique Lopes Silva, Rizia Rodrigues Santos, Karoline Paulino Costa, Ernane Ronie Martins, Daniel Souza Dias

ICA-UFMG

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