Como maximizar os resultados do manejo da ferrugem asiática

Principal doença na cultura da soja, a ferrugem asiática sempre chama a atenção pelo potencial de prejuízos, agressividade do fungo e exigências quanto ao controle. A adição de fungicidas multissítios aos tratamentos e a identificação do intervalo adequado entre as aplicações tendem a maximizar os resultados do manejo.

A intensificação do uso de fungicidas no Brasil se deu a partir da entrada da ferrugem asiática da soja, causada por Phakopsora pachyrhizi Syd. & P. Syd, em 2001. Desde então, a doença é a principal da cultura no país, podendo ocasionar danos de 90%. Inicialmente, os fungicidas empregados para controle possuíam moléculas com ação de sítio-específico, isso é, o composto químico atua apenas em um ou poucos processos, como o caso de triazóis e estrobilurinas.

Entretanto, com o surgimento de populações do fungo menos sensíveis, tem se observado diminuição da eficiência de controle destes produtos, conforme indicam resultados obtidos pelo Consórcio Antiferrugem e a Fundação Chapadão. A utilização de produtos com ação multissítio, como mancozebe, pode promover benefícios adicionais para o controle da doença, e também para o manejo de resistência.

No intuito de verificar o efeito da adição de fungicidas multissítios para o controle da ferrugem e determinar o melhor programa de manejo para a doença, a Fundação Chapadão realizou ensaios para avaliar o comportamento do fungicida mancozebe 750g/l, associado à azoxystrobina + ciproconazol, 200g/l + 80g/l, em diferentes períodos e intervalos entre aplicações.

Experimentos

O ensaio foi conduzido na safra 2014/15, na unidade experimental da Fundação Chapadão, localizada em Chapadão do Sul, Mato Grosso do Sul.  O objetivo foi de avaliar o melhor intervalo entre aplicações do fungicida (azoxystrobina + ciproconazol, 200g/l + 80g/l) somado ou não ao fungicida (Mancozebe, 750g/l), para o controle de ferrugem asiática da soja, causada por P. pachyrhizi. Para isso, foram realizadas aplicações iniciando-as em diferentes estádios de desenvolvimento, combinadas a intervalos de aplicação, variando entre 14 dias e 21 dias. O ensaio contou com 12 tratamentos, mais a testemunha sem aplicação (Tabela 1). O delineamento adotado foi em blocos casualizados, com quatro repetições. Foi empregada a cultivar Valiosa, semeada em 21/11/2014. As aplicações de fungicida dos tratamentos utilizaram volume de calda equivalente a 150L/ha, e em todos, exceto a testemunha, houve adição de óleo mineral Nimbus, dose de 0,6L/ha.

Tabela 1 - Produtos e intervalos entre aplicações utilizados no controle de ferrugem asiática da soja na Fundação Chapadão, MS, safra 2014/15
Tabela 1 - Produtos e intervalos entre aplicações utilizados no controle de ferrugem asiática da soja na Fundação Chapadão, MS, safra 2014/15

Para identificar o momento de início da doença na área, três vezes por semana foram coletadas folhas de soja das parcelas testemunhas e enviados a laboratório de análise e diagnose de doenças. As avaliações de severidade tiveram início a partir da detecção da doença. A estimativa da porcentagem de área foliar lesionada foi dada a partir da avaliação de dez folhas coletadas em quatro pontos distintos de cada parcela. Os avaliadores atribuíram as notas seguindo a escala de avalição de severidade proposta por Godoy, Koga e Canteri (2006). Os resultados foram submetidos à análise de variância e teste de Scott-Knott, a 5% de significância, através do software Sasm-Agri (Canteri et al, 2001).

Resultados Os ensaios de intervalo de aplicação vêm sendo conduzidos pela fundação Chapadão desde a safra 2010/11, porém sem a adição dos tratamentos com mancozebe. Os resultados sumarizados para estes trabalhos encontram-se na Figura 1. 

Figura 1 - Resultados sumarizados das safras 2010/11, 2011/12, 2012/13 e 2013/14 realizadas na Fundação Chapadão, Chapadão do Sul, MS
Figura 1 - Resultados sumarizados das safras 2010/11, 2011/12, 2012/13 e 2013/14 realizadas na Fundação Chapadão, Chapadão do Sul, MS

Observou-se neste período que os tratamentos com menores intervalos de aplicação apresentavam melhores resultados de produtividade.

O início da doença na safra 2014/15, diagnosticada via laboratório, ocorreu no dia 2 de fevereiro com a cultura em estádio R4. As avaliações tiveram início em R5.1, ocorrendo em intervalos semanais (Tabela 2). Os resultados das avaliações de severidade demonstraram o rápido avanço da doença a partir de sua identificação, chegando à severidade média de 95% na testemunha. O Quadro 1 apresenta a evolução da doença e desfolha na testemunha.

Na avaliação de severidade em R5.5 os tratamentos contendo aplicações em R1, R1+14, R1+28, R1+42 e R1+56 apresentaram as menores porcentagens de severidade, contudo a adição de mancozebe não implicou em diferença significativa na severidade, em relação ao tratamento somente com azoxystrobina + ciproconazol. Já para os tratamentos com intervalos de aplicação de 21 dias (V8, R1, R1+21, R1+42 e R1+56 dias e R1, R1+21, R1+42 e R1+56 dias) e tratamentos com menor número de aplicações (R1, R1+21 e R1+36), a utilização de mancozebe associado a azoxystrobina + ciproconazol contribuiu significativamente para a menor severidade de ferrugem, em relação aos tratamentos apenas com azoxystrobina + ciproconazol (Tabela 2). A evolução da doença foi menor nos tratamentos com mancozebe, indicando possível efeito adicional no residual de controle da doença.

Tabela 2 - Avaliações de severidade de ferrugem asiática da soja na Fundação Chapadão, MS, safra 2014/15
Tabela 2 - Avaliações de severidade de ferrugem asiática da soja na Fundação Chapadão, MS, safra 2014/15

A área abaixo da curva de progresso da doença AACPD e a desfolha foram significativamente menores em relação à testemunha para todos os tratamentos (Tabela 3). Os menores valores foram apresentados pelos tratamentos com menor intervalo de aplicação R1, R1+14, R1+28, R1+42 e R1+56 dias (Tabela 3, Figura 1).

Tabela 3 - Área abaixo da curva de progresso da doença (AACPD), desfolha e produtividade de soja na Fundação Chapadão, MS, safra 2014/15
Tabela 3 - Área abaixo da curva de progresso da doença (AACPD), desfolha e produtividade de soja na Fundação Chapadão, MS, safra 2014/15
Figura 2 - Área abaixo da curva de progresso da doença (AACPD) de ferrugem asiática da soja, de tratamentos com aplicação de fungicidas na Fundação Chapadão, MS, safra 2014/15
Figura 2 - Área abaixo da curva de progresso da doença (AACPD) de ferrugem asiática da soja, de tratamentos com aplicação de fungicidas na Fundação Chapadão, MS, safra 2014/15

As maiores médias de produtividade foram encontradas nos tratamentos com aplicações iniciando em R1, e em intervalos de R1, R1+14, R1+28, R1+42 e R1+56 (tratamentos 8 e 9) e R1, R1+21, R1+42 e R1+56 (tratamentos 12 e 13). Estes resultados podem estar ligados ao surgimento da doença apenas em R4. Em geral, as aplicações que persistiram até os 56 dias após o estádio R1 possibilitaram maior proteção da cultura e menor avanço da doença, resultando em maior produtividade.

Em ensaio testando apenas a aplicação de fungicida multissítio frente à mistura de triazol + estrobilurinas (ciproconazol + azoxistrobina), Silva et al (2015) verificaram acréscimo significativo de produtividade para os tratamentos com aplicação isolada de mancozebe. Os autores ainda citam o potencial da adição do mancozebe a outros fungicidas. 

Figura 3 - Produtividade média de tratamentos com fungicidas no controle de ferrugem asiática da soja na Fundação Chapadão, MS, safra 2014/15
Figura 3 - Produtividade média de tratamentos com fungicidas no controle de ferrugem asiática da soja na Fundação Chapadão, MS, safra 2014/15

Conclusão

Antes da adoção dos fungicidas multissítios os tratamentos com menor intervalo entre as aplicações apresentaram melhores resultados de produtividade. No ensaio com multissítios na safra 2014/14, sob condição de início tardio da epidemia, as aplicações em fases finais do ciclo da cultura promoveram melhor controle da doença e incrementaram a produtividade. A adição de mancozebe às aplicações de azoxystrobina + ciproconazol reduziu a velocidade da epidemia, evidenciada pela severidade dos tratamentos, indicando possível efeito adicional do multissítio no residual de controle da doença.


Lucas Henrique Fantin, João Vitor Andrade, Marcelo Giovanetti Canteri, Edson Pereira Borges, Alfredo Riciere Dias, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, PR., Fundação Chapadão - Chapadão do Sul, MS


Artigo publicado na edição 199 da Cultivar Grandes Culturas.

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